Da sacado do prédio olho o céu e ouço o silêncio da cidade. É final de tarde num dos feriados de final de ano. Ao fundo, resquícios do barulho de um ou outro carro na rua. Tudo em paz, respiro, enquanto lanço olhar agradecido à minha casa, meu abrigo, onde desfruto de uma solidão consentida e totalmente aproveitada. Muito bom poder fazer o que se tem vontade, comer só na hora da fome, assistir ao filme preferido e aproveitar cada segundo de um dia de absoluto dolce far niente.

De repente a culpa de estar feliz por nada – eterna culpa – muda o rumo dos pensamentos e me faz lembrar do cenário de guerra que está acontecendo, naquele mesmo momento, em vários lugares deste vasto mundo. Enquanto estou ali fagueira e despreocupada, saudável e tranquila, centenas e milhares de pessoas sofrem com o desatino dos poderosos, ávidos de sangue e poder. As mortes são incontáveis. Não há números precisos.

O recente ataque contra o General iraniano me despertou para o terror. A tecnologia trouxe a guerra para a palma da nossa mão. Nas entrelinhas percebo o medo de uma proximidade. Não há nenhuma previsão, nenhuma certeza que corrobore este temor. Pelo menos no momento. Dizem que ninguém quer um conflito. Mas a crise atual, dizem os analistas, amplifica as chances de que algum erro de cálculo acabe desencadeando mais derramamento de sangue.

Naquele canto do mundo não faltam guerras. Além da Pérsia, vizinho como Síria, Afeganistão, Iraque travam lutas seculares. Homens, políticos, religiosos e fanáticos provocam atrocidades contra mulheres oprimidas e crianças inocentes. Matam os mais velhos de angústia e desesperança. Em locais como a Palestina não há um só dia em que não explodam prédios e pessoas. Dormir deve ser artigo de luxo por lá.

No mesmo instante em que estico as pernas e procuro um petisco para acompanhar o filme, do outro lado do mundo alguém está fugindo de uma bomba. Em meio aos destroços outros gritam de pavor, talvez por socorro. Mães perdem seus filhos, crianças ficam órfãs e ninguém se importa. Duro reconhecer que o mundo, forjado em guerras, disputas, poder, vaidade e muito, muito sangue, não evoluiu. Basta ler os livros de história ou assistir filmes, a maioria baseada em fatos reais. A vida era ainda mais tênue. Menos que um sopro. Talvez as coisas não tenham mudado muito.

Vivemos num século cheio de vontades e facilidades, sem pouca ou nenhuma compaixão pelo próximo. E o próximo não é nem o mendigo que lhe incomoda pedindo dinheiro. O próximo está bem ao lado. Talvez até junto. Mas isto daí a gente vê depois, talkey? A busca pela tão sonhada felicidade está sempre no futuro, embrulhada com votos de um novo ano feliz e próspero.  E muita esperança e otimismo, claro! Cinismo e ignorância afinal são de graça.

Por isto, enquanto o mundo explode nas nossas telinhas, não seria nada mal se alguns de nós pudesse perceber nossa parcela de responsabilidade, principalmente pelas escolhas. Porque ser feliz nesses tempos passa por reconhecer que nós, seres humanos, em alguma medida erramos. E continuamos errando. Ainda não entendemos que somos um, iguais mesmo sendo diferentes. Dizem que autocrítica e vergonha são melhores companheiros para escrever a história do que culpa ou esperança. O que não vale, de jeito nenhum, é o remorso. Melhor sair da poltrona e fazer mea culpa. Bora?

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