A fatura sempre chega

E assim começa o fim. Primeiro você deixa de ser prioridade. As conversas ficam mais curtas, as ausências mais longas. Vem à nítida sensação, quase uma certeza, de que não é mais imprescindível, que não há mais nada a acrescentar, que sua experiência é um farol voltado para trás. Ou seja, inútil. No início você nega, grita, esperneia. Depois percebe que, infelizmente, não há nada a fazer. Você é impotente diante da realidade.

Aí você começa a se sentir uma carga, espécie de um fardo sutil. Muito bem disfarçado. Para quem carrega, pode não parecer assim tão pesado, mas com o passar do tempo aparecem as mudanças… As coisas realmente se tornam visíveis – às vezes, assustadoras.  E diante do inevitável, os conselhos verbais começam a sair de todas as bocas: reinventar, mudar, rezar/orar, meditar, aceitar. E sempre, sempre pedir perdão pelos pecados cometidos. Aqueles que você sequer imaginava que estava cometendo.

Ou seja, a vida que você aproveitou ao máximo (seguindo o conselho da época), as coisas boas e divertidas que fez – os pequenos ou grandes excessos, os enganos, tudo que disseram a você, tinha preço. A frase “Aproveita que vida é curta” é uma tremenda enganação. Mas todo mundo acredita. É uma espécie de aval para sorver cada bocadinho de vida, de prazer, cada minuto, como se tudo não fosse acabar um dia. 

E do nada, simplesmente do nada, você descobre que não sobrou quase nada da fonte do prazer. Era tudo uma ilusão que criaram para você se sentir, digamos um pouco mais confortável na pele em que habitas. Tudo tinha um preço. Mas não havia etiqueta. Depois chega a fatura e você se pergunta: isto é meu? Pois é, ninguém lhe disse que você estava acumulando dívidas. E só quando você envelhece descobre a terrível, inexorável verdade: a vida não é de graça. Tudo lhe será cobrado mais adiante. Absolutamente tudo. Mesmo as coisas que não são suas, mas, por acaso, passaram por você. Não há como fugir. É como os impostos. De um jeito ou de outro, você paga. Mesmo não achando justo, paga assim mesmo. E neste caso, sem refis nem moratória.

Pague. E siga em frente – que atrás vem gente. Não existe opção. E só a maturidade nos faz perceber que não podemos mudar os fatos. Eu sei, é desalentador. E sem que você se dê conta, está rodeada pela angústia. A solidão será sua companheira fiel. E o que é ainda pior, sem chance de reclamar da dor que pesa no peito. Ninguém mais está interessado na sua dor, nas suas lamúrias, nem nas suas histórias. Você é o passado. Acabou, já era. Não são apenas as rugas, os fios brancos, a pele flácida, o joelho que dói, a coluna que reclama. Não é nada disto que lhe torna passado. É a invisibilidade que vai tomando conta aos poucos de você. É a certeza de que não faz mais diferença, nem é necessário. Na hora em que forem embora as suas utilidades, você vai saber o quanto é amado. E isto pode lhe surpreender.

E pode engolir o choro, como nos diziam nossas mães quando ainda éramos docemente inocentes. Pode engolir o medo, a insegurança, o desespero. Engula tudo e se dê por satisfeita/o pelas mínimas coisas que o universo ainda lhe dá. O ser humano tem prazo de validade. Mesmo vivo. O consolo, se é que existe, é saber que todos, todos que como você se iludiu com o mundo ao seu redor, também passarão pelo mesmo caminho. A não ser que despertem para o que a vida realmente é. Apenas uma estrada com pedágio. Uma passagem. E uma vez despertos, pela fé, pelo amor ou pela dor, consigam, finalmente, entender que tudo passa. Às vezes a ferro. 

