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Baseado em fatos reais

Gosto de casas com dois níveis de piso porque transforma o lugar num tipo de teatro. A vida ganha beleza nas cenas que, em outros espaços, passariam batido aos olhos já acostumados da rotina. Isso pode acontecer também com aquelas escadas que tem o primeiro degrau mais longo e, quando a porta se abre, a sala linda se revela, com flores iluminadas pela luz sol, se for dia, ou de um abajour, se for noite.

Meu lugar era o piso de baixo quando ela entrou, descortinando o silêncio que dividíamos na espera da sua chegada. Ele, sentado pouco abaixo dos degraus, na luz direta do fim de tarde, tinha visão em primeiro plano dela que, no alto dessa escada, recortava a contraluz e anunciava o início de um sublime roteiro da simplicidade da arte de amar. 

Jogou a bolsa no sofá azul, desceu até a altura de um beijo na face dele, sorriu para mim com um aceno carinhoso de que bom que você está aqui, voltou dois passos para trás, sentou no meio da escada e deu um suspiro de cansaço. Quis saber das coisas do dia, falou do carro, da fila, do dia certa de pagamento do boleto. Ele falou do neto e do supermercado. Na pergunta “Você lembrou de comprar vinho para mim?”, o que seria uma cena comum fez aumentar minha distância de dentro, me transformando numa expectadora de um segundo parado no ar, da cumplicidade de um amor que dura anos e mantém a pureza de um primeiro olhar.

Sabe aquele contemplar que jorra admiração e meio que diz “deixa de ser boba que eu jamais esqueceria seu vinho”? Foi isso que brotou nos olhos dele, apontando com o nariz para a caixa que estava embaixo da escada. Avisou que não trouxe só uma, que trouxe logo duas caixas e de um litro. Aqui uma pausa deliciosa para o sorriso dela que aumentaria o tamanho daquela sala.

Desse sorriso de quem sabe que é amada, no auge da minha peça de teatro solitária, uma escapada da invejinha misturada com desdém apressou um “nossa gente, que romântico. É sempre assim?” Isso pulou de mim com certo nervoso, diria.  Mistura de querer isso e não ter, ou de não conseguir enxergar que já tive e não percebi. Isso que deve ser a tal da projeção que a psicóloga falava. Ele ainda chegou a responder que casamento é assim, que é o lugar onde as pessoas se cuidam, mas isso já ouvi lá longe, mergulhada em outros roteiros, velhos conhecidos das minhas comédias e tragédias.

Acho que preciso de uma casa nova.

Escrito por

Linda Raquel Benitez é uma brasileira campo-grandense. Empresária, e estudante de filosofia, é produtora cultural e design de eventos, há 20 e poucos anos na estrada. Formada em buscar um jeito mais leve de ver a vida, sua especialização é falar sem parar. Desde o ano passado, decidiu escrever e assumir suas crônicas para o mundo.

2 Comentários

2 Comments

  1. Eristom Gonçalves

    23/08/2019 em 18:10

    Essa casa ja é muita linda com sua história, não precisa de outra nova!

  2. Eristom Gonçalves

    23/08/2019 em 18:15

    Lindo fato real

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