Ano novo e velhas guerras

Da sacado do prédio olho o céu e ouço o silêncio da cidade. É final de tarde num dos feriados de final de ano. Ao fundo, resquícios do barulho de um ou outro carro na rua. Tudo em paz, respiro, enquanto lanço olhar agradecido à minha casa, meu abrigo, onde desfruto de uma solidão consentida e totalmente aproveitada. Muito bom poder fazer o que se tem vontade, comer só na hora da fome, assistir ao filme preferido e aproveitar cada segundo de um dia de absoluto dolce far niente.

De repente a culpa de estar feliz por nada – eterna culpa – muda o rumo dos pensamentos e me faz lembrar do cenário de guerra que está acontecendo, naquele mesmo momento, em vários lugares deste vasto mundo. Enquanto estou ali fagueira e despreocupada, saudável e tranquila, centenas e milhares de pessoas sofrem com o desatino dos poderosos, ávidos de sangue e poder. As mortes são incontáveis. Não há números precisos.

O recente ataque contra o General iraniano me despertou para o terror. A tecnologia trouxe a guerra para a palma da nossa mão. Nas entrelinhas percebo o medo de uma proximidade. Não há nenhuma previsão, nenhuma certeza que corrobore este temor. Pelo menos no momento. Dizem que ninguém quer um conflito. Mas a crise atual, dizem os analistas, amplifica as chances de que algum erro de cálculo acabe desencadeando mais derramamento de sangue.

Naquele canto do mundo não faltam guerras. Além da Pérsia, vizinho como Síria, Afeganistão, Iraque travam lutas seculares. Homens, políticos, religiosos e fanáticos provocam atrocidades contra mulheres oprimidas e crianças inocentes. Matam os mais velhos de angústia e desesperança. Em locais como a Palestina não há um só dia em que não explodam prédios e pessoas. Dormir deve ser artigo de luxo por lá.

No mesmo instante em que estico as pernas e procuro um petisco para acompanhar o filme, do outro lado do mundo alguém está fugindo de uma bomba. Em meio aos destroços outros gritam de pavor, talvez por socorro. Mães perdem seus filhos, crianças ficam órfãs e ninguém se importa. Duro reconhecer que o mundo, forjado em guerras, disputas, poder, vaidade e muito, muito sangue, não evoluiu. Basta ler os livros de história ou assistir filmes, a maioria baseada em fatos reais. A vida era ainda mais tênue. Menos que um sopro. Talvez as coisas não tenham mudado muito.

Vivemos num século cheio de vontades e facilidades, sem pouca ou nenhuma compaixão pelo próximo. E o próximo não é nem o mendigo que lhe incomoda pedindo dinheiro. O próximo está bem ao lado. Talvez até junto. Mas isto daí a gente vê depois, talkey? A busca pela tão sonhada felicidade está sempre no futuro, embrulhada com votos de um novo ano feliz e próspero.  E muita esperança e otimismo, claro! Cinismo e ignorância afinal são de graça.

Por isto, enquanto o mundo explode nas nossas telinhas, não seria nada mal se alguns de nós pudesse perceber nossa parcela de responsabilidade, principalmente pelas escolhas. Porque ser feliz nesses tempos passa por reconhecer que nós, seres humanos, em alguma medida erramos. E continuamos errando. Ainda não entendemos que somos um, iguais mesmo sendo diferentes. Dizem que autocrítica e vergonha são melhores companheiros para escrever a história do que culpa ou esperança. O que não vale, de jeito nenhum, é o remorso. Melhor sair da poltrona e fazer mea culpa. Bora?

Velhinhos e invisíveis

Um dia ele me disse, assim como quem não quer nada, que o motivo de ser deixado de lado é o fato de não falar inglês.  Achei graça na observação, mas penso que este não é o caso. Às vezes se conversa sim, na língua inglesa. Mas é pano de fundo apenas. Com exceção de uma ou duas pessoas, todos que estão na sala são monoglotas. Sabem uma expressão ou outra, meia dúzia de palavras quando muito.

 Mas já que estávamos no terreno das conjecturas, resolvi contribuir. O motivo são os sessenta, disparei. Meu amigo me olhou longamente, tentou aprumar o corpo e depois de alguns segundos concordou: é, pode ser isto mesmo. A sala na qual passamos boa parte do nosso dia é repleta de gente jovem. Nós dois, eu e meu amigo, somos do século passado. Os únicos que passaram a faixa que nos denomina de terceira idade. Somo velhos, melhor dizendo.

Num espaço 60 metros quadrados e muitas janelas, as conversas são sempre direcionadas a temas frugais, digamos assim. O que não gira em torno do trabalho vai para o balaio das inutilidades. Ou melhor, para um universo paralelo, é o capítulo da novela, a frase de uma celebridade, o lanche do dia e, claro, as gossips, para não dizer que eu não sei falar uma ou outra frase descolada.

Por isto, na maioria das vezes, nós os velhinhos, ficamos de boca fechada. Não por falta de assunto – pois histórias temos de sobra -, mas por absoluta falta de interesse dos outros. A bem da verdade, devo dizer que eles não nos escutam. E nem se esforçam para. Quando se faz estritamente necessário ser ouvida, tenho que me levantar da cadeira e ir ao encontro do meu interlocutor. Só assim. Às vezes, mas não raro, sou interrompida no meio da frase. É como se batesse um cansaço na pessoa que ouve. E isto, não obstante meus esforços, digamos assim, para falar coisas inteligentes ou agradáveis.

Sim, é preciso muito esforço. Porque, ao que tudo indica, os interesses, as opiniões, minha e do meu amigo, não interessam absolutamente a ninguém num raio de cinco ou seis metros. Vá lá, nem no corredor. Somos aqueles animais pré-históricos. Como é que se chama mesmo? Pois é, a memória também é um fator delicado e preponderante. Ninguém aqui tem paciência de esperar que nosso tico e teco façam seu trabalho.

Lembrei. Somos dinossauros, inclusive em nosso ofício. Embora, cá para nós, acho que a experiência neste ramo faz toda diferença. Assim como ler vários livros, gostar de museus, distinguir uma obra de arte, ou um bom filme; ou ainda ter um paladar, digamos, mais refinado até na hora do snack – olha eu de novo no inglês. É como me disse certa vez a sábia jornalista, Monica Waldvoguel: “A gente não pode deixar barato nossos anos de estrada, né? ”.

Só que isto não funciona por aqui. A juventude com todo seu frescor e impunidade (sim, eles podem fazer tudo), é quem comanda as hostes (sic!), quem recebe atenção e méritos, quem se sobressai. Portanto, não é o inglês que faz nossa segregação social. É o som da nossa voz, nosso corpo flácido, nossas diferenças de temperatura e de humor, nosso silêncio, nossas vicissitudes, nossa relação intrínseca com a história. Essas coisas poucas.

Talvez o que nos separa mesmo seja o fato de intuírem que, com alguma dose de sorte, serão eles a ocupar nossos lugares daqui a algum tempo. Afinal, todo Narciso acha feio o que não é espelho. Quem disse isto foi um “velhinho” muito talentoso chamado Caetano Veloso.

Uma carta de papel

Tenho a minha frente três folhas de papel ofício escrita à mão. É uma carta, caros leitores. Veio num envelope pardo, com registro e selo dos Correios. É quase uma volta ao tempo. Que aliás, sem saudosismo, era bom demais. Esperar e receber uma carta, trazia uma emoção e um prazer indescritíveis. Me lembro de uma vez que, para aumentar ainda mais minha ansiedade, o namorado enviou um envelope todo grampeado. Tive que tirar um por um os inúmeros grampos, e com o maior cuidado para não estragar o conteúdo. Que vinha escrito em folhas delicadas em papel seda.

Vai tão longe este tempo que mal acreditei quando o amigo, do qual não tinha notícias há tempos, usou a tecnologia para perguntar meu endereço. O digital, né? – perguntei. Não, ele disse enfaticamente. Quero o endereço real com CEP e tudo, respondeu. Meio desconfiada, como toda boa mineira, ainda pensei tratar-se de alguma brincadeira. Só acreditei mesmo quando peguei nas mãos o envelope, que além do endereço continha a inscrição – Terra de Santa Cruz, tal como Pero Vaz de Caminha denominou o Brasil em carta enviada à Portugal.

Ufa! Leitores do século 21 terão que consultar o Google para confirmar as informações. Crônica é pura cultura, meus caros. Aliás, meu amigo escriba, além de culto é um especialista em reinventar-se. Jornalista de mão cheia, escrita afiada e ouvidos mais ainda, diz que hoje escreve apenas por prazer em um ou outro veículo. “Ninguém mais lê nada, no geral”, escreveu.

