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A vida feita de histórias

A história de João Jiló, lida no tempo da escola, ultimamente não sai da minha cabeça. Não sei se alunos de hoje ainda leem essa historinha, pitoresca, sobre o caçador que resolve matar passarinho justamente no dia considerado sagrado para os cristãos: a Sexta-Feira Santa. Em algumas versões diz-se que ele atira em um galo, noutras em um passarinho “estranho”. O fato é que o autor da dita heresia é punido com gritos de dor da sua vítima até mesmo depois de morto.

“Um tiro é disparado, Uma voz se ouviu, Sem saber de onde ela saiu: Não arranque as asas dele, João Jiló, porque dói e dói. Não arranque as penas dele, João Jiló, porque dói e dói…”.

Incrível como certas histórias deixam marcas em nossa memória. Quase cinquenta anos depois, ainda ouço a voz da vítima pedindo clemência ao seu algoz: “Dói, dói, João Jiló”. Basta um gatilho e pronto – ela vem à nossa mente e fica como um mantra que a gente repete, repete, repete à exaustão. Dói, dói João Jiló!

Na minha história não me lembro de ouvir o tiro, mas sinto na pele a dor de ser arrastada até a cozinha, de cada pena arrancada, da lâmina cortando meu corpo, da mistura de sal e vinagre que arde minhas partes e, principalmente, do forno. A dor é dilacerante, desesperadora. Os pedidos de socorro parecem não surtir efeito algum, não há misericórdia, nem consciência. O algoz desconhece qualquer sentimento de compaixão. Ele não tem alma, desconfio.

Argumento, tal qual a sua presa, que estou aqui neste mundo para cantar, para viver livre na natureza, e não faço mal algum a ninguém. Ele faz ouvidos moucos e continua me arrastando, arrancando minhas penas, cortando meu corpo com lâmina afiada e precisa. E tem o forno. Um enorme forno a lenha pronto para o rito final.

Dói, dói, João Jiló! Mas ele não entende a língua das aves. O que ouve são apenas grunhidos. E ele, como exímio caçador que é, está acostumado com esses sons de desespero. E sabe que, breve, tudo vai passar. Basta ter paciência até chegar a hora em que, finalmente, poderá degustar sua presa. Ao forno, com batatas. Por isso, nem liga. É sempre assim. Toda caça luta pela sua vidinha, ignorando a fome do caçador.

Mas como o galo (ou passarinho) da história, eu continuo gritando. Peço clemência, apelo para os santos, anjos, budas. Apelo pelas estrelas, pela lua, pelos lagos, pela floresta inteira. Recuso-me a ser submetida à ignorância do caçador. Recuso-me terminantemente àquela morte tosca e brutal, apenas para saciar o desejo daquele monstro que me arrasta com brutalidade até sua cabana. E continuo gritando cada vez mais alto: dói, dói, João Jiló. Vão-se as penas, os membros, os restos jogados na pia, o preparo, o ato final. O forno bem à frente, a lenha crepitando, a temperatura perfeita para cozidos e assados.

Torço para que, a exemplo da história de João Jiló eu consiga escapar. Pularei do forno gritando que ele cometera um pecado e lhe assombrarei pelo resto da vida. Meu jiló, legume, aliás, que nunca gostei, no entanto, é apenas mais um dos personagens que me assombram diuturnamente. Talvez, e no fim das contas, minha história se pareça mais com Dom Quixote, o fidalgo que luta contra moinhos de vento. Porém, falta-me o gosto pela aventura e um amigo fiel como Sancho Pança. Minha sina parece ser mesmo continuar recitando o mantra contra um reles e herege caçador:  dói, dói muito, João Jiló.

Escrito por

Theresa Hilcar é mineira, de Lagoa da Prata e chegou em Campo Grande no início dos anos 1980. Pouco depois iniciou sua carreira jornalista atuando como apresentadora de TV e participou de diversos programas nacionais como convidada. No jornalismo impresso passou pelo Jornal da Cidade, Revista Executivo Plus até chegar ao jornal Correio do Estado (sua melhor escola, como costuma dizer), onde atuava, principalmente. como repórter de cultura. Foi no jornal que se descobriu cronista e passou a publicas suas crônicas todas às terças-feiras, por quase 30 anos. Cursou Letras e Comunicação Social. Tem sete livros publicados e algumas antologias. Aos 61 anos, a jornalista e escritora diz que a coluna da Blink é quase um reinventar-se. Afinal, escrever para um púbico mais jovem será um desafio, confessa. No entanto, espera que seus textos possam conversar com leitores de todas as idades. É cinéfila de carteirinha, apaixonada por literatura se nunca se cansa de viajar. Por países e textos.

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