Delicadeza gera delicadeza

Falando sério: anda difícil ser simpática com todas as pessoas. Eu sei que deveria. Minha mãe me ensinou, a escola me graduou, a vida também. Devemos sim,  demonstrar a boa educação a todo mundo.  Não importa quem seja não importa o local, nem as circunstâncias. Mas como eu disse, anda difícil aplicar a teoria.  O que esperar de uma época em que até fieis  furam a fila da comunhão? Você está lá, contrita, serena, esperando sua vez, e quando percebe meia dúzia de pessoas passou à sua frente, devagarinho, como quem não quer nada. Imagino que devam pensar: “Ah! a fila está passando ao meu lado, pra quê que eu vou até o final dela?”. Inacreditável. Povo tem pressa até para Deus, como se ele fosse sair correndo dali.

No trânsito, onde pipocam reclamações – todas procedentes, já desisti. Não dirijo porque nunca suportei – agora menos ainda  – buzinas, gente xingando, trânsito confuso, aborrecido. Hoje, no banco de trás (graças aos aplicativos) fico com pena dos motoristas que lidam, todos os dias, com infratores de primeira ordem. Gente que passa na frente, corta, freia, fura sinal sem a menor cerimônia; não dá sinal de seta, não tem, enfim, a menor delicadeza com os outros motoristas. Com pedestre então – é outra crônica, é um caos. Nem se me dessem um carro de graça, nem uma Ferrari que agora tem alíquota zero para importação – outro assunto; eu iria dirigir.

E o que dizer do supermercado? É muita provação. Um teste rigoroso no quesito de boa educação, simpatia, gentileza e higiene. “Comprei só uma coisinha, posso passar a sua frente?”. De uns anos pra cá (essa é uma das vantagens da idade) eu digo não. Não e não. Mas em dias que a culpa está instalada dos pés a cabeça, eu digo sim. Com uma raiva danada, que fica me corroendo por dentro, mas digo. E fico com mais culpa de sentir a raiva. Pior que isto é assistir ao sujeito à sua frente, com um carrinho repleto, falando alto ao telefone e colocando o dedo dentro do nariz. E você lá, com seu queijinho, pão integral, umas folhinhas… Não dá vontade de dizer: oi, vai limpar o salão em casa, moço (antigamente chamavam o interior das narinas de salão, rs)!

Andando na rua a sensação é de que todo mundo está de mau humor. De mau humor não, estão profundamente aborrecidos com alguma coisa. Com o mundo. Quando passam por você e porventura seus olhares se cruzam, dá para sentir aquele olhar de ódio, que quase lança chamas em nossa direção. É impressionante. Experimentem caminhar pelas ruas. A gente fica sem entender nada. Será que eu fiz alguma coisa para essas pessoas? Volta e meia me pergunto. Só faltam carregar um chicote. É raro, raríssimo, encontrar alguém que te olha com o mínimo de delicadeza. E é uma loteria encontrar alguém que lhe dê Bom dia, Boa tarde. Coisas que eram triviais até um dia desses. Não vou nem falar de “desculpas” ou “obrigado”. São palavras que fugiram do dicionário.

Mas ontem, não sei como, talvez antevendo o tom desta crônica, só encontrei gente sorrindo na rua. No começo achei que estava dando algum motivo para a graça. Cheguei a pensar que minha roupa podia ser estranha, talvez minha cara esquisita, meu cabelo diferente. Mas não. Eu estava igual a todos os dias. E elas passaram por mim e sorriram. Até um bebê, no colo da mãe, me lançou um sorrisinho que eu agradeci com um aceno caloroso. Ontem foi um dia diferente. Pode ter sido prenúncio do Eclipse de hoje que, segundo li, pode ser que mude o nosso comportamento. Vai saber. Pensando bem, foi apenas um sinal Divino para comunicar que dali a algumas horas mais um ser viria a este mundo? Mais um bebê, outro neto. Que veio com a leveza, força, coragem e, com certeza, a delicadeza que tanto nos faz falta. É com você, Théo! Que sua vida seja cercada de poesia.