Segundo ele a profissão de jornalista desceu o ralo. Graças à novas tecnologias, toda e qualquer pessoa que tenha um celular na mão detêm informação. E vai mais fundo dizendo que as pessoas, atualmente, não se interessam mais por conteúdos, pois lhes bastam o superficial, o sucinto, o líquido, como no conceito do escritor Zygmunt Bauman das “modernidades líquidas”. Meu amigo, que tem uma biblioteca com oito mil livros diz que a leitura é o maior ato de doação do ser humano. Por isto prefere ler a escrever.

E continua por aí, descrevendo seu dia a dia com olhos no futuro próximo, a temporada de sol que pretende fazer em Trancoso, depois Gotemburgo (Suécia) e de volta a Minas, numa fazenda no interior onde, imagino, vai curtir seu merecido descanso. Enquanto isto não acontece ele continua jornalistando e aprendendo novos ofícios com aulas de desenho em crayon. E ainda me manda de presente uma xilogravura que vou mandar colocar na moldura assim que tiver um tempinho.

Porque, ao contrário do eficiente e multifacetado amigo, não consigo usar o tempo para fazer várias coisas. E morro de preguiça de ir aos Correios por conta das filas imensas para pagar contas – e ninguém para enviar cartas. Por isto achei melhor dedicar-lhe estas linhas e, a bem da verdade, por ter perdido completamente o jeito para escrever cartas. Mais fácil uma matéria ou uma crônica. Até porque, e com o perdão da metáfora, a carta iria chegar amarfanhada das águas que, com certeza, iriam cair no papel –  mesmo não sendo de seda.

Eu também choro, meu querido. E como você, choro por qualquer manifestação externa principalmente de carinho. Sua carta, aliás, foi muito mais que uma volta ao tempo. É a certeza de que ainda existe vida inteligente e amigos que cultivam o valioso sentimento da gratidão porque sem ela não há qualquer sentido na vida. Por isto vou segurar as águas e dizer apenas: obrigada Marcinho.

Formas de crescer

Tenho várias datas de nascimento, além daquela registrada em cartório. A bem da verdade, eu nasci diversas vezes ao longo dos anos –  muitos. De vez em quando tenho a sensação de que, até por volta dos 40 anos, meus olhos e ouvidos estavam tampados.  Por certo eu apenas flanava, flutuava, existia. Os acontecimentos, as tragédias, eram para mim apenas notícias tristes no jornal.  A vida se resumia aos filhos, trabalho e o constante vazio existencial. Sim, faltava alguma coisa, mas eu não tinha a menor ideia do que era.

Chegando aos 50 passei a enxergar flashes de realidade e, finalmente, coloquei os pés no chão. Mas foi mesmo aos 60 que percebi o mundo do qual faço parte, repleto de pessoas, lugares e culturas distintas.  Além do tempo, da experiência e maturidade, devo dizer que desde cedo os filmes, e agora séries, sempre influenciaram minha vida. De certa forma eles são responsáveis pelo meu crescimento e pelos renascimentos. E por pouco não nascia na sala do cinema do meu avô. Mas isto é outra história.

Semana passada tive uma dessas epifanias ao assistir a série “Chernobyl” (HBO). Estupefata diante do horror, fiz as contas do tempo tentando me lembrar onde minha alma estava em 1986. O corpo vagava por aqui, entre vicissitudes, incerteza e, claro, ninharias. A cabeça provavelmente estava ocupada com algumas hecatombes existenciais.

O fato é que a memória, de alguma forma baniu o acontecimento. Não só para mim, mas para milhares de pessoas, inclusive os russos, que minimizaram e esconderam a verdade durante anos. Por eles, e pela maioria dos responsáveis, a tragédia de Chernobyl corria o risco de desaparecer na névoa do passado, da Guerra Fria, ao mesmo tempo em que novas gerações cresciam com seus próprios traumas. Dizem que quanto maior a dor, maior é o esquecimento.

Durante a série “Anos Rebeldes” (série da Globo sobre a Ditadura Militar) produzida nos anos 1990, fiquei estupefata com tudo que aconteceu no País. Logo após o último capítulo liguei para uma amiga e perguntei: onde eu estava quando tudo aquilo acontecia? Estávamos no colégio interno, respondeu-me. Menos mal. Seria mesmo difícil para uma menina de 12 anos, dentro um rígido sistema de confinamento saber de alguma coisa. A situação política, claro, não entrava nos muros da escola.

Depois disto, de tempos em tempos, acontecia outro evento e eu me fazia a mesma pergunta: “onde eu estava? ”. Fosse escrever minha biografia poderia dar o título de “A mulher que se atrasava”. Estou sempre enxergando e chegando na história muito depois. É possível que tenha me faltado mais uns bons anos de universidade ou mais livros.

Mas tem um acontecimento onde, por motivos cronológicos, não poderia estar presente – a Segunda Guerra. Mas a recente série/documentário da Netflix (recomendo veementemente) sobre o tema, me transportou aos horrores da era Hitler. Nem todos os livros que li conseguiram colocar-me minimamente a par da verdade. Nem os inúmeros filmes, que fizeram recortes da tragédia, me tocaram de forma tão atroz, não obstante a emoção sentida ao assistir “O pianista”, ou a “A lista de Schindler”, para citar alguns exemplos mais recentes. E a comparação com o momento presente foi inevitável. As tragédias começam assim, de forma quase inocente e magnânima.

Conversando com a filha de um italiano que viveu a Segunda Guerra, ela contou-me que o pai, uma figura otimista e alegre, dizia que o segredo da vida era saborear cada momento como se fosse o último. E gostar de tudo, apreciar cada filigrana do tempo presente, aceitar as pessoas e as coisas do jeito que elas são. Embora já tenha ouvido a frase várias vezes, naquele momento ela soou diferente, tocou-me profundamente. Foi outra epifania, mais um renascimento. E que venham outros até que, finalmente, eu possa compreender o mundo. Não sem o medo de que a espécie humana volte a repetir os mesmos erros do passado.

A dura vida social

Tenho quase certeza que a culpa da ansiedade é das redes sociais. A bem da verdade, penso que é sim. E foi com este decreto, e de uma só vez, que tentei sair de todas elas.  Mas qual o quê! – como diria Chico, o Buarque de Holanda. Eu tentei, mas não consegui. Elas ainda estão lá, não obstante meus esforços de quase neófita digital – é bom frisar. Fico pensando nas redes daquele filho – aquele – que desapareceu de um dia para o outro. Quem será o danado que fez aquele trabalho tão eficiente? Há algum tempo consegui sair do famigerado facebook.  Mas o Facebook não saiu de mim. A página continua lá – mesmo eu não tendo mais acesso – e, pior: as pessoas continuam me mandando pedidos de amizade. Para elas devo parecer mal educada e esnobe.

Conheço pessoas que conseguem ficar absolutamente alheias a essas tecnologias. Tenho um amigo que ainda usa celular dos anos 1990. Sem qualquer contato com aplicativo de mensagens e afins. Um felizardo. Consegue passar incólume pelas perturbações da era digital. Não possui nem conta de e-mail. Por isto não teve o dissabor de saber que seus dados (e de milhares de pessoas só no Brasil) foram vendidos para grandes empresas, graças ao Mark Zuckerberg e uma empresa chamada Cambridge Anaytica. Um ótimo documentário sobre o assunto está na Netflix “Privacidade Hackeada”.

As redes causam vício. Assim como o, nem tão inocente, WhatsApp que de tão íntimo, há quem o chame pelo apelido de Zap. E não vou entrar na seara das correntes, ou dos famigerados grupos. Afe! Faça um teste: veja quanto tempo você consegue passar sem olhar para o celular à sua frente. Ah! Mas eu acabei de receber uma mensagem, ou vou dar só uma olhadinha rápida no Instagram que, não é nada mais nada menos que o Facebook dos anos 2000 (a diferença é a necessidade de fotos, ou vídeos). Nele não há vida medíocre nem mais ou menos. É tudo o must. Felicidade completa a bordo de casas lindas, viagens deslumbrantes, roupas chiquérrimas e gente bonita de doer. E entre uma notícia e outra ele te pega na publicidade.

Pois é, de forma muito eficaz, ele faz você pensar que precisa de alguma coisa para ser tão feliz quanto aquelas pessoas. Que tal um creme milagroso que fará de você uma diva? Ou esta cafeteira maravilhosa? Que sim, nós sabemos que você procurou por ela num site. Assim como as passagens, vitaminas, roupinhas de bebê, tudo está lá pululando em todas as telas que você acessa. As empresas sabem tudo o que nós fizemos no verão passado e em todas as estações.  Pois é, não pense que um simples click seu é inocente. Ele vale ouro para o capitalismo.

