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Nação sem palavras – e sem noção

Thereza Toda Terça

A música, ouvida no rádio do aplicativo, me faz lembrar da frase do escritor mexicano Octávio Paz: “A palavra é o próprio homem. Somos feitos de palavras. Elas são nossa única realidade ou, pelo menos, o único testemunho de nossa realidade”. A julgar pela letra – absolutamente esdrúxula – da canção que ouço, não sem um certo espanto, devo pensar que nossa realidade nunca esteve tão periclitante quanto nesses últimos anos.

Outro dia alguém comentou que o brasileiro, via de regra, gosta de falar errado, acha bonito demonstrar o menosprezo pelo idioma. E ainda cultiva, com orgulho, seu arsenal de palavras chulas que ele distribui ao bem prazer sempre que julga necessário. Geralmente quando quer se impor (sic) ou bancar o engraçadinho. Nas duas situações o resultado é desastroso, sob meu ponto de vista, é claro. Há quem goste.

Aprendi na infância que o uso do palavrão não é bem-vindo, sob nenhuma circunstância. E devo acrescentar: nunca me fez falta. Lembro que minha avó falava de um jeito que me incomodava, com palavras e frases que pareciam erradas, toscas. Só mais tarde, depois de ler (à força, diga-se de passagem) a obra de Guimarães Rosa, percebi que o texto do escritor mineiro, influenciado pela linguagem popular e carregado de neologismo, em boa parte, se assemelhava às palavras de dona Maria.

O linguajar simples à moda caipira, digamos assim, aquele que até hoje se fala no interior de Minas, não me incomoda mais. A bem da verdade, de vez em quando gosto de ouvir aquele jeito mineiro de colocar as palavras no diminutivo – golim, minutim, facim. Acho gracim demais da conta. E adoro os vídeos da Concessa no youtube! Mas as palavras usadas de forma grosseira, frases recheadas de adjetivos jocosos, palavrões e impropérios ditos – e cantados – a todo momento, me deixam num estado de torpor absoluto. Ou como atualmente gostam de dizer “com vergonha alheia”.

Tudo isto sem mencionar a referência aos órgãos genitais, ao processo do sistema excretor e até as intimidades sexuais, que se tornou rotina. E pior, estão sendo disseminados em todas as redes sociais. Ou seja, estão ao alcance de qualquer criança, ainda no início da formação. Quando ouço alguém falando algo desta natureza, me vem uma vontade de enorme de perguntar se a boca não fica suja, como diziam nossos pais.

E não é apenas o homem comum, as pessoas da periferia, ou determinados nichos específicos que fazem uso deste desserviço à língua portuguesa. Ultimamente os políticos, aqueles que – infelizmente – nos representam, virara useiros e vezeiros da palavra chula, para não dizer pornográfica. Seja em posts, lives, entrevistas e discursos em plenário.  Substituíram o “falar grosso” pelo “falar chulo”. Liberaram geral. A bagunça é generalizada. E o respeito à palavra e ao eleitor/telespectador, literalmente foi para as cucuias. Quem quer ser educado, afinal?

A situação me faz lembrar de outra frase, emblemática, do mesmo Octávio Paz que diz: “Quando uma situação se corrompe, a gangrena começa pela linguagem”. Deve ser por isto que imagino as palavras escorrendo dessas bocas como sangue. Não é somente a língua portuguesa que está em perigo. A nação também está.

Escrito por

Theresa Hilcar é mineira, de Lagoa da Prata e chegou em Campo Grande no início dos anos 1980. Pouco depois iniciou sua carreira jornalista atuando como apresentadora de TV e participou de diversos programas nacionais como convidada. No jornalismo impresso passou pelo Jornal da Cidade, Revista Executivo Plus até chegar ao jornal Correio do Estado (sua melhor escola, como costuma dizer), onde atuava, principalmente. como repórter de cultura. Foi no jornal que se descobriu cronista e passou a publicas suas crônicas todas às terças-feiras, por quase 30 anos. Cursou Letras e Comunicação Social. Tem sete livros publicados e algumas antologias. Aos 61 anos, a jornalista e escritora diz que a coluna da Blink é quase um reinventar-se. Afinal, escrever para um púbico mais jovem será um desafio, confessa. No entanto, espera que seus textos possam conversar com leitores de todas as idades. É cinéfila de carteirinha, apaixonada por literatura se nunca se cansa de viajar. Por países e textos.

1 Comentário

1 Comentário

  1. Adriana Farnesi

    05/11/2019 em 22:14

    Obrigada Theresa pela sensacional crônica! Linguagem e Nação doentes. O meu sentimento, infelizmente, é o mesmo.

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