Resistindo à tentação

Quem resiste a comprinhas durante uma viagem, que atire a primeira mala. Ou a mochila. E tudo começa antes mesmo de embarcar, porque os aeroportos se transformaram em verdadeiros shopping centers. Afinal, como não se encantar por aquela bolsa linda e superbaratinha? Ou o perfume – um dos seus favoritos – que está in sale no Freeshop. Pra não sucumbir, o jeito é passar por lá, pegar o tester, dar uma borrifada (bem grande) atrás da orelha e seguir em frente. Além de cheirosa, vai economizar uma pequena fortuna, convenhamos. Saguões de aeroportos são armadilhas terríveis. Se você não está atrasada para pegar o voo, melhor pegar um livro e tentar se concentrar na leitura. Caso contrário, a tentação é imensa. E, se puder, leve matula (não sei como se chama hoje, rs), um lanchinho básico. Principalmente quando a maioria dos voos de Campo Grande tem longas escalas e conexões. Em Guarulhos, por exemplo, um suquinho de nada pode custar os olhos da cara. Café com pão de queijo? Esquece. Respire fundo e procure pensar em outras coisas. Pode, por exemplo, pensar em carboidratos. Que vai lhe fazer mal durante a viagem. Sei lá, inventa, crie.

Viajar de férias é igual reforma de casa: sempre vem aquela frase “já que…”. E se você vai para o exterior – ufa! Que Deus lhe acuda. Porque quando você atravessa a parte internacional, pode dar adeus para Catitu. Primeiro porque a gente se sente o máximo, segundo porque todo mundo capitalista sabe que você se sente o máximo. E, claro, tiram proveito disto. Não importa se você vai numa excursão baratinha (daquelas que passam em quinze lugares em uma semana) ou se vai para a Tailândia de executiva. Atravessou os limites do aeroporto com um passaporte na mão, você é um passageiro internacional. Se sente chique no último. E dê-lhe cartão de crédito. Se não ficar esperto, você já chega no destino devendo.

Depois de algum tempo viajando você acaba ficando um pouquinho mais esperto. Mas não muito. Recentemente estive na Colômbia, viagem programada, econômica, com único objetivo de fazer roteiros culturais. Pesquisando sobre o País, mais precisamente Bogotá e Cartagena, antes de ir, descubro que na capital da Colômbia as compras são quase inevitáveis por conta dos baixíssimos preços. Não sei bem o motivo, mas até as lojas de grifes têm preços diferenciados por lá. E como todo turista, depois de um certo tempo em museus, galerias, igrejas etc. uma hora você pensa: uma passadinha no shopping bacana só para ver, não fará mal algum.

Nas duas cidades que visitei, ambas repletas de coisas lindas, usei um truque eficiente, para evitar as armadilhas das compras: cada vez que meus impulsos consumistas se agitavam eu acionava o seguinte pensamento: “Preciso mesmo disto? Que diferença este objeto vai fazer na minha vida?”. Confesso que este mantra é à prova de muito batonzinho e bolsinhas inúteis. Porque no fundo, a gente compra quase por obrigação, para se sentir feliz por alguns momentos. Por isto fazer esta pergunta sempre que se sentir numa situação de risco é fundamental. Ela funciona. Minha bagagem de volta foi – quase – a mesma que levei. Só não resisti a alguns pacotes de café – o melhor do mundo, e alguns “alfinetes” (lembrancinhas, gente, rs). Nada que uma sacola – de mão – não resolva. Também não resisti a uma réplica (vinte reais) de Botero, um artista colombiano maravilhoso. Mas resisti, bravamente devo dizer, a um exemplar da primeira edição de “Cem anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Márquez, meu escritor favorito. A Colômbia é um país encantador, colorido, simpático, civilizado e, sim, muito barato. O que me salvou foi o mantra.