Atualmente estou viciada no Twitter. Sim, viciada é o termo exato. Com ele não preciso mais ligar a TV no noticiário (minha TV é apenas um equipamento para ver filmes). Não assisto absolutamente nada. Nem o Papa (que eu adoro, diga-se de passagem). Mas o Twitter é uma perdição, principalmente para jornalistas e com a vantagem de não ter aquela publicidade te perseguindo.  A todo minuto uma notícia nova, uma análise inteligente, um fato extraordinário. E é por isto, exatamente por este excesso de notícias, que tenho passado muito mal. A sensação de que o País todo pirou e a América do Sul está em frangalhos me dói o corpo e a alma. Por isto vou sair das redes (se conseguir) por um sentimento bem comum: a vergonha. É ela quem mais me adoece.

Nação sem palavras – e sem noção

A música, ouvida no rádio do aplicativo, me faz lembrar da frase do escritor mexicano Octávio Paz: “A palavra é o próprio homem. Somos feitos de palavras. Elas são nossa única realidade ou, pelo menos, o único testemunho de nossa realidade”. A julgar pela letra – absolutamente esdrúxula – da canção que ouço, não sem um certo espanto, devo pensar que nossa realidade nunca esteve tão periclitante quanto nesses últimos anos.

Outro dia alguém comentou que o brasileiro, via de regra, gosta de falar errado, acha bonito demonstrar o menosprezo pelo idioma. E ainda cultiva, com orgulho, seu arsenal de palavras chulas que ele distribui ao bem prazer sempre que julga necessário. Geralmente quando quer se impor (sic) ou bancar o engraçadinho. Nas duas situações o resultado é desastroso, sob meu ponto de vista, é claro. Há quem goste.

Aprendi na infância que o uso do palavrão não é bem-vindo, sob nenhuma circunstância. E devo acrescentar: nunca me fez falta. Lembro que minha avó falava de um jeito que me incomodava, com palavras e frases que pareciam erradas, toscas. Só mais tarde, depois de ler (à força, diga-se de passagem) a obra de Guimarães Rosa, percebi que o texto do escritor mineiro, influenciado pela linguagem popular e carregado de neologismo, em boa parte, se assemelhava às palavras de dona Maria.

O linguajar simples à moda caipira, digamos assim, aquele que até hoje se fala no interior de Minas, não me incomoda mais. A bem da verdade, de vez em quando gosto de ouvir aquele jeito mineiro de colocar as palavras no diminutivo – golim, minutim, facim. Acho gracim demais da conta. E adoro os vídeos da Concessa no youtube! Mas as palavras usadas de forma grosseira, frases recheadas de adjetivos jocosos, palavrões e impropérios ditos – e cantados – a todo momento, me deixam num estado de torpor absoluto. Ou como atualmente gostam de dizer “com vergonha alheia”.

Tudo isto sem mencionar a referência aos órgãos genitais, ao processo do sistema excretor e até as intimidades sexuais, que se tornou rotina. E pior, estão sendo disseminados em todas as redes sociais. Ou seja, estão ao alcance de qualquer criança, ainda no início da formação. Quando ouço alguém falando algo desta natureza, me vem uma vontade de enorme de perguntar se a boca não fica suja, como diziam nossos pais.

E não é apenas o homem comum, as pessoas da periferia, ou determinados nichos específicos que fazem uso deste desserviço à língua portuguesa. Ultimamente os políticos, aqueles que – infelizmente – nos representam, virara useiros e vezeiros da palavra chula, para não dizer pornográfica. Seja em posts, lives, entrevistas e discursos em plenário.  Substituíram o “falar grosso” pelo “falar chulo”. Liberaram geral. A bagunça é generalizada. E o respeito à palavra e ao eleitor/telespectador, literalmente foi para as cucuias. Quem quer ser educado, afinal?

A situação me faz lembrar de outra frase, emblemática, do mesmo Octávio Paz que diz: “Quando uma situação se corrompe, a gangrena começa pela linguagem”. Deve ser por isto que imagino as palavras escorrendo dessas bocas como sangue. Não é somente a língua portuguesa que está em perigo. A nação também está.

Por favor, pare agora

A cena nos deixou desconcertados. Voltávamos de uma pauta quando vimos o desenrolar dos acontecimentos à nossa frente. Foi bem na esquina na rua Bahia, lá pelos altos do bairro São Francisco que aconteceu o fato, bastante inusitado para dizer o mínimo. O ônibus circular encostou na rua movimentada, desceu com um cadeirante e o levou para atravessar não uma, mas duas faixas de pedestre. Imagino que grande figura humana deve ser este motorista.

A bem da verdade, ele destoa totalmente do cenário cotidiano no trânsito da cidade. Quase todos os dias ouço as reclamações, as mais diversas, dos motoristas de aplicativo. A indelicadeza é matéria presente no dia a dia desses profissionais. Como pedestre, há tempos enfrento esta selva de rodas repleta de condutores velozes e furiosos. E para eles somos quase invisíveis. Quando muito, incômodos. Sim, já ouvi muita gente dizendo que pedestre só atrapalha.

Minha sugestão para todos que, volta e meia reclamam dos pedestres, ou não o reconhecem como integrantes da cidade e das ruas que, por favor, façam uma experiência: deixem de lado seus carros confortáveis, com ar condicionado, bluetooth, air bag, musiquinha da hora, e caminhem ao menos um dia, pelas ruas de Campo Grande. Andem pelas avenidas do centro, atravessem as ruas dos bairros – durante à noite de preferência. E tentem atravessar na faixa de pedestre com segurança. Com sorte talvez percebam que sim, as famigeradas faixas de pedestres, colocadas bem na esquina, são nosso maior pesadelo. É por isto que, nós, pedestres, fugimos da armadilha sempre que possível.

Outro dia um sujeito parou para que eu atravessasse um cruzamento. Um acontecimento, pode se dizer. Mas nem bem chego ao outro lado da pista, pisando nas letras garrafais do PARE, ele coloca a cara para fora do carro e grita a plenos pulmões: obrigada, viu? Pois é, ele esperava que eu agradecesse sua imensa gentileza se esquecendo que parar, além de ser obrigatório é um ato de civilidade. Normalmente eu até faço um sinal de ok. Mas naquele final de tarde, depois de mais de 8 horas de trabalho, eu só queria atravessar a rua em segurança. Posso, moço?

Por isto a cena lá do início da crônica nos deixou aparvalhados. Demorou alguns segundos até que recobrássemos a respiração, a consciência e a voz. Mal comentamos o que acabávamos de presenciar. Talvez para não estragar o momento, preferimos falar o mínimo possível naquela hora. No trânsito de Campo Grande aquilo significava uma atitude de heroísmo. Corajosa. Extremamente solidária. Com certeza estava ali um homem bem-educado. Um motorista de ônibus que encosta o veículo para atravessar um cadeirante merece registro e aplausos.

E não. Não fizemos fotos nem vídeos, embora um dos colegas portasse um potente equipamento fotográfico. Espalhar aquele gesto pelas redes sociais da vida iria estraga-lo, diminuí-lo, deixa-lo na vala comum dos que adoram se sentir importantes, nem que seja apenas por um dia. Aquela era uma cena para se guardar no fundo do peito. Para lembrar naqueles dias insuportáveis quando acreditamos não existir salvação para o trânsito, nem para as pessoas que vagam pelas ruas com rostos duros, mentes ocupadas e sem o menor sinal de compaixão. Preste atenção, lá vai mais um atravessando a faixa, o sinal e o tempo.

Somos todos sabiás do campo

A primeira experiência foi na porta de uma livraria. Fui pega totalmente desprevenida quando o passarinho – uma sabiá do campo, segundo me disseram – fez um voo rasante em minha direção e bicou a minha cabeça. Fiquei então sabendo que um casal de passarinhos fez um ninho na árvore próxima à entrada, e desde então vem atacando as pessoas que entram no local. Tudo pelos filhotes, confortavelmente instalados e, claro, protegidos pelos pais zelosos. Mesmo entendendo o gesto, medrosa que sou, preferi sair pela porta lateral, temendo novo ataque. Duas semanas depois, na calçada da Rua Cândido Mariano, bem na esquina da Padre João Crippa, eis que novamente me aparece outro passarinho que, tão bravo pela intromissão no seu espaço, bica várias vezes minha cabeça. Em vão tento espantar o pássaro que voa e volta em seguida, fazendo a mesma coisa.

