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Forever Young

Dia difícil para escrever. O final de semana passado não foi fácil pra ninguém. A bem da verdade, a semana toda que passou foi um grande caos. Desde terça-feira, quando São Paulo virou uma noite poluída, as queimadas na Floresta Amazônica, os absurdos ditos por quem deveria ser o mais sensato e boa parte da população achando que tudo não passava de invencionice.  Em meio a tantas verdades incômodas e inverdades compartilhadas, mal acreditei quando li no domingo a notícia da morte da escritora e atriz Fernanda Young aos 49 anos.

Não pode ser, pensei. Como alguém com tanta energia, garra, talento, vai embora assim, de um ataque de asma e parada cardíaca? Que isto companheira? Isto não se faz. O mundo já está tão ruim e sua partida vai deixá-lo um pouco pior. Sem o humor e a inteligência o que nos resta? Uma vidinha besta, Fernanda. E com um monte de idiotas por perto. Pensando bem, deve ter sido por isto que você embora tão de repente. Por certo não estava suportando o tédio que este País está se tornando. Mesmo com tanta coragem de desafiar o establishment e o politicamente correto, você estava se sentindo incômoda. Imagine nós, pobres mortais.

Li seu texto póstumo “Os cafonas” e me deu inveja danada de não ter escrito. Você fala sobre os cafonas e a vulgaridade, a deselegância, a ignorância – e mentira como tática. A gente sabe a quem você se refere; às quais pessoas você se refere, a quem você detesta – porque muitos de nós detestamos também. Mas a maioria não fala. E você falava por nós. Ler todas aquelas palavras enfileiradas, profundas, verdadeiras, provocou em mim um longo suspiro. Suspiro de medo.

Meu amigo – e seu também – Afonso Borges, disse numa crônica, que você morreu sem ar, sufocada. E disse que “queria saber para tentar fazer qualquer tipo de relação menos dolorida que está, de morrer sufocada”.  E lembra a frase que, segundo ele, melhor a define: “Eu não sou intelectual, escrevo com o corpo”, de Clarice Lispector. Pode ser que seu corpo tenha cansado, vai saber. Um corpo tatuado, um corpo que gritava, se contorcia ante as mentes insanas. Cansou. Só pode.

Então peço novamente licença ao meu amigo, Afonso, também escritor, além de um dos maiores (senão o maior) divulgador da literatura no Brasil, para compartilhar a mesma frase que ele terminou a crônica, porque, sinceramente, estou sem mais nada pra dizer. É dele, então, este final: “Digo assim, então, em letras garrafais: morreu Fernanda Young, uma escritora. Que agora, finalmente respira, para sempre”.

Escrito por

Theresa Hilcar é mineira, de Lagoa da Prata e chegou em Campo Grande no início dos anos 1980. Pouco depois iniciou sua carreira jornalista atuando como apresentadora de TV e participou de diversos programas nacionais como convidada. No jornalismo impresso passou pelo Jornal da Cidade, Revista Executivo Plus até chegar ao jornal Correio do Estado (sua melhor escola, como costuma dizer), onde atuava, principalmente. como repórter de cultura. Foi no jornal que se descobriu cronista e passou a publicas suas crônicas todas às terças-feiras, por quase 30 anos. Cursou Letras e Comunicação Social. Tem sete livros publicados e algumas antologias. Aos 61 anos, a jornalista e escritora diz que a coluna da Blink é quase um reinventar-se. Afinal, escrever para um púbico mais jovem será um desafio, confessa. No entanto, espera que seus textos possam conversar com leitores de todas as idades. É cinéfila de carteirinha, apaixonada por literatura se nunca se cansa de viajar. Por países e textos.

1 Comentário

1 Comentário

  1. Adriana Farnesi

    28/08/2019 em 12:33

    Difícil e triste de acreditar.
    Parabéns pela crônica.

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