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SUSTENTABILIDADE

Foco, Força e Fé

Quando o dinheiro sai de perto deixa espaço para cada história. Mais de duas ou três vezes a carteira vazia me ajudou a cravar na memória um certo orgulho do sentimento de poder, que renascer dessas cinzas traz. Discurso pré-histórico de sobrevivência, conseguir juntar algum assim, de esforço próprio e partindo do zero, já me fez voar tanto sobre a cidade, heroína de mim mesma.

De um lado, a preocupação de como vou pagar as contas do dia cinco e, de outro lado calma, você sabe muito bem o que fazer, nada de drama. Tenha “foco, força e fé, na hora certa a estrela vai brilhar, amanhã será outro dia,” são as frases prontas que, gritadas em looping, jorram da cabeça, trazendo alívio do medo e desse desamparo, coisas de terapia. Aí surgem as ideias de Jericó.

Em algum lugar do passado, num janeiro distante, onde as contas procriam e tudo dobra de valor, imaginei que trazer o Renato Borghetti do Rio Grande do Sul para fazer um show numa cidade repleta de gaúchos, no interior de Mato Grosso do Sul seria a alta da minha bolsa de valores. Não queria ganhar algum, queria ficar rica. Com essa ideia na cabeça e uma passagem de ônibus na mão, parti.

Cheguei na cidade e fui logo no comércio para fazer a fase de pesquisa. Aprendi isso no programa de televisão que ensina sobre negócios. Para conhecer o segredo do sucesso é necessário ir a campo, conversar e ver o real interesse da comunidade sobre suas intenções. No restaurante, o garçom veio me atender. Enquanto lia o cardápio perguntei se ali gostavam do Borghetti. Nem levantou a cabeça, continuou anotando e respondeu ”A gente gosta sim, mas a gente não serve”. Silêncio universal. Uma resposta de fazer cuspir para fora dessa dimensão. Vou até pular a linha para deixar seu pensamento respirar.

Minha pesquisa acabou ali, voltei para rodoviária com a derrota na mochila. Na viagem a memória do dia que fui para Cuiabá trabalhar numa festa. Só levei um figurino de Charles Chaplin. Brincava de fazer “O sombra” com os convidados, quando a dona da festa me perguntou sobre que horas começaria o show de Drag Queen que ela tinha contratado. Sem resposta, senti esse mesmo silêncio, universal.

A noite me roubou do cansaço dessas horas e me entregou para um dia novinho em folha. Logo cedo meu telefone tocou. Era um convite para organizar, na capital e em tempo recorde, um festival inteiro. Na animação dessa possibilidade, pensei logo que no esforço desesperado da véspera foi pura falta de fé e que me meter no fluxo da vida só me atrapalha. 
Acho que vou sugerir na programação um ator que toca violino vestido de Chaplin e, quem sabe, um show do Renato Borghetti. Uma forma de agradecimento à moça daquela festa e ao garçom que, na sua resposta, colocou meu mundo no seu devido lugar.

Escrito por

Linda Raquel Benitez é uma brasileira campo-grandense. Empresária, e estudante de filosofia, é produtora cultural e design de eventos, há 20 e poucos anos na estrada. Formada em buscar um jeito mais leve de ver a vida, sua especialização é falar sem parar. Desde o ano passado, decidiu escrever e assumir suas crônicas para o mundo.

2 Comentários

2 Comments

  1. Eristom Gonçalves

    30/08/2019 em 15:08

    As vezes as pessoas se programam tanto para organizações de trabalho e acaba dando tudo errado. Os improvisos com criatividade e competência gera um enorme sucesso em muitos casos.
    Por isso o peixe ‘Borguet” deve ter virado uma especialidade da casa depois da sua visita.

  2. anonymous

    02/09/2019 em 18:42

    Gratidão! eu amo seus negoci

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