O ninho desta vez era no poste de eletricidade. Local sem o menor atrativo, bem diferente da árvore em frente à livraria. Duas mulheres que trabalham ali perto presenciaram a cena e me disseram que isso ocorre frequentemente. Não sei se escolhem a vítima ao acaso, ou se percebem o medroso de plantão ou uma possível ameaça. Por mais bonitinhos que sejam, fico tensa ao me imaginar numa cena do filme de Alfred Hitchcock, “Os Pássaros”, sucesso dos anos 1960.

Só para relembrar o plot de “Os Pássaros”: Melanie (Tippi Hedren), uma socialite de São Francisco, vai até uma pequena cidade litorânea, Bodega Bay, para entregar um presente (uma gaiola com um casal de lovebirds) para Mitch (Rod Taylor), por quem está interessada. Deposita o presente secretamente na casa da mãe de Mitch, Lydia (Jessica Tandy). Melanie cria um triângulo tenso de relações entre ela, Mitch e Lydia, momento em que inexplicavelmente todas as espécies de pássaros começam a atacar a população com uma violência crescente.

Embora o diretor tenha negado qualquer intenção ou aspecto psicológico no filme, não faltaram interpretações de toda a espécie. Hitchcock negou tudo com veemência. Era apenas mais um filme. De suspense, claro!

Diferente do filme, a explicação para o comportamento dos sabiás em Campo Grande, conforme li na imprensa, é o desmatamento que vem provocando a migração das espécies para a cidade. E esta é justamente a época da reprodução. Para eles, somos os intrusos, a ameaça ao lar recém-construído, à segurança dos filhos.

Não obstante o susto e o desconforto das bicadas na cabeça, confesso que entendo perfeitamente o comportamento dessas aves. Elas estão num lugar estranho, totalmente diferente do seu habitat e tentam proteger suas crias de qualquer ameaça. Que mãe ou pai não faria isso? Todos nós, em maior ou menor medida, somos um pouco passarinhos em algumas ocasiões. Principalmente quando vivemos em tempos tão estranhos, em que os valores mudam todos os dias e a ilusão de autossuficiência é supervalorizada. Tempos em que os olhares não vão além do próprio umbigo e, na falta de palavra melhor, a crença é: preciso ser bem-sucedido, não importa o preço a pagar. Tempos ameaçadores, inseguros, com certeza. Os pássaros, criaturas inocentes e irracionais, se viram como podem para não deixar seus filhotes à deriva, à mercê de um possível predador. Mas o ser humano ainda vai levar muitas bicadas para aprender a arte do amor e da generosidade. Tomara que não precise de uma revoada à moda Hitchcock.

A entrega é necessária

Em uma semana foram três. O primeiro da mais alta hierarquia e os outros dois, bons e generosos ouvintes, da mesma casta. Vai longe o tempo que nos separava era uma treliça. Época em que, obrigatoriamente, toda semana nos ajoelhávamos para confessar pecados. Pecados de menina pequena, com véu na cabeça que não tinha muito o que falar. Peguei o doce que minha avó guardou, falei mal da coleguinha da classe, algumas vezes arriscava mais um pouco e reclamava da falta do pai e do desamparo que doía no peito sem parar. Os pecados eram leves e o padre, na verdade um monsenhor, me absolvia mediante orações, terços e pedidos de desculpas.

Mas tarde, e na falta de um profissional da área, fiz padre Valdemar de terapeuta. E de tão íntima passei a frequentar, quase diariamente, sua pequena sala na sacristia. Ele, paciente e bondoso, ouvia tudo, dava conselhos, indicava caminhos. Às vezes duros. E tão difíceis que, não raro, eu sucumbia. Um dia, talvez se sentindo impotente diante de tanto desalento, aconselhou deixar meu coração mais quieto, evitar emoções e apegos. Tudo isto, diria ele, me faziam sofrer. Levei ao pé da letra e tranquei o coração com chave e tudo.

O conselho, por sinal, causou mal-estar tremendo com o primeiro namorado. Onde já se viu não se apegar a ninguém! Como que eu fico nesta história? O padre mudou de cidade e eu fiquei sem chave e sem conselhos. O coração, mesmo avisado, trincou um pouquinho. O namorado também foi embora. Não me restou outra coisa que não fosse a ausência da figura masculina. Minha culpa, máxima culpa.  Forever and ever.

Mais tarde, com meus trocados no bolso, troquei o confessionário pelo divã. Foi lá que durante anos a fio despejei meu desassossego. Em vão foram as trocas de poltrona, cadeira, sofá, ao longo do tempo. As buscas tornam-se cada vez mais intensivas, os métodos mais sofisticados. Mas o vazio continuava lá, impávido colosso. Um dia resolvi ceder, entregar os pontos, me redimir. Coisa que, convenhamos, é fácil falar. Colocar em prática é que são elas. Como na série This is us (Fox) – que recomendo – muitas vezes, demoramos quase uma vida inteira para reconhecer o óbvio. Afinal, quanto maior a dor, maior é a negação.

E lá no fundo vem a frase, ouvida há décadas, numa terapia: “Entrega a rapadura, menina”. Entrega, não resista, deixa fluir. Quando a gente segura, a dor é maior. Sem mais o que fazer, entrego os pontos. Entrego tudo que acumulei e faço um grande pacote. Aliás, três. E distribuo em partes iguais. Como na música na infância: “Terezinha de Jesus, de uma queda foi ao chão, acudiu três cavaleiros, todos três chapéus na mão…”. Porque, vamos combinar, se tem uma coisa que aprendi, depois de um longo e árduo caminho, é que às vezes as coisas mais simples podem ser eficientes. E que assim seja, porque ainda tem chão.

Quebra de confiança

Ninguém comentava nada no colégio. Poucas pessoas sabiam que o mestre andava assustando alunas na minha classe. Três amigas me contaram, mas pediram segredo. Não queriam que a coisa se espalhasse e chegasse aos ouvidos dos pais. Eram meninas de famílias tradicionais da cidade, e o medo do escândalo – e da vergonha – era maior que o pavor de frequentar as aulas. Aos 12 anos de idade, por alguma razão, a gente acredita que a culpa é sempre nossa. O jeito era manter tudo debaixo do tapete. Mesmo pressentindo que aquilo iria continuar. Na sala de aula, a cabeça girava em perguntas: quem será a próxima? Quem senta na frente, ou quem fica na última fila? Seria a menina do canto, sempre quieta, ou aquela que conversa a aula inteira? Eu sabia que minha hora chegaria.

O receio era proporcional ao desapontamento. A desilusão, igual ao pavor de ser a próxima vítima. Difícil aceitar que o professor, nosso Sidney Potier do filme “Ao Mestre, com Carinho”, sucesso na época, era o mesmo homem que agora nos deixava em pânico. Aonde foi parar o homem que ensinava a História do Brasil de um jeito tão encantador que nos fazia adorar a matéria? Patrício não era um ator de Hollywood, mas ganhou uma legião de fãs. Sua mulher, professora de Moral e Cívica, uma loura de dentes grandes e ligeiramente tortos, era doce e meiga. Como não tinham filhos, dedicavam o tempo aos alunos e ao colégio.

Mas em pouco tempo nosso amigo tornou-se inimigo. Passou de mestre para algoz. Durante o recreio, a gente se reunia num canto do pátio, para conversar sobre o assunto. Cada dia era um novo detalhe, uma descoberta. Foi assim que descobrimos o método: toda sexta-feira, quando sua aula encerrava o dia e o colégio ficava vazio, ele vinha com a mesma história. Assim que os alunos começavam a sair, ele mandava alguém ficar na sala. Sempre com a desculpa do dever de casa mal feito. Depois trancava a porta e virava o monstro. Ele não falava nada. Elas choravam baixinho, enquanto suas saias eram amarfanhadas e as camisas do uniforme desabotoadas.

Eu tremia só em pensar que minha vez chegaria. Seguindo o padrão, ele dispensou a turma e pediu que eu ficasse. Argumentei alguma coisa, mas ele foi ríspido e curto. Fica. Meu coração disparou, minha boca ficou seca e eu senti um pavor tão grande que, sem pensar, gritei por socorro. E ainda consegui pegar a chave em cima da mesa, abrir a porta e sair correndo. No corredor, ele gritava: se não voltar agora, vou lhe dar zero. Mas eu não me importei. E continuei correndo pelo prédio vazio até chegar ao portão.

