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Certifico e dou fé

Eu achava que  mundo era aquilo que existia depois daquela planta espinhenta, que era o muro da nossa casa. Era tanta certeza que, quando emburrava, conversava com ele. Era tão perto e fácil chegar que isso virou meu segredo e minha proteção: em caso de pane, bastava pular aquela cerca, que nem era tão alta, que a liberdade e calmaria que precisasse estariam ali, para sempre. Ah, mundo, meu amigo imaginário.

Coroa de Cristo
Foto: Linda Benitez

Foi num dia qualquer que vivi minha Revolta do Quintal. Fugi de casa por uma manhã inteira, rumo ao centro desse universo que me era o mercadão municipal.  Descobri que tudo ali ainda era mais misturado entre os japoneses, árabes, gaúchos. Senti que o cheiro de ser criança é misturado com cheiro de erva-mate, de couro, e de fumo de mascar. Vi um papel cinza que se derretia, molhado da alface que saía da bacia. As outras cores variavam na escala do dourado ao marrom e refletiam nos frascos de pimenta avermelhados, sons que eram sussurros de quem compra e vende e, na música do puxar das caixas de madeira, a sinfonia. Fui de porta em porta e aquilo ia, ia, não acabava nunca. Os lugares, pessoas, casas vinham na minha direção e eu seguia, seguia. O medo, que via tudo de longe, trouxe um lugar maior ainda, a rua quatorze de julho. Meu Deus, quanta gente cabe no mundo.

O mosaico universal das palavras usadas pelos povos dali, revelou meus continentes. A Kondorffer Joalheria com seus casais e as promessas de amor, a Torino Sorvetes e suas crianças arrumadinhas com os cabelos penteados de lado. A Relojoaria Oriente com seus já vividos homens nos seus consertos eternos. A Lanchonete Haiti, Frutaria Califórnia, as Casas Buri. Na Roberto Som e na Primorosa Discos, portais desse admirável jeito de descobrir tudo o que é novinho em folha. Não vou nem te contar sobre as escadas rolantes da Riachuelo para evitar saudosismos e também porque quero falar sobre o tempo, o que passa e o que fica parado. 

Conheci outros mundos, muitos mundos. Até o mundo em que se paga quarenta reais por uma certidão qualquer e um carimbo de confirmação e fé, como se fazem nos cartórios. Os poetas também viram vários mundos e eu acredito muito na poesia, mas do que em cartórios até. 

O tempo do relógio me trouxe o aeroporto, outras viagens e tudo cada vez tão maior que daria para andar para sempre. E fui, até onde a saudade deixou, puxando o elástico que traz de volta. E ontem, depois de muitos anos, fui andar na mesma rua. Vi calçadas largas e não vi aqueles fios elétricos, emaranhados. Vi umas árvores que prometem brotar e formar uma alameda encantada.

Ontem, conheci o tempo que transforma e dá uma brecha para o futuro. E hoje, somente hoje, quero dizer que estar ali, nesse breve olhar para trás, me fez conhecer um novo estado do tempo: aquele que não passa. O tempo da certeza de que o lugar onde nasceu minha raiz é onde habita minha alma. E pode acreditar, alma precisa de raiz. 

Confirmo e dou fé, de novo. E dessa vez sem precisar gastar nenhum centavo.

Escrito por

Linda Raquel Benitez é uma brasileira campo-grandense. Empresária, e estudante de filosofia, é produtora cultural e design de eventos, há 20 e poucos anos na estrada. Formada em buscar um jeito mais leve de ver a vida, sua especialização é falar sem parar. Desde o ano passado, decidiu escrever e assumir suas crônicas para o mundo.

2 Comentários

2 Comments

  1. leonor venancio

    29/11/2019 em 12:00

    Eu,lvs,testemunho e dou fe,que essas memorias coloridas sao verdadeiras e tao lindas ,quanto a LVB.proce ,meu carinho e fe

  2. Eristom Gonçalves

    29/11/2019 em 19:57

    Me lembrei da minha infância em Petrópolis .
    Muitas lojas, fábricas, etc… não existem mais.. Da vontade de voltar o tempo e não deixar que sejam mudados com o progresso da humanidade.
    Que saudade!

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