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Esses moços tão gentis

No banco da frente o número era 20. No banco de trás, somando as idades, 143. Já estava escuro quando peguei o telefone para chamar o aplicativo. E por mais que tentasse não conseguia colocar uma parada extra na chamada. A amiga mora pouco mais de 3 quadras e, portanto, não justificava chamar dois carros. Coloquei o destino final e torci para que o motorista ajudasse duas senhoras, um tanto inaptas com tecnologia e a visão já meio gasta de tantos anos olhando o mundo com curiosidade.

“Oi moço, não consegui colocar uma parada”. Ele gentil, explica que é preciso retornar ao pedido da corrida e adicionar mais um trecho. Em vão tento achar os ícones na telinha do celular. Minha amiga, alheia ao procedimento, repetia o endereço. Mas a tecnologia não aceita a palavra de uma senhora de 81 anos com lindos cabelos brancos. É preciso registrar, escrever. Impotente, peço ajuda ao garoto. Ele pega o celular e em segundos arruma a corrida. A tela está mesmo escura, atestou.

Puxa, que alívio. Não são apenas meus olhos que estão me deixando em apuros. A falta de habilidade com o aparelho também contribui. Foi quando perguntei a idade dele. Caramba! Só 20? E fiz aquela brincadeira sem graça e óbvia: com sorte você vai chegar à nossa. Vocês estão muito bem, respondeu. Sim, é o que todos dizem. Estamos bem para a idade que temos. É assim que se elogia uma mulher que passou dos 50 no Brasil. Despeço-me do menino agradecida. Pela gentileza e por consertar a tela do celular que agora está clara feito o dia.

E foi no dia seguinte, distraída pela música que tocava no rádio (e que me irritou um pouco) acabei deixando os óculos no banco traseiro, de outro motorista. Chego ´mesa de trabalho e me dou conta da perda. Sem os óculos não é possível trabalhar. Nem ler, escrever, reclamar, ligar, nada. Peço emprestado os olhos do colega de 28 que faz todas as cinco ligações para o aplicativo, e escreve o e-mail reportando a perda. Quem está perto comenta a minha calma diante do ocorrido. “Fosse com a gente estaríamos surtando! ”. Mas eu estava surtando. Só que por dentro.  

Já estava dando por perdido, pensando no prejuízo da distração: ir e voltar de casa até em casa para buscar em alguma gaveta um par de óculos qualquer, quando o telefone toca. O motorista avisa que está na porta com meus óculos, junto com um vidro de floral que também deixei cair. Que alívio saber que ainda existem sim, pessoas gentis e serviços eficientes. Que vão continuar entregando óculos, remédios, celulares e tudo o mais que for deixado para trás. Porque a gente sempre deixa, não importa a idade.

Escrito por

Theresa Hilcar é mineira, de Lagoa da Prata e chegou em Campo Grande no início dos anos 1980. Pouco depois iniciou sua carreira jornalista atuando como apresentadora de TV e participou de diversos programas nacionais como convidada. No jornalismo impresso passou pelo Jornal da Cidade, Revista Executivo Plus até chegar ao jornal Correio do Estado (sua melhor escola, como costuma dizer), onde atuava, principalmente. como repórter de cultura. Foi no jornal que se descobriu cronista e passou a publicas suas crônicas todas às terças-feiras, por quase 30 anos. Cursou Letras e Comunicação Social. Tem sete livros publicados e algumas antologias. Aos 61 anos, a jornalista e escritora diz que a coluna da Blink é quase um reinventar-se. Afinal, escrever para um púbico mais jovem será um desafio, confessa. No entanto, espera que seus textos possam conversar com leitores de todas as idades. É cinéfila de carteirinha, apaixonada por literatura se nunca se cansa de viajar. Por países e textos.

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