Minhas amigas estavam lá à minha espera. Ao saber o que eu tinha feito, entraram em pânico. E agora? A minha coragem havia comprometido o segredo. A mãe, desquitada e corajosa, apoiou minha decisão. No dia seguinte, enfrentei o mal-estar na sala do diretor do colégio e, mais tarde, o olhar surpreso e desconsolado da esposa. Não me lembro da conversa. Só dos gestos cuidadosos da minha mãe, da conversa emocionada e de uma frase: “Eu não sabia”. Depois veio a demissão, a mudança da cidade e ninguém mais tocou no assunto. Eles eram meus vizinhos. E aquela casa ficou assombrada por um bom tempo.

Açúcar sem afeto

A avó adorava frases feitas, ditados populares e aforismos. Gostava mais ainda de fazer vaticínios. Ou seria melhor dizer – previsões assustadoramente pessimistas. Quase uma sentença. Se a vida de uma pessoa não é o que lhe acontece, mas aquilo que recorda – e a maneira como o recorda, como disse Gabriel García Márquez, a avó é meu livro de cabeceira. E só fui descobrir isso por mero acaso, quase num susto. Foi atravessando a Avenida Afonso Pena, quando me desviei de um carro desavisado, que me lembrei da frase que, como percebi logo depois, estava grudada em mim feito tatuagem: “Para o peixe que és o molho está passando de bom”.

É incrível, na falta de palavra melhor, como realmente esquecemos algumas coisas e lembramos outras, que muitas vezes nem são verdades, mas fantasias. Como ouvi recentemente de um mestre: “Quanto maior a dor, maior o esquecimento”. Sempre pensei escrever um romance em que a primeira frase fosse exatamente algo que ouvi na infância e, claro, dita pela avó: “Filho de peixe, peixinho é”. Ouvi isso durante um bom tempo, até que me cansei. Ou, por certo, gravei para sempre na memória. Eu seria igual àquele anoiteceu e não amanheceu. Igual ao pai que foi embora, antes que eu pudesse dizer seu nome.

 Dona Maria, mulher simples, embora criada em família de posses, talvez não soubesse da sua crueldade. Nem do estrago de suas palavras. Por isso, seu repertório era imenso, inesgotável. Bastava deixar cair uma xícara, acordar fora de hora, falar sem autorização, que lá vinham as sentenças de quase morte. “Quem não emenda se remenda”; “Mente vazia, oficina do diabo”; “Quando um Burro fala o outro murcha a orelha”; terminando sempre com o tradicional peixinho. O avô, mais letrado, olhava de rabo de olho, mas não dizia nada. Do contrário, sobraria para ele. Num canto, a mãe suspirava impotente. A biblioteca da escola e o cinema do avô eram meus refúgios e minha salvação.

Por uma dessas estranhezas da vida, minha avó sabia ler, mas mal assinava seu nome, embora treinasse sempre com um toco de lápis no papel de pão. Quando meu nome começou a aparecer nos jornais da capital, em notas sociais e concursos de beleza (moda, na época), Dona Maria que era dos Santos, mas não era anjo, lançava seus torpedos. “Quem vê, pensa que é grande coisa”. Meu sobrenome lhe causava – como ela mesma dizia – ojeriza. A invenção do pai, cuja mirabolante ideia era fundar uma nova família, dava arrepios. “Até parece!”. E ria a valer repetindo letra por letra. Eu achava aquilo bobagem, coisa de gente atrasada e, aparentemente, nunca liguei. Mesmo quando, na minha vez de rir muito, de felicidade ou de bobagens, ela vinha sempre com a mesma história: “Muito riso, sinal de choro”.

E quando dei por mim, havia trocado uma simples alegria pelo medo. E depois de tantas questões discutidas, abordagens, métodos – clássicos e não ortodoxos – e vários anos de interrogação, descubro, não sem surpresa, que comecei a negar e a temer qualquer traço de felicidade. Tudo para não aborrecer a avó, nem perder o meu quinhão diário de açúcar. Afinal, era por meio de seus quitutes, bolos e doces, que eu alimentava minha carência. E embora ela os mantivesse trancados a sete chaves, longe das minhas mãos de menina, isto não me impediu de crescer adicta. Acho que os vícios começam cedo, e quase sempre por afeto. E sempre com açúcar.

Quando uma livraria fecha

Quando uma livraria da cidade fecha, deveria ser decretado luto municipal. Senão estadual. Quer saber? Acho que todo o País deveria ficar enlutado. É menos um local de cultura e conhecimento. Um lugar a menos para, nós, escritores, divulgarmos nossa literatura, já que nossas letras, com exceção de Manoel de Barros, mal conseguem atravessar as fronteiras do Centro Oeste. Isto sem falar no eixo Rio/São Paulo, onde tudo acontece.

Mas esta crônica não é para chorar o leite derramado. É apenas um lamento de quem sempre foi apaixonada pelas coisas e costuras dos livros. Pelo ser e o saber literário. Quem ama cheiro do papel no exemplar que acabou de ser lançado, de sempre perguntar: Já chegou o novo livro do Ian Mcwan? E aquele do Amóz Oz, dá pra encomendar? Preciso urgente ler “O Irmão Alemão”, do Chico Buarque. Um cafezinho no espaço de várias salas e muito verde rendia longos papos. No princípio havia apenas uma máquina logo na entrada. Depois a livraria ganhou um Café de verdade. Era lá que tanta gente marcava reuniões de trabalho, ou de amigos, ou de ambos.

É por isto que não hesito em dizer: quando uma livraria fecha suas portas, porque o negócio se tornou inviável economicamente, a gente chora duas vezes. A segunda pela falta de leitores, pelo desinteresse da sociedade por este universo tão vasto e tão rico que são os livros. E nesta última semana de funcionamento da Leparole, estou tentando reunir forças e coragem para me despedir. E buscar uma meia dúzia de livros de minha autoria que estavam nas prateleiras, junto com Abílio de Barros, Raquel Naveira, Lucilene Machado, Henrique Medeiros, Glorinha Sá Rosa e tantos outros escritores do Estado. A Leparole foi um guarda-chuvas importante para os autores regionais.

E quantas crianças passaram por lá para ouvir a Contação de histórias dos sábados? Centenas delas, com certeza, vão se lembrar destes momentos de pura magia. A Leparole nunca foi apenas um local para compra de livros. Era o espaço do cinema, das discussões filosóficas, literárias, dos projetos – muitas vezes grandiosos – que fazíamos entre xícaras de café e pães de queijo. Foi o templo onde nos era oferecida uma cadeira e mesa especiais para receber os amigos e leitores em noite de autógrafos. Nessas ocasiões revíamos amigos e algumas vezes até choramos de emoção.

Por tudo isto, junto minhas mãos para agradecer, embora o coração partido, à Renata e, mais recentemente, a Luciana, por criar e manter o espaço em meio aos inúmeros desafios. A cada funcionário que trabalhava com paixão e tratava nossos livros com carinho. E que Campo Grande possa sentir na pele o quanto fará falta um lugar feito de livros e pessoas. Um lugar que não era em Notting Hill do cinema, mas localizado em meio ao verde do Jardim dos Estados e onde todos eram estrelas. Todos.

Uma senhora amiga

A vida muda todos os dias. Na maioria das vezes a gente não percebe. Algumas mudanças são muito, mas muito sutis. A bem da verdade, são quase imperceptíveis. Internamente e externamente tudo muda. E decididamente você não é a mesma pessoa que era ontem. Então é um espanto quando acontece o seguinte fato: uma amiga, muito, mas muito amiga mesmo, que você não vê e não tem notícias há 40 anos de repente entra em contato. Você já tinha até desistido dela. Pensava que a vida era assim mesmo, que as amizades vêm e vão e as pessoas mudam. Acontece sempre.

Mas aquela, aquela não. Aquela era amiga mesmo. Dessas que você não precisa explicar nem justificar nada. Era difícil aceitar que nunca mais. Na última vez que nos vimos foi numa dessas conexões em São Paulo. Eu vindo para Campo Grande e ela voltando para o Paraná, onde morava. Nos encontramos no fraldário do aeroporto. Cada uma com seu bebê, nossos primeiros. Depois mais nada. Eu perguntava por ela e ninguém sabia. Fiz isto tantas vezes que perdi as contas.

Até que um dia, por um desses acasos, vejo o nome dela num grupo de amigas do qual nem faço parte. Pergunto novamente: alguém sabe me dizer onde está a Meire? Me respondem que não é Meire, é Mary. Ia ser mesmo difícil encontrar alguém, cujo nome sempre escrevi errado. Uma delas faz a ponte entre nós e logo recebo a primeira mensagem.