O Tom que se foi

Como iniciar uma crônica de despedida? De adeus, para ser mais exata? Melhor ainda: de agradecimento pelos 10 anos de companheirismo, amizade, carinho, conforto e, claro, muitas brigas por mau comportamento. Meu e dele. A caixa de areia era um grande problema entre nós. E minha falta de paciência devia entristecê-lo. O que me valeu várias e várias crônicas sobre esta relação de amor com um ser de quatro patas. Pois é, estou sofrendo a perda de um felino, um gato que literalmente me achou na rua e me adotou. Tom Tom, esse era o nome dele (dado por alguém que costumava alimentá-lo), não era um gato de enfeite, nem fazia o tipo “difícil” que fica todo tempo escondido. Ele interagia com todo mundo. Até quem não gosta de gatos (e há quem tenha pavor), não se furtava, embora muitas vezes constrangido, ao carinho que ele fazia nas visitas. Fosse uma passada de rabo na perna ou, em clima propício, se aboletando no colo. Não havia quem não o adorasse.

Por isto, e diante da urgência de entregar a crônica, a primeira coisa que me veio à mente, é o poema de W. H. Auden chamado “Funeral Blues” que traduz com absurda precisão o sentimento diante da perda: “Pare os relógios, cale o telefone; evite o latido do cão com um osso… Que os aviões voem em círculos, gemendo e que escrevam no céu o anúncio: ele morreu. Ponham laços pretos nos pescoços brancos das pombas de rua e que guardas de trânsito usem finas luvas de breu. Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste, meu Oeste. Meus dias úteis, meus finais-de-semana; meu meio dia, meia-noite, minha fala e meu canto… As estrelas não são mais necessárias, apague-as uma por uma. Guarde a lua, desmonte o sol. Despeje o mar e livre-se da floresta. Pois nada mais poderá ser bom como era antes”.

Parece exagero, caro leitor? Pois é, eu também pensava isto. Acreditava que era pura frescura esse negócio de chorar a perda de um bichinho. Afinal, diz o coro dos desavisados, tanta criança passando fome, sem um lar para chamar de seu e a gente gastando tempo, energia e dinheiro com animaizinhos. Não por acaso existem cerca de 10 milhões de gatos abandonados nas ruas das cidades. Quem compara crianças a animais, geralmente não costuma fazer nada nem por um nem por outro. E paramos por aí, por a crônica de hoje é para me despedir de um amigo. De mais um, pois em pouco mais de 2 meses já foram quatro humanos e um felino.

Mas só quem tem um animal de estimação sabe do que estou falando. Principalmente aqueles cujas manias incluem dormir na sua cama, entrar no banheiro junto com você todas as vezes, assistir todos os filmes e programas de TV enroscado nos seus pés, ficar de olho no livro que está na sua mão e manifestar solidariedade com o dono como se fossem humanos. E o que dizer daqueles que esperam você na porta do apartamento todos os dias? Que te acorda com um toque suave no rosto, ou nos pés, e anda atrás de você para lembrar que é preciso trocar a água ou a comida? Um amigo que não lhe julga, que te acolhe em silêncio quando você chora e sabe, sabe mesmo, todas às vezes tudo que você precisa é de alguém aninhado no seu colo. A casa está muito vazia, Tom Tom, e a caixa de areia no mesmo lugar. Tenho a sensação que você ainda não partiu.

Com a caneta na mão

Levanto a cabeça e vejo a primeira pessoa na fila. Congelo. Tenho vontade de sair correndo, dar uma desculpa, dor de barriga, qualquer coisa. Eu sei, faz parte do processo, mas tenho que confessar: sou totalmente avessa a qualquer tipo de convenção que me obrigue a fazer o que não consigo. A fila aumenta e eu tento despistar. Existem outros ao meu lado, mais aptos, mais saudáveis, aparentemente sem nenhuma espécie de pânico. Sou apenas eu. A única a desejar ardentemente que todas as canetas do mundo desaparecem naquele momento. O momento do autógrafo.

