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A beleza nem sempre está no topo da montanha

Nesses dias de pensamentos misturados, descobri que só faz o destino quem evolui.

Gostei tanto dessa frase que decidi tirar uns dias para evoluir. Com tempo de sobra para colocar ordem nessa bagunça em que deve estar essa alma, fui atrás de um Ashram. Só esse nome já sossega meio milhão de “pessoas” que ficam gritando aqui dentro, perto do esôfago, como quem vai para o fígado. E para ouvir esse pessoal iria precisar de uma mata com barulhinho de vento.  Escolhi Teresópolis e parti.

Domingo com chuvinha, já era noite quando cheguei e adormeci no quarto “Sidarta”. De manhãzinha, descendo a montanha a pé, reparei que o ar puro entra sem desvios e embriaga a gente do roxo das quaresmeiras, do cheiro de bruma e daquele barulhinho molhado de andar a pé. Desci até um templo Hare Krishna.

Cheguei meio ressabiada e rapidinho já estava cantando e rodopiando com uma senhorinha que estava lá, no meio de um monte de jovens com aquelas roupas marsalas e aquele cheiro incrível de paz que vem dos incensos, voltei quase voando para o alto da montanha, tudo era tão, tão lindo, que nem quis saber de voltar para quarto. Fui para a sauna, uma casinha de madeira lá no meio da mata, coisa de conto de fadas. Até eu entrar para tomar a ducha gelada. De repente, mudou tudo.

Entrei no chuveiro de água fria nesse estado de graça até abrir os olhos e ver que a água do ralo tinha voltado e nem sei a quanto tempo estava ali. Cai do nirvana, soprei a impaciência e nem quis confirmar o lugar que tinha pisado. Corri para a piscina e, para me ajudar, a espreguiçadeira, imunda, deveria estar ali desde que a montanha chegou. Voltei para o quarto com uma lupa ampliando cada passo, percebendo que ali poderia ter tudo, menos o amor que eu buscava. Aquele lugar parecia uma casca presa na árvore em que a cigarra já voou. Como organizar minha alma num lugar de alma tão bagunçada? Como eu não tinha visto isso? Passei duas noites, nenhum hóspede comigo, naquele lugar que desenhava a tristeza.

Expectativa: lugar lindo e de paz. Realidade: lugar morto e com a alma penada. Saio eu, então. Pergunta aqui, pergunta ali, achei um haras. Aceitar, sem rebater, pode ser um bom caminho. Fui para lá.

Cheguei, olhei mais com os olhos e menos com o coração. Tinha um gramado verdinho, rodeado de montanha, uma cama branquinha com as fronhas pedindo descanso. Sorrisos silenciosos, afetos pequenininhos, cheiro de bolo, brumas, shiatzuterapia, tudo certinho. E tudo isso recebidos pelos donos do lugar que flutuavam no amor que doavam ali para as pessoas que chegavam. Amarramos um papo que anoiteceu. A cena era: Eu, o shiatzuterapeuta, a mulher e o dono olhando para a lua com a alegria das crianças que acabam de se conhecer, tomando vinho, cheio de conversas novinhas para uma amizade que vinha das estrelas.

Senti ali que o amor, feito um rio, entrou num sumidouro naquele Ashram, desembocou pelas brumas nas montanhas desse lugar e veio parar aqui, do lado esquerdo do meu peito. Saí de lá trazida pela paz e sentindo cada pinçada que a vida dá para mostrar que está tudo certo, sempre.  Evoluir deve ser isso.

Devo estar de missão cumprida porque nem vontade de falar mal do ashram no Tripadvisor eu tive.

Escrito por

Linda Raquel Benitez é uma brasileira campo-grandense. Empresária, e estudante de filosofia, é produtora cultural e design de eventos, há 20 e poucos anos na estrada. Formada em buscar um jeito mais leve de ver a vida, sua especialização é falar sem parar. Desde o ano passado, decidiu escrever e assumir suas crônicas para o mundo.

2 Comentários

2 Comments

  1. Jaqueline

    24/03/2019 em 09:08

    Evoluir todos os dias.
    Seus textos me inspiram!!!!
    Obrigada 🙏🏻

  2. Dão

    14/06/2019 em 06:08

    Lindo o que Linda faz de si;

    “Um” desbunde, faz em mim;

    E faz tempão que desbundo, na terrente linda, dum riacho que ascende vale a riba….

    Arriba, Limda!

    Obrigadão…

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