 No início são apenas conversas no whatsup, talvez sondando o terreno para ver no que vai dar. Mas intensa como boa geminiana, ascendente em Aquário e lua em Peixes, mando longos áudios, querendo contar e saber tudo o que aconteceu nos últimos 40 anos de nossas vidas. E trocamos fotos, porque mineiras adoram compartilhar fotos.

Um dia, uma noite para ser mais precisa, combinamos de falar ao telefone. Já estava na hora. A conversa durou duas horas. E isto para quem não gosta de ao telefone é um recorde. Começou com um oi que saudades e terminou com até amanhã.  Foi se tivéssemos nos encontrado um dia antes. Estávamos diferentes, claro, mas ainda éramos as mesmas. Os mesmos pontos de vistas, as mesmas emoções, a mesma verdade, o mesmo amor. Deu vontade de pegar o primeiro voo e ir em busca do abraço que um dia antes imaginei perdido.

Ainda bem que a vida muda todos os dias.

A vida feita de histórias

A história de João Jiló, lida no tempo da escola, ultimamente não sai da minha cabeça. Não sei se alunos de hoje ainda leem essa historinha, pitoresca, sobre o caçador que resolve matar passarinho justamente no dia considerado sagrado para os cristãos: a Sexta-Feira Santa. Em algumas versões diz-se que ele atira em um galo, noutras em um passarinho “estranho”. O fato é que o autor da dita heresia é punido com gritos de dor da sua vítima até mesmo depois de morto.

“Um tiro é disparado, Uma voz se ouviu, Sem saber de onde ela saiu: Não arranque as asas dele, João Jiló, porque dói e dói. Não arranque as penas dele, João Jiló, porque dói e dói…”.

Incrível como certas histórias deixam marcas em nossa memória. Quase cinquenta anos depois, ainda ouço a voz da vítima pedindo clemência ao seu algoz: “Dói, dói, João Jiló”. Basta um gatilho e pronto – ela vem à nossa mente e fica como um mantra que a gente repete, repete, repete à exaustão. Dói, dói João Jiló!

Na minha história não me lembro de ouvir o tiro, mas sinto na pele a dor de ser arrastada até a cozinha, de cada pena arrancada, da lâmina cortando meu corpo, da mistura de sal e vinagre que arde minhas partes e, principalmente, do forno. A dor é dilacerante, desesperadora. Os pedidos de socorro parecem não surtir efeito algum, não há misericórdia, nem consciência. O algoz desconhece qualquer sentimento de compaixão. Ele não tem alma, desconfio.

Argumento, tal qual a sua presa, que estou aqui neste mundo para cantar, para viver livre na natureza, e não faço mal algum a ninguém. Ele faz ouvidos moucos e continua me arrastando, arrancando minhas penas, cortando meu corpo com lâmina afiada e precisa. E tem o forno. Um enorme forno a lenha pronto para o rito final.

Dói, dói, João Jiló! Mas ele não entende a língua das aves. O que ouve são apenas grunhidos. E ele, como exímio caçador que é, está acostumado com esses sons de desespero. E sabe que, breve, tudo vai passar. Basta ter paciência até chegar a hora em que, finalmente, poderá degustar sua presa. Ao forno, com batatas. Por isso, nem liga. É sempre assim. Toda caça luta pela sua vidinha, ignorando a fome do caçador.

Mas como o galo (ou passarinho) da história, eu continuo gritando. Peço clemência, apelo para os santos, anjos, budas. Apelo pelas estrelas, pela lua, pelos lagos, pela floresta inteira. Recuso-me a ser submetida à ignorância do caçador. Recuso-me terminantemente àquela morte tosca e brutal, apenas para saciar o desejo daquele monstro que me arrasta com brutalidade até sua cabana. E continuo gritando cada vez mais alto: dói, dói, João Jiló. Vão-se as penas, os membros, os restos jogados na pia, o preparo, o ato final. O forno bem à frente, a lenha crepitando, a temperatura perfeita para cozidos e assados.

Torço para que, a exemplo da história de João Jiló eu consiga escapar. Pularei do forno gritando que ele cometera um pecado e lhe assombrarei pelo resto da vida. Meu jiló, legume, aliás, que nunca gostei, no entanto, é apenas mais um dos personagens que me assombram diuturnamente. Talvez, e no fim das contas, minha história se pareça mais com Dom Quixote, o fidalgo que luta contra moinhos de vento. Porém, falta-me o gosto pela aventura e um amigo fiel como Sancho Pança. Minha sina parece ser mesmo continuar recitando o mantra contra um reles e herege caçador:  dói, dói muito, João Jiló.

Esses moços tão gentis

No banco da frente o número era 20. No banco de trás, somando as idades, 143. Já estava escuro quando peguei o telefone para chamar o aplicativo. E por mais que tentasse não conseguia colocar uma parada extra na chamada. A amiga mora pouco mais de 3 quadras e, portanto, não justificava chamar dois carros. Coloquei o destino final e torci para que o motorista ajudasse duas senhoras, um tanto inaptas com tecnologia e a visão já meio gasta de tantos anos olhando o mundo com curiosidade.

“Oi moço, não consegui colocar uma parada”. Ele gentil, explica que é preciso retornar ao pedido da corrida e adicionar mais um trecho. Em vão tento achar os ícones na telinha do celular. Minha amiga, alheia ao procedimento, repetia o endereço. Mas a tecnologia não aceita a palavra de uma senhora de 81 anos com lindos cabelos brancos. É preciso registrar, escrever. Impotente, peço ajuda ao garoto. Ele pega o celular e em segundos arruma a corrida. A tela está mesmo escura, atestou.

Puxa, que alívio. Não são apenas meus olhos que estão me deixando em apuros. A falta de habilidade com o aparelho também contribui. Foi quando perguntei a idade dele. Caramba! Só 20? E fiz aquela brincadeira sem graça e óbvia: com sorte você vai chegar à nossa. Vocês estão muito bem, respondeu. Sim, é o que todos dizem. Estamos bem para a idade que temos. É assim que se elogia uma mulher que passou dos 50 no Brasil. Despeço-me do menino agradecida. Pela gentileza e por consertar a tela do celular que agora está clara feito o dia.

E foi no dia seguinte, distraída pela música que tocava no rádio (e que me irritou um pouco) acabei deixando os óculos no banco traseiro, de outro motorista. Chego ´mesa de trabalho e me dou conta da perda. Sem os óculos não é possível trabalhar. Nem ler, escrever, reclamar, ligar, nada. Peço emprestado os olhos do colega de 28 que faz todas as cinco ligações para o aplicativo, e escreve o e-mail reportando a perda. Quem está perto comenta a minha calma diante do ocorrido. “Fosse com a gente estaríamos surtando! ”. Mas eu estava surtando. Só que por dentro.  

Já estava dando por perdido, pensando no prejuízo da distração: ir e voltar de casa até em casa para buscar em alguma gaveta um par de óculos qualquer, quando o telefone toca. O motorista avisa que está na porta com meus óculos, junto com um vidro de floral que também deixei cair. Que alívio saber que ainda existem sim, pessoas gentis e serviços eficientes. Que vão continuar entregando óculos, remédios, celulares e tudo o mais que for deixado para trás. Porque a gente sempre deixa, não importa a idade.

Forever Young

Dia difícil para escrever. O final de semana passado não foi fácil pra ninguém. A bem da verdade, a semana toda que passou foi um grande caos. Desde terça-feira, quando São Paulo virou uma noite poluída, as queimadas na Floresta Amazônica, os absurdos ditos por quem deveria ser o mais sensato e boa parte da população achando que tudo não passava de invencionice.  Em meio a tantas verdades incômodas e inverdades compartilhadas, mal acreditei quando li no domingo a notícia da morte da escritora e atriz Fernanda Young aos 49 anos.

Não pode ser, pensei. Como alguém com tanta energia, garra, talento, vai embora assim, de um ataque de asma e parada cardíaca? Que isto companheira? Isto não se faz. O mundo já está tão ruim e sua partida vai deixá-lo um pouco pior. Sem o humor e a inteligência o que nos resta? Uma vidinha besta, Fernanda. E com um monte de idiotas por perto. Pensando bem, deve ter sido por isto que você embora tão de repente. Por certo não estava suportando o tédio que este País está se tornando. Mesmo com tanta coragem de desafiar o establishment e o politicamente correto, você estava se sentindo incômoda. Imagine nós, pobres mortais.

