Conecte com a gente

COLUNISTAS

A alta tecnologia do pão de Santo Antônio

Seu Ary e Dona Maria tomavam chimarrão na casa da Dona Odete quando cheguei. Adoro tomar mate porque me aquieta e, com a boca fechada, meus ouvidos se abrem para esse desfile de pérolas e realismo fantástico dessas histórias maravilhosas.

– Eu? Setenta e seis, ele oitenta e um. Nos conhecemos eu tinha dez, ele quatorze. Todos os dias ficava na porta da minha casa, esperando para irmos à escola. Desgosto do meu irmão, ciumento que era. Aos doze, quando operei da apendicite nem deu tempo de mandar a notícia. Acha que meu irmão avisou? Esses foram os únicos dias dessa vida que fiquei sem ver meu amor.

– Quando a vi pela primeira vez?  Chegou a cavalo no armazém do meu pai. Acredita que ela nem sela usava? Foi à primeira vista. Desde lá vivemos muito apaixonados. O segredo? Tudo o que já foi dito e mais um pouco. Dormir agarradinho, todas as noites é o que fortalece um casal. Ah, tomar banho junto sempre, pode ajudar muito também.

Terminamos a conversa quando pedi para fazer a foto dos dois seguindo para casa, cada um na sua bicicleta. Ela alta, cabelos brancos, dois faróis nos olhos e um sorriso de abrir dimensões. Ele, um lorde. Ainda me contaram que viajaram dezenove horas de ônibus. Precisavam ir para casa. Deixaram para trás um rastro de inspiração.

Mais tarde fui assistir uma palestra sobre inovação, tecnologia, robôs. Uma doutora explicava para gente que a velocidade do mundo era fato. Tínhamos que aprender sobre tecnologias logo para não sermos engolidos, seja lá o que isso quer dizer. Ela apresentou tendências, novas realidades, essas coisas. Disse ainda, para os olhares assustados da plateia, que algumas informações que a humanidade levou mil e quinhentos anos para conhecer, hoje acontece em doze horas. Foi muito bom ter ido. Essa coisa de inteligência artificial só assusta quando não conhecemos a nossa própria inteligência natural. 

No fechar do dia, um desejo de igreja e a tradicional benção dos pães de Santo Antônio.  Missa linda. Cânticos e comunidade reunida tem a força do fogo acima. No final, de mão em mão, a distribuição dessa benção. Adivinha quem fazia a entrega desses pães e que agora usava uma camisa de seda verde, brilhando mais que mil galáxias? A Dona Maria e o seu dia que não tem fim. Eu via pela quina, por baixo da fila, sentada no meu banco. Cada sorriso que dava a cada pão que entregava eram belezas expostas ali, numa satisfação do espírito que nem carece explicar.

Voltei para casa pensando na frase da palestra da doutora: “Para não virar robô, não viva como os robôs”. E se isso quer dizer visitar os amigos em dias cansados, tomar chimarrão em rodas encantadas, viver uma linda história de amor e andar de bicicleta pelas ruas da cidade, Dona Maria já sabia disso tudo muito antes, enquanto entregava aqueles pães e sua altíssima tecnologia de viver a vida no tempo da poesia.

Linda Raquel Benitez é uma brasileira campo-grandense. Empresária, e estudante de filosofia, é produtora cultural e design de eventos, há 20 e poucos anos na estrada. Formada em buscar um jeito mais leve de ver a vida, sua especialização é falar sem parar. Desde o ano passado, decidiu escrever e assumir suas crônicas para o mundo.

2 Comentários

2 Comments

  1. Denise.

    12/10/2019 em 08:58

    Que avanço esse texto de velhos tempos, amei!

  2. Sonia Shimoyama

    13/10/2019 em 14:03

    A beleza em saber escrever está na habilidade em fazer o outro ouvir a emoção que cada palavra carrega.
    Ao ler suas crônicas, me vejo tendo aquelas longas conversas com uma amiga que não teme dizer “sim’ para aquilo que a vida apresenta em seu caminho.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

RECOMENDADOS PARA VOCÊ: