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Delicadeza gera delicadeza

Falando sério: anda difícil ser simpática com todas as pessoas. Eu sei que deveria. Minha mãe me ensinou, a escola me graduou, a vida também. Devemos sim,  demonstrar a boa educação a todo mundo.  Não importa quem seja não importa o local, nem as circunstâncias. Mas como eu disse, anda difícil aplicar a teoria.  O que esperar de uma época em que até fieis  furam a fila da comunhão? Você está lá, contrita, serena, esperando sua vez, e quando percebe meia dúzia de pessoas passou à sua frente, devagarinho, como quem não quer nada. Imagino que devam pensar: “Ah! a fila está passando ao meu lado, pra quê que eu vou até o final dela?”. Inacreditável. Povo tem pressa até para Deus, como se ele fosse sair correndo dali.

No trânsito, onde pipocam reclamações – todas procedentes, já desisti. Não dirijo porque nunca suportei – agora menos ainda  – buzinas, gente xingando, trânsito confuso, aborrecido. Hoje, no banco de trás (graças aos aplicativos) fico com pena dos motoristas que lidam, todos os dias, com infratores de primeira ordem. Gente que passa na frente, corta, freia, fura sinal sem a menor cerimônia; não dá sinal de seta, não tem, enfim, a menor delicadeza com os outros motoristas. Com pedestre então – é outra crônica, é um caos. Nem se me dessem um carro de graça, nem uma Ferrari que agora tem alíquota zero para importação – outro assunto; eu iria dirigir.

E o que dizer do supermercado? É muita provação. Um teste rigoroso no quesito de boa educação, simpatia, gentileza e higiene. “Comprei só uma coisinha, posso passar a sua frente?”. De uns anos pra cá (essa é uma das vantagens da idade) eu digo não. Não e não. Mas em dias que a culpa está instalada dos pés a cabeça, eu digo sim. Com uma raiva danada, que fica me corroendo por dentro, mas digo. E fico com mais culpa de sentir a raiva. Pior que isto é assistir ao sujeito à sua frente, com um carrinho repleto, falando alto ao telefone e colocando o dedo dentro do nariz. E você lá, com seu queijinho, pão integral, umas folhinhas… Não dá vontade de dizer: oi, vai limpar o salão em casa, moço (antigamente chamavam o interior das narinas de salão, rs)!

Andando na rua a sensação é de que todo mundo está de mau humor. De mau humor não, estão profundamente aborrecidos com alguma coisa. Com o mundo. Quando passam por você e porventura seus olhares se cruzam, dá para sentir aquele olhar de ódio, que quase lança chamas em nossa direção. É impressionante. Experimentem caminhar pelas ruas. A gente fica sem entender nada. Será que eu fiz alguma coisa para essas pessoas? Volta e meia me pergunto. Só faltam carregar um chicote. É raro, raríssimo, encontrar alguém que te olha com o mínimo de delicadeza. E é uma loteria encontrar alguém que lhe dê Bom dia, Boa tarde. Coisas que eram triviais até um dia desses. Não vou nem falar de “desculpas” ou “obrigado”. São palavras que fugiram do dicionário.

Mas ontem, não sei como, talvez antevendo o tom desta crônica, só encontrei gente sorrindo na rua. No começo achei que estava dando algum motivo para a graça. Cheguei a pensar que minha roupa podia ser estranha, talvez minha cara esquisita, meu cabelo diferente. Mas não. Eu estava igual a todos os dias. E elas passaram por mim e sorriram. Até um bebê, no colo da mãe, me lançou um sorrisinho que eu agradeci com um aceno caloroso. Ontem foi um dia diferente. Pode ter sido prenúncio do Eclipse de hoje que, segundo li, pode ser que mude o nosso comportamento. Vai saber. Pensando bem, foi apenas um sinal Divino para comunicar que dali a algumas horas mais um ser viria a este mundo? Mais um bebê, outro neto. Que veio com a leveza, força, coragem e, com certeza, a delicadeza que tanto nos faz falta. É com você, Théo! Que sua vida seja cercada de poesia.

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Escrito por

Theresa Hilcar é mineira, de Lagoa da Prata e chegou em Campo Grande no início dos anos 1980. Pouco depois iniciou sua carreira jornalista atuando como apresentadora de TV e participou de diversos programas nacionais como convidada. No jornalismo impresso passou pelo Jornal da Cidade, Revista Executivo Plus até chegar ao jornal Correio do Estado (sua melhor escola, como costuma dizer), onde atuava, principalmente. como repórter de cultura. Foi no jornal que se descobriu cronista e passou a publicas suas crônicas todas às terças-feiras, por quase 30 anos. Cursou Letras e Comunicação Social. Tem sete livros publicados e algumas antologias. Aos 61 anos, a jornalista e escritora diz que a coluna da Blink é quase um reinventar-se. Afinal, escrever para um púbico mais jovem será um desafio, confessa. No entanto, espera que seus textos possam conversar com leitores de todas as idades. É cinéfila de carteirinha, apaixonada por literatura se nunca se cansa de viajar. Por países e textos.

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