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Com a caneta na mão

Levanto a cabeça e vejo a primeira pessoa na fila. Congelo. Tenho vontade de sair correndo, dar uma desculpa, dor de barriga, qualquer coisa. Eu sei, faz parte do processo, mas tenho que confessar: sou totalmente avessa a qualquer tipo de convenção que me obrigue a fazer o que não consigo. A fila aumenta e eu tento despistar. Existem outros ao meu lado, mais aptos, mais saudáveis, aparentemente sem nenhuma espécie de pânico. Sou apenas eu. A única a desejar ardentemente que todas as canetas do mundo desaparecem naquele momento. O momento do autógrafo.

Para começar, tenho uma péssima letra. Considero de mau gosto escrever com letra disforme no livro de alguém. Uma vez encontrei um livro antigo, um dos primeiros, com autógrafo meu. Alguém havia esquecido de levar o presente. Fiquei feliz por poupá-lo de uma pífia dedicatória. Mas a tristeza diante do fato, de não ter o menor traquejo para a tarefa foi doída. Onde já se viu escritor que não gosta de dar autógrafo, fazer dedicatória? Já pensei em imitar Ziraldo que, com uma caneta colorida escreve apenas “Um abraço” e pronto. Faz isto com centenas de livros durante horas sem sair da cadeira. Um diletante, um homem superior, gênio e – claro, de uma humildade à toda prova. Autografa livros antigos, que às vezes vem em pilhas. E nunca se queixa. Talvez seja o sucesso o sinônimo da disposição. Vai saber.

A socióloga Marcia Tiburi também usa o artifício da canetinha colorida e escreve “Um beijo” ou algo no gênero. Nada mais. Ninguém lhe pede uma dedicatória especial. Para mim pedem. Ah! Meus amigos queridos, soubessem o quanto sofro quando ouço esta frase: uma dedicatória especial; seriam solidários com a minha inaptidão, seriam compassivos com meu medo. Sim, o que tenho é medo. E ele me faz escrever coisas tolas, frases idiotas, compridas, às vezes sem nexo. Sou um fiasco neste departamento.

Minha companheira de publicação (o livro “Nossas Crônicas”) recente, disse que por ela não haveria mais lançamentos e noites de autógrafos. Isto, segundo Lucilene Barbosa, para poupar os amigos, os mesmos que sempre estão por lá com livro debaixo do braço, sendo solidários ao ofício do escritor. Escrever livro no Brasil é um ato de coragem, publicar é doidice e fazer noite de autógrafos é caso de internação imediata. Lê-se cada vez menos por aqui. Principalmente nós, os chamados regionais. Como se isto fosse um carimbo de incompetência ou coisa que o valha. Temos todos complexo de vira-lata. E por falar em carimbo.  ultimamente tenho pensado que seria pensei numa boa solução para substituir os autógrafos.

Desculpem-me, mas letra feia é algo a ser guardado entre quatro paredes.

Escrito por

Theresa Hilcar é mineira, de Lagoa da Prata e chegou em Campo Grande no início dos anos 1980. Pouco depois iniciou sua carreira jornalista atuando como apresentadora de TV e participou de diversos programas nacionais como convidada. No jornalismo impresso passou pelo Jornal da Cidade, Revista Executivo Plus até chegar ao jornal Correio do Estado (sua melhor escola, como costuma dizer), onde atuava, principalmente. como repórter de cultura. Foi no jornal que se descobriu cronista e passou a publicas suas crônicas todas às terças-feiras, por quase 30 anos. Cursou Letras e Comunicação Social. Tem sete livros publicados e algumas antologias. Aos 61 anos, a jornalista e escritora diz que a coluna da Blink é quase um reinventar-se. Afinal, escrever para um púbico mais jovem será um desafio, confessa. No entanto, espera que seus textos possam conversar com leitores de todas as idades. É cinéfila de carteirinha, apaixonada por literatura se nunca se cansa de viajar. Por países e textos.

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