Li seu texto póstumo “Os cafonas” e me deu inveja danada de não ter escrito. Você fala sobre os cafonas e a vulgaridade, a deselegância, a ignorância – e mentira como tática. A gente sabe a quem você se refere; às quais pessoas você se refere, a quem você detesta – porque muitos de nós detestamos também. Mas a maioria não fala. E você falava por nós. Ler todas aquelas palavras enfileiradas, profundas, verdadeiras, provocou em mim um longo suspiro. Suspiro de medo.

Meu amigo – e seu também – Afonso Borges, disse numa crônica, que você morreu sem ar, sufocada. E disse que “queria saber para tentar fazer qualquer tipo de relação menos dolorida que está, de morrer sufocada”.  E lembra a frase que, segundo ele, melhor a define: “Eu não sou intelectual, escrevo com o corpo”, de Clarice Lispector. Pode ser que seu corpo tenha cansado, vai saber. Um corpo tatuado, um corpo que gritava, se contorcia ante as mentes insanas. Cansou. Só pode.

Então peço novamente licença ao meu amigo, Afonso, também escritor, além de um dos maiores (senão o maior) divulgador da literatura no Brasil, para compartilhar a mesma frase que ele terminou a crônica, porque, sinceramente, estou sem mais nada pra dizer. É dele, então, este final: “Digo assim, então, em letras garrafais: morreu Fernanda Young, uma escritora. Que agora, finalmente respira, para sempre”.

Por trás das grades

A conversa fluía normalmente. Eu fazia as perguntas, ele respondia de forma clara e, aparentemente, sincera. A bem da verdade, eu ainda estava em transe depois de ter passado por corredores com centenas de homens em imensas alas gradeadas que, soube mais tarde, eram específicas para o crime cometido. Sim, eu estava numa Penitenciária masculina de média periculosidade.

Depois de minuciosa revista na entrada, tive que atravessar o largo corredor até o final, para descobrir que pode existir um fio de esperança em meio a culpas, sentenças e crimes hediondos. Estava no local para fazer matéria sobre o tratamento de uma dependência que, na maioria das vezes, é o que os leva até aquele lugar: as drogas. As terríveis, avassaladoras e as mais variadas drogas. E confesso, ver aqueles homens pedindo ajuda, rezando e cantando para um ser superior, se reconhecendo impotentes diante do vício, me comoveu. Não eram muitos. No universo de quase 2 mil detentos, apenas 40 deles estavam naquela sala, dispostos a deixar uma parte possível do passado para trás.

Escolhemos dois deles para dar depoimento sobre o programa, criado pelo governo do Estado. Infelizmente não dava para ouvir todo mundo. Numa pequena sala nos sentamos, eu e o primeiro entrevistado – um de frente para o outro – que me cumprimentou polidamente estendendo a mão. Logo percebi que seu português era bom, articulado. E assim a história foi sendo revelada pouco a pouco. Ele contou que começou a gostar de ler na prisão e citou até alguns autores. Achei bonito quando ele disse que, mesmo preso, estava se sentindo livre graças ao programa. De quanto tempo era sua pena, perguntei. A sentença foi de 19 anos e sete já foram cumpridos, respondeu.

Foi quando resolvi ir além do roteiro e perguntar qual o crime para tamanha pena. Ele olhou meio de lado, com tom de voz de quem responde o número do seu CPF ou da carteira de identidade e disse num fôlego só: roubo e estupro. Algo em mim se revirou. Nunca, que eu saiba, estive tão perto de um estuprador. Nem na infância, quando vez por outra ia até a delegacia de polícia visitar o delegado da cidade, meu avô. Os presos que passavam por lá eram bêbados que faziam arruaça nas ruas, um ou outro ladrão de galinha. Nada de mais.                                              

No presídio, soube que condenados por estupro, geralmente ficam em ala distinta das demais. É que mesmo para os outros criminosos, o estupro é considerado algo inaceitável. Mas diante dele não senti raiva, nem desprezo. Não senti nada. Na minha frente estava apenas um homem que queria ser melhor. Aceitava seu destino, sua sentença e sabia que era justo pagar pelos seus erros. Encerrada a entrevista, ele despediu-se agradecendo e, novamente, estendeu a mão. Nessa hora me lembrei que tenho espécie de TOC, não gosto de apertar mão de desconhecidos. E acabava de apertar a mão de um estuprador.

A segunda entrevista foi no automático. Um traficante de drogas era “leve” demais depois daquela experiência de minutos antes.  A pena também era menor. O detento sabia que teria uma chance de se reintegrar à sociedade quando comprimisse a pena. Mas sabia que para isto acontecer era preciso vencer a compulsão, o vício que facilitou o crime. O programa estava funcionando, pensei. Naquele local não se trata apenas a dependência, mas a alma humana. Ensinam que podem se redescobrir, enfrentar a dor de ser quem são – ou foram. A prisão, sem dúvida, deve ser o pior lugar do mundo. As grades de ferro, as limitações, a obrigação de conviver com todo tipo de gente, a privação de prazeres simples, o cheiro da culpa e do medo que se juntam ao suor e ao mofo das celas. Chego a pensar que é mesmo muito difícil sair daquele mundo melhor do que entrou.

Quando o último portão se fechou atrás de mim, naquele dia frio e escuro, eu respirei fundo e percebi o valor da minha liberdade. Senti o quanto é importante poder ir e vir. Mas o dia todo as palavras do homem não me saiam da cabeça:  estou preso, mas nunca me senti tão livre. Será por isso que sofremos tanto? Porque não temos consciência da nossa liberdade, não conseguimos olhar para dentro e para o outro? Estaremos todos presos dentro de nós mesmos? O impacto durou em mim alguns dias. Escrever a matéria foi um trabalho hercúleo, e não há um só dia em que não pense, naquele detento. A culpa, certamente, não tem grades. E corre-se o risco de ficar preso para sempre.

O pequeno grande irmão

Eu tentei. Juro que tentei ficar indiferente à verborragia insana do homem que dirige nosso País. Parei de assistir telejornais, não abro mensagens de vídeo no whatsapp, sai do Facebook e, confesso, bloqueei um monte de pessoas. Não, eu não estou alheia ao que acontece à minha volta. Minha fonte de notícias são sites jornalísticos e um clipping diário com – bons – artigos dos grandes jornais nacionais.

Mas é claro, não dá para evitar uma ou outra conversa, comentários, críticas na maioria das vezes sobre os desatinos de quem deveria ser um exemplo para os brasileiros. Não é de hoje que acompanho análises de jornalistas e escritores, sobre a crise do dia. Mas evito escrever sobre o assunto. Até por medo de represálias.  Volta e meia tenho a sensação que o “Grande Irmão” está pairando sobre nossas cabeças. Não, não tem nada a ver com aquele programa alienante da TV aberta chamado Big Brother. Falo aqui da emblemática história escrita por George Orwell – ‘1984’. 

Para quem não conhece o livro, trata-se de um mundo pós-revolucionário, ficcionista, onde tudo o que aconteceu antes da Revolução fundadora de 1984 (valores humanísticos, formas de relacionamento, debate público, liberdade de expressão, cultura…) foi abolido e esquecido. O aparato de repressão, onipotente e implacável, vigia cada movimento dos súditos por meio de um sistema de telas instaladas no espaço público e no doméstico. Não existe privacidade. O poder é encarnado em um tirano inacessível cuja imagem é exibida em todos os lugares com o slogan “O Grande Irmão está te vigiando”.

No cenário de 1984, existe os chamados “dois minutos de ódio”, onde as massas se reúnem diante de uma grande tela para vaiar e execrar o inimigo em um paroxismo demente. Ao lê-lo, é inevitável se lembrar das redes sociais, onde qualquer um que coloque o focinho fora do bando se expõe a ser linchado virtualmente. Como se vê, a semelhança entre a ficção e a realidade não é mera coincidência.

Por isto, e depois de ler o artigo desta semana, escrito pela minha querida e sensata Marina Colasanti, resolvi deixar de lado a covardia – e o medo – para expressar meu profundo repúdio por todas as frases despejadas em cima dos milhões de brasileiros, inclusive daqueles, que, insensata ou desavisadamente, escolheram-no como chefe supremo. A eles, minhas condolências. Mas aqui e agora minha indignação não é política. É profissional e, claro, cidadã. Semana passada, por exemplo, questionado por repórter sobre crescimento e preservação, do meio ambiente ele recomendou ao jornalista que “comesse menos”. E foi além, sugeriu singelamente que para melhorar a situação a saída é “fazer cocô dia sim, dia não”.  Nem nos piores pesadelos daria para imaginar um presidente da república distribuindo pitadas escatológicas. Às vezes todos os dias.

