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Até onde posso ir?

Desde pequena trabalhei até ficar grande. Vendi laranja descascada aos nove, cuidei carros no mercadão aos quatorze. De quinze a dezoito, atendi telefone. Daí, vieram os shows, as noites de produção e os projetos. E ainda é assim, aos quarenta e nove. Mas, sempre achei tudo meio sem graça. Faltava alguma coisa. Então, comecei a inventar nomes para melhorar aquilo que eu fazia. Flanelinha virou observadora de automóveis; atendente, colecionadora de conversa, e por aí foi. Me divertia. Só eu sabia disso. E, com as palavras, tudo fez sentido.

Confesso que nunca entendi direito o significado de “profissão”. Tive que olhar na internet: “aquilo que chega antes de você mesmo”. Ou, “uma declaração de sentimento”. Achei importante. Talvez, agora, faça sentido. Porque quando as pessoas me perguntavam, a palavra ‘profissão’ sempre flutuava em mim.

Hoje, faço de tudo um pouco. Essa semana, por exemplo. Fui chamada por um rapaz próspero. Queria enfeitar as novas salas de trabalho. A empresa era imensa, do tamanho daquele sucesso todo e revelava uma força de quem busca isso desde menino. Dava para sentir no ar. O rosto dele era radiante e feliz durante nossa caminhada. Andamos por tudo, até as salas de cima. Ele falava, falava e falava. Aqui vamos quebrar essa escada, tirar essa janela, aqui, a sala de reunião. Falava rápido. Tinha um mocinho que acompanhava quieto nosso movimento. Trabalhava lá, todos os dias. Era ele quem abria as portas pra gente. 

Diante de uma das salas, paralisei. Não consegui entrar. Meu mundo parou de girar. A voz ficou lá longe. Aqui, quero isso, aquilo…Cada vez mais longe. Num silêncio de desmaio, percebi: aquela sala, era a casa do mocinho das chaves. Se fosse um filme, aqui mudaria a trilha. Um piano. Debussy. 

O tapete, sala de estar. Um caco de guarda roupa, seu espelho. Do lado esquerdo, uma cama. O criado mudo, um caixote coberto com um tecido tão branco que chegava a brilhar. Em cima, as bisnagas de barbear, milimetricamente dispostas, uma do ladinho da outra. E na parede central, o chapéu de carandá. Aquele universo de dignidade me roubou uma lágrima. E o mocinho notou.

Naquela porta conheci o limite entre o sonho e realidade. Isso não foi nada profissional. Às vezes, nesses dias de trabalho, tem certas coisas que é melhor não inventar.

Escrito por

Linda Raquel Benitez é uma brasileira campo-grandense. Empresária, e estudante de filosofia, é produtora cultural e design de eventos, há 20 e poucos anos na estrada. Formada em buscar um jeito mais leve de ver a vida, sua especialização é falar sem parar. Desde o ano passado, decidiu escrever e assumir suas crônicas para o mundo.

1 Comentário

1 Comentário

  1. Benites

    02/08/2019 em 13:15

    Parabéns pelo belo talento.
    Sucesso sempre.
    De um fã anônimo.

    🤩

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