Para começar, tenho uma péssima letra. Considero de mau gosto escrever com letra disforme no livro de alguém. Uma vez encontrei um livro antigo, um dos primeiros, com autógrafo meu. Alguém havia esquecido de levar o presente. Fiquei feliz por poupá-lo de uma pífia dedicatória. Mas a tristeza diante do fato, de não ter o menor traquejo para a tarefa foi doída. Onde já se viu escritor que não gosta de dar autógrafo, fazer dedicatória? Já pensei em imitar Ziraldo que, com uma caneta colorida escreve apenas “Um abraço” e pronto. Faz isto com centenas de livros durante horas sem sair da cadeira. Um diletante, um homem superior, gênio e – claro, de uma humildade à toda prova. Autografa livros antigos, que às vezes vem em pilhas. E nunca se queixa. Talvez seja o sucesso o sinônimo da disposição. Vai saber.

A socióloga Marcia Tiburi também usa o artifício da canetinha colorida e escreve “Um beijo” ou algo no gênero. Nada mais. Ninguém lhe pede uma dedicatória especial. Para mim pedem. Ah! Meus amigos queridos, soubessem o quanto sofro quando ouço esta frase: uma dedicatória especial; seriam solidários com a minha inaptidão, seriam compassivos com meu medo. Sim, o que tenho é medo. E ele me faz escrever coisas tolas, frases idiotas, compridas, às vezes sem nexo. Sou um fiasco neste departamento.

Minha companheira de publicação (o livro “Nossas Crônicas”) recente, disse que por ela não haveria mais lançamentos e noites de autógrafos. Isto, segundo Lucilene Barbosa, para poupar os amigos, os mesmos que sempre estão por lá com livro debaixo do braço, sendo solidários ao ofício do escritor. Escrever livro no Brasil é um ato de coragem, publicar é doidice e fazer noite de autógrafos é caso de internação imediata. Lê-se cada vez menos por aqui. Principalmente nós, os chamados regionais. Como se isto fosse um carimbo de incompetência ou coisa que o valha. Temos todos complexo de vira-lata. E por falar em carimbo.  ultimamente tenho pensado que seria pensei numa boa solução para substituir os autógrafos.

Desculpem-me, mas letra feia é algo a ser guardado entre quatro paredes.

Sogras, cobras e passarinhos

Em minha opinião, a sogra, como instituição, é supervalorizada.  Vejam a pecha que carregam as pobres mulheres (diferentemente dos homens, os sogros bonzinhos), as inúmeras piadas a seu respeito, a aversão das noras e genros. Na cultura popular moderna, a sogra é vista como um peso a ser carregado e muitas vezes, a palavra acaba por adquirir sentido pejorativo. Por isto ela é personagem de piadas nos bares, em prosa e verso, filmes, novelas e até nos sermões das igrejas. No Youtube tem até padre que dá conselhos risíveis, diga-se de passagem, sobre como lidar com a sogra.

Ela é uma das figuras femininas que mais sofre com piadas, ironias e xingamentos. “Morar com a sogra é fazer vestibular para o céu”. “Sogra boa é aquela que já morreu”. “Deus fez a mãe, mas o diabo criou a sogra”, entre outras tolices. As brincadeiras, aparentemente triviais, demonstram o preconceito cultural que existe, principalmente no Brasil. No Paraná, uma Ong com 40 anos de atuação em defesa dos direitos da mulher e de geração de renda no Estado está, inclusive, criando uma lista de 10 mandamentos para a sogra com intuito de protegê-la de noras e genros sem noção.

No filme, de 2005, intitulado “A Sogra”, que acabo de ver pela enésima vez, uma hilária Jane Fonda (extraordinária, como sempre) está às voltas com a nora que é ninguém mais, ninguém menos. que a exuberante Jennifer Lopez. Em uma das cenas inesquecíveis e mais engraçadas,  Jane Fonda – no papel de uma famosa ex-apresentadora de TV, tem um ataque de pânico ao descobrir que o único filho pretende se casar com uma babá de cachorros.E nada, nem meditação, dry-martines, médicos e toda sorte de terapias conseguem aplacar o desapontamento da sogra.

