São vinte anos olhando para você desse mesmo lugar. Um privilégio porque daqui pude assistir seu repouso tranquilo e imaginar seu sonho que vez ou outra me sorriu e noutras quase me fizeram desmoronar. Parada e sem o poder de me mexer, acompanhei nesses anos todos o girar do seu louco espiral de desejos.

Cada hora uma coisa,

Cada dia de um jeito.

Linda do céu, quanto você já chorou, gargalhou, abriu mala, fechou mala,

Entrou-saiu

Sozinha-acompanhada-sozinha, nessa eterna busca de procurar fora o que está por dentro. E em quantas vezes o tempo parou e você nem.

Linda, Linda, quanta energia.

Em todos esses outonos, vi a malemolência despertar suas manhãs mais frias. Outro dia mesmo parei para contar e acho que passaram por aqui umas duas mil xícaras de café na sua mão, nessa passada para a sacada, ainda no comecinho do sol. Isso sem falar nos livros que nem sempre ficaram arrumadinhos depois da sua presença. A sala sempre ouriçada a cada entrada denunciava na saída seu silêncio bagunçado. Eu e essa sala já vimos tanta coisa.

Nos dias tristes, em mim você parava os olhos por horas e horas, sem se dar conta. E ter que aguentar sua loucura na ânsia de mudar a cor de tudo? Lembra da fase mexicana que fui vermelha intensa?

Já te vi religiosa, espalhando nossa senhora em cada pedacinho meu. Já te vi profana, procurando em mim nus para te acalmar. E aquela vez que você enfiou na cabeça o minimalismo e ficamos só eu e você?

Hoje foi diferente porque senti no seu passo o mansinho da calma. Já não mais pedindo abraço, já não mais nas mãos daquela falta que te acolhia. Já não mais nada e você, inteira.

Ser parede na sua casa não é tarefa para qualquer um, Linda. Feliz do espelho que não tem ouvido para nada.

Que bom ter você de volta.

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