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Formas de crescer

Tenho várias datas de nascimento, além daquela registrada em cartório. A bem da verdade, eu nasci diversas vezes ao longo dos anos –  muitos. De vez em quando tenho a sensação de que, até por volta dos 40 anos, meus olhos e ouvidos estavam tampados.  Por certo eu apenas flanava, flutuava, existia. Os acontecimentos, as tragédias, eram para mim apenas notícias tristes no jornal.  A vida se resumia aos filhos, trabalho e o constante vazio existencial. Sim, faltava alguma coisa, mas eu não tinha a menor ideia do que era.

Chegando aos 50 passei a enxergar flashes de realidade e, finalmente, coloquei os pés no chão. Mas foi mesmo aos 60 que percebi o mundo do qual faço parte, repleto de pessoas, lugares e culturas distintas.  Além do tempo, da experiência e maturidade, devo dizer que desde cedo os filmes, e agora séries, sempre influenciaram minha vida. De certa forma eles são responsáveis pelo meu crescimento e pelos renascimentos. E por pouco não nascia na sala do cinema do meu avô. Mas isto é outra história.

Semana passada tive uma dessas epifanias ao assistir a série “Chernobyl” (HBO). Estupefata diante do horror, fiz as contas do tempo tentando me lembrar onde minha alma estava em 1986. O corpo vagava por aqui, entre vicissitudes, incerteza e, claro, ninharias. A cabeça provavelmente estava ocupada com algumas hecatombes existenciais.

O fato é que a memória, de alguma forma baniu o acontecimento. Não só para mim, mas para milhares de pessoas, inclusive os russos, que minimizaram e esconderam a verdade durante anos. Por eles, e pela maioria dos responsáveis, a tragédia de Chernobyl corria o risco de desaparecer na névoa do passado, da Guerra Fria, ao mesmo tempo em que novas gerações cresciam com seus próprios traumas. Dizem que quanto maior a dor, maior é o esquecimento.

Durante a série “Anos Rebeldes” (série da Globo sobre a Ditadura Militar) produzida nos anos 1990, fiquei estupefata com tudo que aconteceu no País. Logo após o último capítulo liguei para uma amiga e perguntei: onde eu estava quando tudo aquilo acontecia? Estávamos no colégio interno, respondeu-me. Menos mal. Seria mesmo difícil para uma menina de 12 anos, dentro um rígido sistema de confinamento saber de alguma coisa. A situação política, claro, não entrava nos muros da escola.

Depois disto, de tempos em tempos, acontecia outro evento e eu me fazia a mesma pergunta: “onde eu estava? ”. Fosse escrever minha biografia poderia dar o título de “A mulher que se atrasava”. Estou sempre enxergando e chegando na história muito depois. É possível que tenha me faltado mais uns bons anos de universidade ou mais livros.

Mas tem um acontecimento onde, por motivos cronológicos, não poderia estar presente – a Segunda Guerra. Mas a recente série/documentário da Netflix (recomendo veementemente) sobre o tema, me transportou aos horrores da era Hitler. Nem todos os livros que li conseguiram colocar-me minimamente a par da verdade. Nem os inúmeros filmes, que fizeram recortes da tragédia, me tocaram de forma tão atroz, não obstante a emoção sentida ao assistir “O pianista”, ou a “A lista de Schindler”, para citar alguns exemplos mais recentes. E a comparação com o momento presente foi inevitável. As tragédias começam assim, de forma quase inocente e magnânima.

Conversando com a filha de um italiano que viveu a Segunda Guerra, ela contou-me que o pai, uma figura otimista e alegre, dizia que o segredo da vida era saborear cada momento como se fosse o último. E gostar de tudo, apreciar cada filigrana do tempo presente, aceitar as pessoas e as coisas do jeito que elas são. Embora já tenha ouvido a frase várias vezes, naquele momento ela soou diferente, tocou-me profundamente. Foi outra epifania, mais um renascimento. E que venham outros até que, finalmente, eu possa compreender o mundo. Não sem o medo de que a espécie humana volte a repetir os mesmos erros do passado.

Escrito por

Theresa Hilcar é mineira, de Lagoa da Prata e chegou em Campo Grande no início dos anos 1980. Pouco depois iniciou sua carreira jornalista atuando como apresentadora de TV e participou de diversos programas nacionais como convidada. No jornalismo impresso passou pelo Jornal da Cidade, Revista Executivo Plus até chegar ao jornal Correio do Estado (sua melhor escola, como costuma dizer), onde atuava, principalmente. como repórter de cultura. Foi no jornal que se descobriu cronista e passou a publicas suas crônicas todas às terças-feiras, por quase 30 anos. Cursou Letras e Comunicação Social. Tem sete livros publicados e algumas antologias. Aos 61 anos, a jornalista e escritora diz que a coluna da Blink é quase um reinventar-se. Afinal, escrever para um púbico mais jovem será um desafio, confessa. No entanto, espera que seus textos possam conversar com leitores de todas as idades. É cinéfila de carteirinha, apaixonada por literatura se nunca se cansa de viajar. Por países e textos.

1 Comentário

1 Comentário

  1. Maria Adélia

    26/11/2019 em 18:53

    Muito boa, Theresa!! Com relação aos fatos mais recentes, fico me perguntando onde as pessoas estavam, pois que não viram nem perceberam nada!

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