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COLUNISTAS

Aos velhos amigos

A noite acabou de sair e já falei com três amigos. São ligações que, quase ontem, se fazia da mesinha de canto, presa no fio do telefone. Hoje é uma liberdade só, andando pela casa com café na mão, ou sentada no sofá, balançando os pezinhos. É uma mania de dar uma olhada na vida de cima e ver brotar minutos ricos de coisas profundas, disfarçados de bobeiras, antes de descer para a realidade. É assim que o dia se resolve e a vida toma fluxo. 

Um tempinho atrás, com um falava de cultura, com outro eram as tendências, e era com o três as longas impressões da vida, numa filosofia sem fim. As questões sempre chegam de forma supernatural:  Você viu o novo do Almodóvar? Soube do lançamento do iphone 5? Nossa, a câmera está demais! Ou um despretensioso “não concordo com Freud” numa análise qualquer de fila de supermercado. Nessas conversas levinhas, o dia chegava e eu saía para trabalhar, tomada de amigos e novidades do mundo.

Hoje de manhã, na primeira ligação, já parecia um grilo falante: Saiu o resultado da ressonância de quadril, acho que tem uma lesão e vou ter que tratar, ele pediu mais exames. Você está com a voz anasalada.. peguei uma gripe dos infernos e estou me arrastando aqui para falar com você, como é muito ruim ficar ruim, né? Na segunda, outro amigo me diz que passar uma noite em claro é a pior coisa que se pode fazer nesses tempos em que os dias passam como trem-bala, e que estava sentindo no corpo que a idade dele precisava dormir. Apesar do drama, achei poético! No três, não falamos, recebi uma mensagem: Bom dia amiga, você sabe o que são microangiomas? 

Aqui não teve jeito, tive que parar para pensar. Tem alguma coisa acontecendo com a gente, não é possível… Não sabia nem o que dizer. Um respiro foi suficiente para a verdade dessa palavra tomar conta da minha sala e, entregue aos devaneios, respondi por dentro: microangioma significa que mudamos nossas perguntas matinais e que isso deve ser envelhecerQuase certeza que seja isso

Agora aqui, nesse restinho de manhã e uma tentativa de descobrir o momento em que essa chave vira e essas perguntas ganham um monte de palavras novinhas em folha. E com essas novas frases, o que de fato estamos tentando nos dizer? A resposta vem e coloca o tempo diante dos olhos, quase dando para pegar com a mão.

Não tem problema envelhecer, só precisa cuidar com as perguntas. O segredo é de vez em quando repetir a mesma que um dia foi feita, tipo: você viu o último do Almodóvar? Que aliás, não vi.  Vou tentar ver hoje, depois da consulta.

1 Comentário

1 Comentário

  1. Eristom Gonçalves

    19 — 07 às 11.32

    Como é louco viver os momentos tão diferentes no nosso dia a dia.

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