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Por favor, pare agora

A cena nos deixou desconcertados. Voltávamos de uma pauta quando vimos o desenrolar dos acontecimentos à nossa frente. Foi bem na esquina na rua Bahia, lá pelos altos do bairro São Francisco que aconteceu o fato, bastante inusitado para dizer o mínimo. O ônibus circular encostou na rua movimentada, desceu com um cadeirante e o levou para atravessar não uma, mas duas faixas de pedestre. Imagino que grande figura humana deve ser este motorista.

A bem da verdade, ele destoa totalmente do cenário cotidiano no trânsito da cidade. Quase todos os dias ouço as reclamações, as mais diversas, dos motoristas de aplicativo. A indelicadeza é matéria presente no dia a dia desses profissionais. Como pedestre, há tempos enfrento esta selva de rodas repleta de condutores velozes e furiosos. E para eles somos quase invisíveis. Quando muito, incômodos. Sim, já ouvi muita gente dizendo que pedestre só atrapalha.

Minha sugestão para todos que, volta e meia reclamam dos pedestres, ou não o reconhecem como integrantes da cidade e das ruas que, por favor, façam uma experiência: deixem de lado seus carros confortáveis, com ar condicionado, bluetooth, air bag, musiquinha da hora, e caminhem ao menos um dia, pelas ruas de Campo Grande. Andem pelas avenidas do centro, atravessem as ruas dos bairros – durante à noite de preferência. E tentem atravessar na faixa de pedestre com segurança. Com sorte talvez percebam que sim, as famigeradas faixas de pedestres, colocadas bem na esquina, são nosso maior pesadelo. É por isto que, nós, pedestres, fugimos da armadilha sempre que possível.

Outro dia um sujeito parou para que eu atravessasse um cruzamento. Um acontecimento, pode se dizer. Mas nem bem chego ao outro lado da pista, pisando nas letras garrafais do PARE, ele coloca a cara para fora do carro e grita a plenos pulmões: obrigada, viu? Pois é, ele esperava que eu agradecesse sua imensa gentileza se esquecendo que parar, além de ser obrigatório é um ato de civilidade. Normalmente eu até faço um sinal de ok. Mas naquele final de tarde, depois de mais de 8 horas de trabalho, eu só queria atravessar a rua em segurança. Posso, moço?

Por isto a cena lá do início da crônica nos deixou aparvalhados. Demorou alguns segundos até que recobrássemos a respiração, a consciência e a voz. Mal comentamos o que acabávamos de presenciar. Talvez para não estragar o momento, preferimos falar o mínimo possível naquela hora. No trânsito de Campo Grande aquilo significava uma atitude de heroísmo. Corajosa. Extremamente solidária. Com certeza estava ali um homem bem-educado. Um motorista de ônibus que encosta o veículo para atravessar um cadeirante merece registro e aplausos.

E não. Não fizemos fotos nem vídeos, embora um dos colegas portasse um potente equipamento fotográfico. Espalhar aquele gesto pelas redes sociais da vida iria estraga-lo, diminuí-lo, deixa-lo na vala comum dos que adoram se sentir importantes, nem que seja apenas por um dia. Aquela era uma cena para se guardar no fundo do peito. Para lembrar naqueles dias insuportáveis quando acreditamos não existir salvação para o trânsito, nem para as pessoas que vagam pelas ruas com rostos duros, mentes ocupadas e sem o menor sinal de compaixão. Preste atenção, lá vai mais um atravessando a faixa, o sinal e o tempo.

Escrito por

Theresa Hilcar é mineira, de Lagoa da Prata e chegou em Campo Grande no início dos anos 1980. Pouco depois iniciou sua carreira jornalista atuando como apresentadora de TV e participou de diversos programas nacionais como convidada. No jornalismo impresso passou pelo Jornal da Cidade, Revista Executivo Plus até chegar ao jornal Correio do Estado (sua melhor escola, como costuma dizer), onde atuava, principalmente. como repórter de cultura. Foi no jornal que se descobriu cronista e passou a publicas suas crônicas todas às terças-feiras, por quase 30 anos. Cursou Letras e Comunicação Social. Tem sete livros publicados e algumas antologias. Aos 61 anos, a jornalista e escritora diz que a coluna da Blink é quase um reinventar-se. Afinal, escrever para um púbico mais jovem será um desafio, confessa. No entanto, espera que seus textos possam conversar com leitores de todas as idades. É cinéfila de carteirinha, apaixonada por literatura se nunca se cansa de viajar. Por países e textos.

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