A bem da verdade, meu maior temor é que esta retórica belicosa do presidente coloque em risco a nossa frágil democracia. Não são poucos os exemplos de declarações agressivas do ocupante do Alvorada. Desde o início de seu governo, a lista parece não ter fim. Dentre os variados alvos há opositores, ambientalistas, cientistas, jornalistas, órgãos de imprensa, índios e filho de desaparecido político. Isto sem falar de homossexuais e mulheres. Pode-se dizer que as partes baixas são o tema favorito do rei.

Franklin Delano Roosevelt, único homem a ser eleito para quatro mandatos consecutivos como presidente dos Estados Unidos, país que nosso eleito tanto idolatra, costumava dizer que se espera que o comandante em chefe aproveite o palanque privilegiado (não confundir com palanque de campanha) para irradiar confiança e bons exemplos. Para nós que vivemos na linha abaixo do Equador, já estaria de bom tamanho se tivéssemos alguém com mínimo de sensatez, uma dose de recato. E, sobretudo, algum respeito.

A postura destemperada, para dizer o mínimo, emite sinais de um baixo apreço do chefe do Executivo aos direitos individuais, gerando insegurança para a sociedade civil. E, além disto, de ser uma cortina de fumaça para voos mais ousados, digamos assim, dá péssimo exemplo para as nossas crianças e adolescentes. O próximo passo pode ser abolir os livros de história, para que não haja registros desta época em que a educação e o decoro ficaram em algum lugar do passado. É triste, mas é fato.

O bom também pode ser ruim

Quantas senhas – de números e letras – alguém é capaz de guardar na memória? Bom, deixe-me refazer a pergunta: quantas senhas uma pessoa normal, em pleno domínio de suas faculdades mentais (talvez nem tanto, rs), atuante, mas que por uma dessas falsetas do destino, não tem mais a mesma idade que o meu leitor, por exemplo. E, por favor, não faça cara de tédio porque, com sorte, você também chega lá! 

A pergunta pode parecer simples, mas ninguém conseguiu me responder ainda. Alguns desconversam. Outro tem truques que não vou revelar, por questão de segurança. Vejam só a quantidade de senhas que preciso saber de cor e salteado: do portão eletrônico do prédio, do celular, do banco, do cartão de crédito, computador, internet, Netflix, Google, e-mail, do wi-fi de casa, do site de notícias, e devo ter mais duas ou três que agora não me lembro. Algumas têm quatro números, outras seis e ainda existem aquelas que são compostas por números e letras. E tem a que começa com letra maiúscula. Haja ginkgo biloba!

Outro dia um jovem colega se dispôs, gentilmente, a me ensinar uma forma nova de enviar fotos pelo aplicativo do whatsup. Eu agradeci muito, mas meu HD está lotado, disse a ele. Porque convenhamos, é muita coisa para quem, como eu, nasceu no tempo do telefone de teclado e da chamada interurbana (pra quem não sabe o que é isto, um dia eu explico). Agora mesmo estou com sério problema: mandei meu computador para dar uma repaginada e agora que ele voltou, não consigo fazê-lo funcionar. São tantos fios que tenho receio de me enrolar em todos eles.

Às vezes sou forçada a concordar com meu conterrâneo, mineirinho de Lagoa da Prata, que sempre diz: esse negócio de tecnologia é bom mas é ruim, né? Dia desses aceitei carona da colega que me deixou no meio do caminho, entre o trabalho e minha casa. Num supermercado, para ser mais precisa. Quando coloquei a mão na bolsa para chamar o aplicativo, cadê o celular? Ficou no trabalho. E agora? Procura um táxi e não acho. Penso em ligar para alguém, mas não sei mais o número do telefone (antes eu sabia todos de cor), porque a agenda fica no celular. Por alguns minutos andei atônita pelo estacionamento pensando numa solução. Resolvi abordar um sujeito, com cara simpática, e pedi para que ele fizesse a gentileza de chamar o aplicativo, porque eu tinha deixado o telefone no trabalho, etc. e tal. A resposta? Não.

Como não? A minha mulher outro dia fez isto e a pessoa não pagou a corrida. Sabe como é, tá cheio de gente mau caráter e bandido por aí. Bom, além de recusar o pedido ele ainda insinuou que eu poderia ser uma coisa assim. Nessa hora senti saudade dos orelhões. E da agenda de papel. Ah! Procurei sim por um orelhão, mas não encontrei. Sei lá, imaginei pedir auxílio à lista. Será que existe isto ainda? Diante de tamanho infortúnio resolvi que iria caminhando até em casa. Era uma noite fresca e estou acostumada a andar a pé. Antes de bater em retirada, resolvi abordar outra alma que parecia esperar um táxi. Contei minha história. E Deus estava lá. Ele não apenas chamou o aplicativo, como ficou acompanhando a chegada pelo celular.

O certo é que viramos reféns da tecnologia. Sem ela estamos à deriva, literalmente a pé. Não entramos em casa, não acessamos internet, Netflix e toda aquela lista de coisas que eu já disse. Sou obrigada, portanto, a concordar com meu conterrâneo: a tecnologia é boa, mas é ruim. Experimente sair (sem carro, claro!) e esquecer o celular. Ops, jovem não esquece celular nem anda a pé. Foi mal aí, heim?

Fábrica de moer velhos

O dentista confirmou, o vendedor da casa de sucos reiterou, o amigo do filho aderiu, o taxista faz a mesma coisa, até o espelho se rendeu às evidências. Sou mesmo uma senhora.  É o que todo mundo atesta. Mas a bem da verdade, e embora respeite todas as opiniões, acho difícil acreditar. No fundo, bem lá no fundo, faço coro  à música de Cássia Eller: “Eu anda sou uma garotinha…”. Tudo bem que perdi diversos componentes da juventude, digamos assim. Enxergo cada vez menos, demoro a captar algumas mensagens, não subo escadas com a mesma ligeireza de antes, acumulo gordurinhas ao redor da cintura (que pelo visto nunca mais irão embora); a pele dos olhos ficou tão flácida que mal consigo fazer o risco do delineador, os pelos do corpo estão sumindo em alguns lugares e aparecendo em outros, totalmente desnecessários, durmo pouco e vou pra cama cada vez mais cedo.

Mas me recuso, terminantemente, a entrar na categoria da “melhor idade” com todas as suas fantasias e ilusões.  Sim, porque este termo foi criado pelo marketing só para poder tirar mais um dinheirinho dos velhos. A indústria do turismo e do entretenimento não é boba. Viagens de navio são filão e tanto. E como já disse que querido amigo e escritor, Abílio de Barros, mais parece uma excursão geriátrica.  E o que dizer dos famigerados bailinhos? Uma banda de terceira, tocando música de segunda, para os saudosistas de plantão. Me dá ânsias só de imaginar o espetáculo –- até porque nunca fui mesmo de dançar.

No filme “Aquarius”, aquele que muita gente não assistiu – e perdeu –- porque o elenco fez protesto em Cannes (e daí?), Sônia Braga interpreta, maravilhosamente bem, uma mulher de 60 e poucos anos, viúva, que costuma ir com as amigas aos tais bailinhos da saudade.  A cena é deprimente: quatro mulheres, todas na mesma faixa de idade, numa mesa bebendo cerveja e esperando, ansiosamente, que alguém as leve para a pista de dança – no mínimo. Tem gente que gosta mesmo de dançar, mas como no filme, a impressão é que  a maioria está tentando aplacar a solidão. Prefiro ficar em casa lendo um bom livro ou assistindo série na Netflix. Até porque, ninguém quer velho por perto. Apenas os que estão mais velhos ainda.

A vida real é um labirinto de restrições, principalmente no País da juventude. O Brasil é um país que massacra os mais velhos. Seja nas calçadas, sempre desniveladas e esburacadas, na impaciência do trânsito, na indelicadeza dos atendentes dos serviços públicos, na completa e total indiferença ante as inúmeras dificuldades – reais e naturais. Tudo isto porque acreditam que serão jovens para sempre, ou porque não foram educados para aceitar a diferença.

Semana passada ouvi um garoto dizer que “precisava” ligar para a mãe no dia do aniversário, senão ela enlouqueceria . Depois dos parabéns de praxe ela deve ter dito que a medicação havia acabado, ele então alterou a voz e, com certo desagrado, disse: puxa mãe, por que  você deixou pra me dizer que o remédio acabou em cima da hora? Ele não entendeu que, tão ou mais importante que o remédio, o que ela precisavas mesmo era de abraços e flores. Além do remédio, claro!