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A fatura sempre chega

E assim começa o fim. Primeiro você deixa de ser prioridade. As conversas ficam mais curtas, as ausências mais longas. Vem à nítida sensação, quase uma certeza, de que não é mais imprescindível, que não há mais nada a acrescentar, que sua experiência é um farol voltado para trás. Ou seja, inútil. No início você nega, grita, esperneia. Depois percebe que, infelizmente, não há nada a fazer. Você é impotente diante da realidade.

Aí você começa a se sentir uma carga, espécie de um fardo sutil. Muito bem disfarçado. Para quem carrega, pode não parecer assim tão pesado, mas com o passar do tempo aparecem as mudanças… As coisas realmente se tornam visíveis – às vezes, assustadoras.  E diante do inevitável, os conselhos verbais começam a sair de todas as bocas: reinventar, mudar, rezar/orar, meditar, aceitar. E sempre, sempre pedir perdão pelos pecados cometidos. Aqueles que você sequer imaginava que estava cometendo.

Ou seja, a vida que você aproveitou ao máximo (seguindo o conselho da época), as coisas boas e divertidas que fez – os pequenos ou grandes excessos, os enganos, tudo que disseram a você, tinha preço. A frase “Aproveita que vida é curta” é uma tremenda enganação. Mas todo mundo acredita. É uma espécie de aval para sorver cada bocadinho de vida, de prazer, cada minuto, como se tudo não fosse acabar um dia. 

E do nada, simplesmente do nada, você descobre que não sobrou quase nada da fonte do prazer. Era tudo uma ilusão que criaram para você se sentir, digamos um pouco mais confortável na pele em que habitas. Tudo tinha um preço. Mas não havia etiqueta. Depois chega a fatura e você se pergunta: isto é meu? Pois é, ninguém lhe disse que você estava acumulando dívidas. E só quando você envelhece descobre a terrível, inexorável verdade: a vida não é de graça. Tudo lhe será cobrado mais adiante. Absolutamente tudo. Mesmo as coisas que não são suas, mas, por acaso, passaram por você. Não há como fugir. É como os impostos. De um jeito ou de outro, você paga. Mesmo não achando justo, paga assim mesmo. E neste caso, sem refis nem moratória.

Pague. E siga em frente – que atrás vem gente. Não existe opção. E só a maturidade nos faz perceber que não podemos mudar os fatos. Eu sei, é desalentador. E sem que você se dê conta, está rodeada pela angústia. A solidão será sua companheira fiel. E o que é ainda pior, sem chance de reclamar da dor que pesa no peito. Ninguém mais está interessado na sua dor, nas suas lamúrias, nem nas suas histórias. Você é o passado. Acabou, já era. Não são apenas as rugas, os fios brancos, a pele flácida, o joelho que dói, a coluna que reclama. Não é nada disto que lhe torna passado. É a invisibilidade que vai tomando conta aos poucos de você. É a certeza de que não faz mais diferença, nem é necessário. Na hora em que forem embora as suas utilidades, você vai saber o quanto é amado. E isto pode lhe surpreender.

E pode engolir o choro, como nos diziam nossas mães quando ainda éramos docemente inocentes. Pode engolir o medo, a insegurança, o desespero. Engula tudo e se dê por satisfeita/o pelas mínimas coisas que o universo ainda lhe dá. O ser humano tem prazo de validade. Mesmo vivo. O consolo, se é que existe, é saber que todos, todos que como você se iludiu com o mundo ao seu redor, também passarão pelo mesmo caminho. A não ser que despertem para o que a vida realmente é. Apenas uma estrada com pedágio. Uma passagem. E uma vez despertos, pela fé, pelo amor ou pela dor, consigam, finalmente, entender que tudo passa. Às vezes a ferro. 

Escrito por

Theresa Hilcar é mineira, de Lagoa da Prata e chegou em Campo Grande no início dos anos 1980. Pouco depois iniciou sua carreira jornalista atuando como apresentadora de TV e participou de diversos programas nacionais como convidada. No jornalismo impresso passou pelo Jornal da Cidade, Revista Executivo Plus até chegar ao jornal Correio do Estado (sua melhor escola, como costuma dizer), onde atuava, principalmente. como repórter de cultura. Foi no jornal que se descobriu cronista e passou a publicas suas crônicas todas às terças-feiras, por quase 30 anos. Cursou Letras e Comunicação Social. Tem sete livros publicados e algumas antologias. Aos 61 anos, a jornalista e escritora diz que a coluna da Blink é quase um reinventar-se. Afinal, escrever para um púbico mais jovem será um desafio, confessa. No entanto, espera que seus textos possam conversar com leitores de todas as idades. É cinéfila de carteirinha, apaixonada por literatura se nunca se cansa de viajar. Por países e textos.

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