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Cada qual com seu cada qual

Parar de me meter na vida dos outros. Esse é o maior desejo das minhas listas de promessas que insisto em escrever nos aniversários, páscoa ou réveillon. Faço e refaço tantas vezes que, dentro de mim, isso já virou um mantra. Repetir, repetir e repetir até entrar nessa cabecinha que cada qual tem seu cada qual, rezando para não cair em tentação. Respeitar esse limite é uma luta louca e exige muito da minha pessoa. Algumas vezes não consigo.

João e Igor chegaram de manhã para as férias em casa. No auge do verão e um calor que trazia um sol para cada pessoa, prepararam o tereré, com a erva, a cuia e a bomba que trouxeram na bagagem. Sentaram debaixo da árvore e dê-lhe música. Sertanejo universitário. Acho que tocava ‘ainda não me chame de bebê” quando sentei para papear. Confesso que não entendi direito a canção escolhida para celebrar a alegria que seria, na manhã seguinte, ver o mar pela primeira vez. Ótimo momento para colocar em prática meu desejo do último ano novo. Ouvi quietinha o que dizia a letra, fazendo força,  para não julgar, segurando a impaciência até o último acorde.

João já conhecia Búzios. Amigo do Igor desde guri, estampava orgulho daquela amizade e da façanha de levá-lo, finalmente, para viver as aventuras das férias numa praia. Igor era gigante por dentro e seu coração devia ter a metade da sua altura. Em sua fala, as palavras pipocavam de alegria: “Amanhã é nóis, tia” . Seu abraço entrava em mim e mostrava um sorriso de raiz que fazia brilhar seu chapéu de carandá.

Ao longo da tarde, falamos sobre tudo, hábitos, músicas, lembranças. Me pediram para mostrar essa tal de MPB. Coloquei Caetano, Chico e outras novas. A cada uma que terminava, surgia um silêncio daqueles profundos, respirados, chegando à conclusão que aquilo não era para eles e que, a partir dali, seria cada um com a sua música. Tá tia?

Igor adorou a praia. Fez tudo o que tinha direito. Já no restaurante, enquanto me contava da menina que estaria a fim, chegou mensagem dela. Surpreso, leu para mim. Olha tia como ela escreve bonito: “você vai rir, sem perceber, felicidade é só questão de ser”. Eu disse “sim, muito bonito. É uma letra do Marcelo Jeneci”, informei.

Sabe o que ele fez? Escreveu para a menina que adorava o Marcelo Jeneci e mudou todo o rumo da prosa. A menina toda suave na resposta: “Nossa, você conhece o Jeneci? Que surpresa”. Virou uma brincadeira de mentir, onde eu era a resposta dele. Essa conversa seguiu até ela perguntar que outro cantor de MPB ele gostava. Respondi e ele digitou, Cícero. Ele achando que estava arrasando, emudeceu na última resposta dela: “Nossa, Igor, você era tão sertanejo, agora ouve essas músicas, acho que você está ficando meio boiola. Vou parar por aqui.”

Nem sei como o Igor fez para se explicar e se esse namoro vingou. Sei que para cada experiência existe a música certa.

Tem coisa que não acaba quando termina.
Preciso começar a fazer minha lista de promessas do ano que vem.

Escrito por

Linda Raquel Benitez é uma brasileira campo-grandense. Empresária, e estudante de filosofia, é produtora cultural e design de eventos, há 20 e poucos anos na estrada. Formada em buscar um jeito mais leve de ver a vida, sua especialização é falar sem parar. Desde o ano passado, decidiu escrever e assumir suas crônicas para o mundo.

2 Comentários

2 Comments

  1. Igor

    20/09/2019 em 12:38

    Essa cena se repassou na minha cabeça agora hahahaha. Muitas alegrias e risadas!

  2. Janete

    20/09/2019 em 12:59

    Nova lista, mesmos assuntos! Kkkkkk!!!
    Mas que é difícil colocar freio em nossas intromissões, lá isso é!
    Compartilho desse comportamento!
    Amei o texto um pouquinho mais longo! ❤️

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