Mais não conto, que não darei spoiler. Mas o filme, além de hilário, é uma boa reflexão. Sogras não são apenas as mães dos maridos e das esposas. Sogras são mulheres que, na maioria das vezes, sofrem de verdade com a partida do filho (a) mesmo que seja para a quadra mais próxima. Elas podem ser chatas, solitárias, exigentes, muitas vezes invasivas e repetitivas, mas continuam sendo mulheres. Muitas ainda são jovens e cheias de vida, e todas querem apenas um pouco de atenção e reconhecimento. Sogra não é descarte, não é um mal necessário, nem algo a se temer. Tampouco é a víbora do imaginário do escritor Aluísio de Azevedo (Livro de uma Sogra). Ela é apenas um sabiá do campo, como os que fazem ninho nos postes e árvores da cidade, e protege sua ninhada dos perigos externos com unhas e dentes.  E você não vai querer brigar com uma simples passarinha, né? Ela bica.

Quem manda em mim

Ele me faz de gato e sapato, como na música da Rita Lee. Puxa meu cabelo, enfia o dedo no meu nariz, na minha orelha; arranca meus brincos, puxa meu colar e morde meu queixo. Com 75 centímetros de altura e 9,5k de peso, ele tem força suficiente para me nocautear, levar à lona, me deixar no chão – às vezes de quatro. Mais um pequeno – grande milagre do universo para provar que nada acaba em nós. Que tudo recomeça indefinidamente, várias e várias vezes.

Esta força da natureza se chama Luca. E como todos já devem ter adivinhado, é meu neto. Meu primeiro neto. E antes de continuar o assunto, devo esclarecer que jamais desejei ser avó. Diferente de boa parte das minhas amigas, nunca fiquei “pedindo” a continuidade dos meus genes. Nunca me vi num lugar onde alguém estaria me chamando de algo para o qual não me sentia pronta. E, que, obviamente, significaria que envelheci.

Eu, heim? Achava graça quando via uma delas dizer que não poderia sair porque tinha que cuidar do filho(a) da filha(o). Que chatice, pensava.
Mas a existência tem dessas coisas meio mágicas. E quando a gente menos espera está lá, na sala de espera, ensandecida pelo neto que vai nascer. No segundo dia já morre de saudades. E quando, lá na frente, ele lhe dá o primeiro sorriso, nada mais no mundo terá tanta importância quanto este momento. Que só compete quando ele, sorrindo, lhe oferece os braços para que você o pegue no colo. Santo Deus!

Alguém me disse, certa vez, que neto é a única pessoa que lhe ama incondicionalmente. Bonita a definição, mas tem lá suas controvérsias. No século passado as avós eram mitificadas e nem sempre tão benevolentes. Da minha parte, nunca tive este amor incondicional pelas minhas avós. A paterna tinha ares soturnos e nunca fazia carinho. A materna me tratava na ponta do laço, à ferro e fogo. Raramente me dava folga. Mas admito que isto criou em mim uma personalidade mais resiliente. O que não aconteceria sem sua intervenção, já que filhos únicos tendem a ser complacentes consigo mesmo e tirano com os outros.

Depois de tantos anos me pergunto: mudaram as avós, os pais, ou mudou o mundo? Com o advento dos 50 sendo os novos 40, a atual safra de avós é cada vez mais nova. Nada daquela figura de cabelos brancos e cadeira de balanço. A maioria prima pela boa aparência, tem uma carreira profissional, é atuante, antenada e não têm pudores em demonstrar afeto.

Também não esperem bolinhos de chuva ou mingau de aveia das suas vovozinhas. Elas vão levar os netos para a Disney, à praia, algumas levarão até para a Europa. Muitas até falam com eles usando o vídeo do smartphone. E ai de quem se interpor nesta relação de amor explícito. Ou como disse uma frase dessas perdidas na internet: “Você não manda em mim. Você não é meu neto”. Sacou?

Dos 7 aos 40 e mais

Fui direto à fonte. Ou à releitura, melhor dizendo, já que foi a terceira vez que peguei o mesmo livro de Carrascoza: Aos 7 e aos 40”, nome do livro de um autor apaixonante – e essencial eu diria.

