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Fábrica de moer velhos

O dentista confirmou, o vendedor da casa de sucos reiterou, o amigo do filho aderiu, o taxista faz a mesma coisa, até o espelho se rendeu às evidências. Sou mesmo uma senhora.  É o que todo mundo atesta. Mas a bem da verdade, e embora respeite todas as opiniões, acho difícil acreditar. No fundo, bem lá no fundo, faço coro  à música de Cássia Eller: “Eu anda sou uma garotinha…”. Tudo bem que perdi diversos componentes da juventude, digamos assim. Enxergo cada vez menos, demoro a captar algumas mensagens, não subo escadas com a mesma ligeireza de antes, acumulo gordurinhas ao redor da cintura (que pelo visto nunca mais irão embora); a pele dos olhos ficou tão flácida que mal consigo fazer o risco do delineador, os pelos do corpo estão sumindo em alguns lugares e aparecendo em outros, totalmente desnecessários, durmo pouco e vou pra cama cada vez mais cedo.

Mas me recuso, terminantemente, a entrar na categoria da “melhor idade” com todas as suas fantasias e ilusões.  Sim, porque este termo foi criado pelo marketing só para poder tirar mais um dinheirinho dos velhos. A indústria do turismo e do entretenimento não é boba. Viagens de navio são filão e tanto. E como já disse que querido amigo e escritor, Abílio de Barros, mais parece uma excursão geriátrica.  E o que dizer dos famigerados bailinhos? Uma banda de terceira, tocando música de segunda, para os saudosistas de plantão. Me dá ânsias só de imaginar o espetáculo –- até porque nunca fui mesmo de dançar.

No filme “Aquarius”, aquele que muita gente não assistiu – e perdeu –- porque o elenco fez protesto em Cannes (e daí?), Sônia Braga interpreta, maravilhosamente bem, uma mulher de 60 e poucos anos, viúva, que costuma ir com as amigas aos tais bailinhos da saudade.  A cena é deprimente: quatro mulheres, todas na mesma faixa de idade, numa mesa bebendo cerveja e esperando, ansiosamente, que alguém as leve para a pista de dança – no mínimo. Tem gente que gosta mesmo de dançar, mas como no filme, a impressão é que  a maioria está tentando aplacar a solidão. Prefiro ficar em casa lendo um bom livro ou assistindo série na Netflix. Até porque, ninguém quer velho por perto. Apenas os que estão mais velhos ainda.

A vida real é um labirinto de restrições, principalmente no País da juventude. O Brasil é um país que massacra os mais velhos. Seja nas calçadas, sempre desniveladas e esburacadas, na impaciência do trânsito, na indelicadeza dos atendentes dos serviços públicos, na completa e total indiferença ante as inúmeras dificuldades – reais e naturais. Tudo isto porque acreditam que serão jovens para sempre, ou porque não foram educados para aceitar a diferença.

Semana passada ouvi um garoto dizer que “precisava” ligar para a mãe no dia do aniversário, senão ela enlouqueceria . Depois dos parabéns de praxe ela deve ter dito que a medicação havia acabado, ele então alterou a voz e, com certo desagrado, disse: puxa mãe, por que  você deixou pra me dizer que o remédio acabou em cima da hora? Ele não entendeu que, tão ou mais importante que o remédio, o que ela precisavas mesmo era de abraços e flores. Além do remédio, claro!

Escrito por

Theresa Hilcar é mineira, de Lagoa da Prata e chegou em Campo Grande no início dos anos 1980. Pouco depois iniciou sua carreira jornalista atuando como apresentadora de TV e participou de diversos programas nacionais como convidada. No jornalismo impresso passou pelo Jornal da Cidade, Revista Executivo Plus até chegar ao jornal Correio do Estado (sua melhor escola, como costuma dizer), onde atuava, principalmente. como repórter de cultura. Foi no jornal que se descobriu cronista e passou a publicas suas crônicas todas às terças-feiras, por quase 30 anos. Cursou Letras e Comunicação Social. Tem sete livros publicados e algumas antologias. Aos 61 anos, a jornalista e escritora diz que a coluna da Blink é quase um reinventar-se. Afinal, escrever para um púbico mais jovem será um desafio, confessa. No entanto, espera que seus textos possam conversar com leitores de todas as idades. É cinéfila de carteirinha, apaixonada por literatura se nunca se cansa de viajar. Por países e textos.

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