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Ficar quieto já ajuda

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Uma amiga me mandou texto de um livro da Leda Régis que falava num trecho sobre as desordens da ajuda. Era tão importante que eu lesse que ela chegou a ler comigo, letra por letra. Tipo: daqui você não escapa. Vai ter que aprender.
Fui sacando que o tema tratava sobre a necessidade quase viciada que eu tenho em ajudar alguém, por diversos motivos. Idoso no sinal, gente que esquece nome de filme conversando com alguém na fila do banco, dietas para emagrecer que sequer tentei. Cheguei até a sugerir terapia, terreiro, novena para quem eu encontrasse naquele dia e eu nem precisava conhecer a pessoa. Coisas de impulso que quando vou ver, pula da boca, sem permissão, sem perguntar se a pessoa quer ouvir. Preciso e vou melhorar isso, nem que eu tenha que participar de algum tipo de AA (ajudantes anônimos). Enfim, parar de meter onde não sou chamada.
No mesmo dia, já com esse conhecimento todo, fui ao supermercado. Na fila para pagar tinha uma mocinha comprando suco de saquinho com uma nota de R$ 100 reais. A mocinha do caixa chamou bem baixinho a gerente que traz o troco. Muita gente na fila, calor, verão. E eu como? Quer que eu troque? Tenho 2 de cinquenta. Ela sorriu pegou o dinheiro e colocou o 100 reais no balcão, eu comecei a passar minhas compras, nem vi. Na hora de pagar, sorri tranquila, já tinha dado o dinheiro, só esperava meu troco . A caixa me olhou apavorada e disse que tinha me dado a nota de 100. Não tinha. Resultado: ela deu a nota que estava no balcão junto com o troco para a mocinha que comprou um suco. Levou o suco e 190 reais para casa! Corri de um lado, a gerente para o outro para tentar avisar. Ela achou, já dentro de uma agência de banco. Voltamos para o supermercado para ver as imagens. Eu, a moça do suco, a caixa, a gerente, numa salinha minúscula, vendo e revendo imagens que eram claras: a caixa pega a nota do balcão, junta com o troco e passa para essa pessoa, que não admitiu de jeito nenhum ter levado esses 100 reais. Até que a caixa se irritou e disse que pagaria pelo erro. A que pegou o troco saiu bufando da sala e foi embora, com o dinheiro. A caixa voltou a trabalhar, muito irritada.
E eu?
Com cara de quem não aprendeu a lição. Duas horas de calor intenso por ter trocado 100 reais? Não! Por ter me metido. Se ficasse quietinha poderia ter feito tanta coisa! Sai do supermercado com sensação de bem feito para mim. Vou reler esse texto da Leda Régis, letra por letra.
A partir de hoje, só ajudo a quem pedir. E se pedir, se eu puder. Meu nome é Linda, por hoje estou limpa e não ajudei ninguém. Vou escrever.
Linda Raquel Benitez escreve a coluna Vida Linda para o Blink News. Ela conta o que aprende com tudo o que vê e vive; relata impressões e ideias da vida e do dia a dia. Empresária, produtora cultural e design de eventos, Linda é campo-grandense e vive, atualmente, em Búzios (RJ). É casada, tem dois vira-latas e estuda filosofia. Foto: Milena Rodrigues

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