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Hoje é o amanhã de ontem

Apesar de uma manhã comum, naquele instante, o tempo passou diferente e mais rápido que de costume.

No consultório, a assistente parecia um anjo de olhos verdes na imensidão branca daquela sala. Ele, muito jeitoso e educado, pediu que abrisse a boca, anunciando em seguida sua boa nova: hoje nós vamos “escanear” seus dentes. Na hora pensei que usava esse verbo para falar com designer gráfico, nunca com dentista. Ainda assim, me entreguei para a experiência, confiei e relaxei. A delicadeza dele trouxe algo que à primeira vista lembrava uma caneta gigante. Fazia som de clicks suaves e o movimento parecia um escovar de dentes, normalidade do dia a dia, só que não. Ele brilhou de orgulho ao dizer que, em tempo real, montávamos um “três dê” da minha boca. Cada clique uma foto e um milhão delas para apresentar toda a complexa estrutura de ossos, veias, dentes e raízes. O que era simples para ele, para mim virou um dar-se conta do tempo que correu ao contrário e, de súbito, soltou o elástico da memória e da nostalgia. E agora? E os casquetes? Os tubetes? E a lamparina com fogo? O que será feito de todas essas coisas que conheci ao longo destes anos? Seria o fim da idade média da odontologia?

Desde que me entendo por gente, algo me dizia que cuidar da boca me ajudaria a chegar em Roma. De dentista em dentista, perambulei por clínicas, num tempo em que arrancar logo para parar de doer era o jeito de fazer as coisas. Época em que moldar exigia muito mais espaço para aquela coisa de metal gigante, recheada de massa azul que, para endurecer, trazia na espera da secagem, minutos eternos de silêncio, anunciando a força sobrenatural que viria para tirar dali, com as posições todas marcadas e os dentes cravados, literalmente, a boca para fora. Essa hora, num ato de amor, a palavra “paciente” permanecia viva como nunca. Isso fora todo o resto da história que pude acompanhar. E pensar que o consultório do Doutor Lourenço tinha cadeira de madeira, em estado bruto e nesse essencial carregava no olhar essa mesma delicadeza que vi hoje pela manhã, coisa de gente de verdade. Nessas cadeiras, o futuro chegou. E como será que chegou para o doutor Lourenço que, nas minhas contas, ainda deve estar trabalhando?

Poderia falar sobre o fim da lamparina de fogo, sobre a evolução e o papel da tecnologia na vida comum, sobre casquetes e tubetes, sobre tantas coisas, mas essa consulta tem hora marcada. De volta a imensidão branca, a boca toda na tela do computador, sem força, sem dor, sem nada. Ele me diz que os dentes estão se movendo, mas que o aparelho vai ajudar. Que isso pode incomodar um pouco, nada demais.

O que me dói mesmo é assistir ao tempo que voa nesse futuro que tem pressa. Mas esse aparelho também deve ajudar. São tão modernos. Se bem que acho que nem com elástico vem mais.

Escrito por

Linda Raquel Benitez é uma brasileira campo-grandense. Empresária, e estudante de filosofia, é produtora cultural e design de eventos, há 20 e poucos anos na estrada. Formada em buscar um jeito mais leve de ver a vida, sua especialização é falar sem parar. Desde o ano passado, decidiu escrever e assumir suas crônicas para o mundo.

1 Comentário

1 Comentário

  1. Rodrigo Trentin

    06/09/2019 em 16:10

    Que maravilha de prosa, Lindinha! Solta, suave, leve, própria e sua… e nossa, por que não?
    Sucesso para você e para a coluna.
    Parabéns à Blink102!

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