Tudo por conta do aviso de que o site, veículo que estreio hoje, alcança majoritariamente um público que vai dos vinte aos quarenta anos. Sendo assim, por que eu escolheria um livro, cuja trama começa na infância? – pode perguntar o leitor (se é que a esta altura eu já tenha algum, rs).

Poderia dizer que é porque conheço muita gurizada de sete anos que têm mais interesse por livros que muito marmanjo de 20, 30 ou 40. Mas não foi só por isto.

João Anzanello Carrascoza é um autor paulista cuja prosa, cercada de beleza e lirismo, têm no seu epicentro as relações humanas, o apreço aos pormenores cotidianos, a criação de espaços íntimos o surgimento da epifania em momentos comuns do dia a dia.

Elementos que são essenciais a crônica, gênero literário que escolhi – ou que me escolheu, pois, a literatura tem uns caminhos estranhos para chegar até os escritores e aos leitores também.

À bem da verdade, também recorri ao autor para um pouco de inspiração. Nem sempre basta o esforço para escrever, caro leitor que ainda não sei quem é. Para escrever é preciso ler e ler bem.

Recentemente numa roda de conversa entre autores, o mediador lançou a pergunta: como concorrer/conviver com os milhões de textos que pululam na Internet? Pois é, a Internet lançou ou possibilitou, melhor dizendo, que todas as pessoas possam cometer textos e versos.

Como exercício de escrita é muito bom. Seria melhor ainda melhor se houvesse alguém para eventuais correções e comentários pertinentes, como faziam meus professores de Português. E não apenas likes e curtidas.

Escrever para uma mídia quase desconhecida para mim é um desafio. Puxa, acabei usando uma palavra antiga e gasta. Mas migrar do jornal para a nuvem é algo muito novo e, de alguma forma, me faz sair do conforto.

Terei que dobrar meu tempo de leitura, ficar mais atenta ao mundo e aprender – melhor – a usar a tecnologia. Pois é, sou do tempo que se escrevia em máquinas, o telefone tinha teclado, fio, e as ligações de longa distância se chamavam interurbano.

Me entreguei, ufa! O tempo passa. E passa para todo mundo, não se iludam. Mas fica mais leve quando as boas palavras nos acompanham.

Leitura sugerida:
https://www.amazon.com.br/dp/8556520308/ref=cm_sw_em_r_mt_dp_U_t7S9CbF5RYPSC

“Theresa toda terça”: Nova Colunista da Blink102.com.br

Theresa Hilcar é membro das Academia Sul Mato-Grossense de Letras onde ocupa a cadeira número 6. Dentro de mais algumas horas ela também vai fazer parte dos colunistas do site da Blink102. Escrevendo todas as terças, Theresa vai nos presentear com uma escrita leve onde tenta um resgate, não dela própria, mas do prazer que a literatura pode despertar em gente muito jovem.
A Coluna tem o sugestivo nome de “Theresa Toda Terça”, que faz alusão ao seu trabalho homônimo com escritora. Prepare-se para mais esse grande conteúdo aqui na nossa plataforma.

Theresa Hilcar é mineira, de Lagoa da Prata e chegou em Campo Grande no início dos anos 1980. Pouco depois iniciou sua carreira jornalista atuando como apresentadora de TV e participou de diversos programas nacionais como convidada. No jornalismo impresso passou pelo Jornal da Cidade, Revista Executivo Plus até chegar ao jornal Correio do Estado (sua melhor escola, como costuma dizer), onde atuava, principalmente. como repórter de cultura. Foi no jornal que se descobriu cronista e passou a publicas suas crônicas todas às terças-feiras, por quase 30 anos. Cursou Letras e Comunicação Social. Tem sete livros publicados e algumas antologias. Aos 61 anos, a jornalista e escritora diz que a coluna da Blink é quase um reinventar-se. Afinal, escrever para um púbico mais jovem será um desafio, confessa. No entanto, espera que seus textos possam conversar com leitores de todas as idades. É cinéfila de carteirinha, apaixonada por literatura se nunca se cansa de viajar. Por países e textos.