Como está a saúde mental de quem cuida da saúde?

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Entrevista com Prof. Dr. Vicente Sarubbi Jr. Pesquisador em colaboração com a Fiocruz MS ↓

Entrar pela porta de um hospital quando é necessário um atendimento, muitas vezes é doloroso e urgente, afinal quem gosta de ficar doente? Agora imagine como anda a saúde de quem está nesse momento prestando atendimento no plantão médico, na enfermagem, na farmácia, na fisioterapia, nos serviços de saúde em geral, seja nas unidades de saúde próximas da sua casa ou no hospital de referência da região que você mora. São milhares de profissionais envolvidos nos cuidados em saúde, atuando de maneira exaustiva desde a chegada da pandemia da COVID-19.

Um estudo em andamento da Fundação Oswaldo Cruz de Mato Grosso do Sul (Fiocruz MS) avalia o impacto do transtorno mental no trabalho e nos trabalhadores da saúde na pandemia do coronavírus, para verificar a presença de sintomas de depressão, ansiedade e estresse, na tentativa de entender as estratégias utilizadas para o enfrentamento do sofrimento mental na pandemia de COVID-19 e, consequentemente, pós-pandemia. A pesquisa é conduzida por pesquisadores da Fiocruz de MS e Fiocruz Brasília, em parceria com pesquisadores da Escola de Saúde Pública do estado de Mato Grosso do Sul (ESP-MS), Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS). Os primeiros passos da pesquisa aconteceram ainda em 2020. 518 profissionais da área de saúde responderam um questionário online que revelou que sintomas como ansiedade, depressão e estresse estiveram presentes entre os participantes, em algum momento durante a pandemia.

A Coordenadora da área de Educação da Fiocruz do Mato Grosso do Sul, Debora Dupas, afirma que a pesquisa vem trazendo resultados significativos para os trabalhadores da saúde. “A pesquisa tem por objetivo reconhecer a influência da pandemia na saúde mental desses profissionais, assim é possível identificar e monitorar os grupos com maior probabilidade de desenvolver sofrimento mental, para que intervenções psicossociais sejam oportunizadas em tempo hábil.”, finaliza.

O grupo de pesquisadores fez análise dos dados revelando que, o transtorno que mais acomete os profissionais é a Ansiedade. Afinal de contas a apreensão ou medo, seja pela vida, seja pelas condições de trabalho e incertezas sobre crescimento desenfreado da pandemia assusta qualquer um, imagina associar tudo isso ao trabalho na linha de frente da COVID-19. A angústia do diagnóstico positivo para o coronavírus está presente todos os dias na vida desses profissionais.  Nos dados, 71,2% dos participantes não tinham se contaminado com novo coronavírus, 28,8% contraíram e desses que foram infectados, 91% estavam recuperados. Um dos fenômenos observados vai além, os participantes da pesquisa tinham como comorbidades diabetes, doença cardiovascular, doença respiratória, hipertensão arterial e outras doenças.

Com os dados pôde-se traçar o perfil dos profissionais que apresentaram sintomas de depressão, ansiedade e ou estresse. A maioria deles é do sexo feminino, com idade entre 30 e 39 anos, que trabalham no primeiro atendimento as pessoas da comunidade e não sentem-se seguros com as ações implementada pelo poder público de enfrentamento ao coronavírus na pandemia. As unidades básicas de saúde e saúde da família são a porta de entrada do SUS e o principal canal de comunicação para a rede de atenção da saúde funcione em todo país. São inúmeros profissionais, equipes multidisciplinares, desenvolvendo ações e estratégias para promoção, prevenção, diagnostico, tratamento, reabilitação, redução de danos e manutenção da saúde das comunidades.

Para o Presidente do Conselho Regional de Enfermagem Sebastião Junior Henrique Duarte essa pesquisa é de suma importância já que os resultados podem subsidiar políticas que possam atender esse segmento. “O atendimento do profissional de enfermagem é na linha de frente e é um dos maiores contingentes em atividade na pandemia, a melhora das condições de trabalho bem como a segurança desse trabalhador reflete diretamente no atendimento a comunidade”, acrescenta.

A articulação entre gestores, sindicatos dos profissionais da saúde e conselhos de classes das categorias pode representar uma potente iniciativa para que todos fiquem atentos à saúde mental desses profissionais e para que estratégias de cuidado em prol da saúde do trabalhador sejam desenvolvidas. A pesquisa aponta que não apenas os profissionais do hospital sofrem com transtornos psicológicos, mas principalmente os que estão na rede de atenção primária, nas unidades básicas de saúde perto da sua casa. “Os trabalhadores da saúde têm uma sobrecarga de trabalho, pela falta de efetivo, pela exaustiva jornada de trabalho e pelas próprias condições de trabalho, que por si, podem gerar sofrimento. As instituições, na maioria das vezes, não garantem suporte à saúde mental dos trabalhadores e o poder público precisa se sensibilizar com essa questão”, finaliza Debora Dupas Coordenadora da Pesquisa.

Como uma das metas da pesquisa foi elaborado um catálogo onde estão mapeados os projetos e serviços psicológicos públicos e privados em Mato Grosso do Sul. O objetivo da cartilha é fornecer informações para os trabalhadores da saúde que necessitam encontrar atendimento e apoio para o cuidado mental durante a pandemia causada pela covid-19.

Para acessar os dados completos da pesquisa, a cartilha e o calendário com os próximos eventos da Fiocruz MS acesse o portal: matogrossodosul.fiocruz.br/