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Senhoras e Senhores

Setembro acabou e quase acabou comigo. Três vezes despedidas de amigos, três vezes pensando e repensando o sentido das coisas. Amanhecendo com as frases prontas que batem no peito e fazem me reiniciar a cada manhã tipo “A vida é filme e no final a gente morre” e a fantástica visão da vida como uma viagem, surgiu esse desejo de escrever sobre  a presença nas coisas e impedir que a ausência meroube o texto trazendo tristezas, quero te contar uma linda história publicada ano passado, sobre ser estrangeiro e ser conterrâneo. É uma história de pertencer à vida de um lugar. Achei sensato para esses dias.

Ano passado fui trabalhar na Argentina e, tipo Linda, cheguei sem informação nenhuma. Lugares, transportes, por onde começar, nada. De quebra, já no aeroporto, lembrei q não sabia falar espanhol. O bom de ser produtora é que os idiomas surgem do nada e do nosso jeito. Na primeira tentativa de ajuda, encontrei Raul. De boina preta e sorriso argentino, disse que era taxista e me levaria onde eu precisasse (só o hotel estava a 100 km dali, vai vendo).

Partimos num papo maravilhoso, no meu espanhol semi-maravilhoso. Raul me deu aula de história, de paisagismo e de plantações de pêssego e nozes. Me levou para beber água na fonte de Santa Lourdes e ainda um Malbec no portal de seres intraterrenos. Muita vida coube nesses dois dias. Eu e Raul como? Irmãos.

De volta para o Brasil e sem muita poesia, não saber falar espanhol e estar longe do Raul fez o cansaço dobrar de tamanho. As quatro horas de espera, mais duas de atraso em São Paulo é igual a perda da conexão para Campo Grande. Hora de usar a paciência. Na manhã seguinte, com muito sono da noite virada e a bordo para voltar para casa, o comandante anunciou um novo atraso da forma mais fofa que já vi acontecer na aviação brasileira. “Todos nós, dessa tripulação, somos sul-mato-grossenses e por esse motivo, sabemos bem o poder da espera, afinal, no Pantanal é essa espera que rege a nossa orquestra”. Esse comandante poeta foi um abraço no meu cansaço. 

Super me sentindo em casa, no bate papo de corredor, íntima das comissárias, falamos sobre qualidade de vida, do interior do Brasil, do sobá e de outras coisas. Mais um pouquinho talvez faríamos uma sopa paraguaia ali mesmo.Me deram café, sorrisos e muito carinho. Meu Guimarães Rosa em forma de piloto não informou e sim declamou que o pouso estaria próximo, anunciando que os antigos fronteiriços quando atravessam a fronteira para Mato Grosso do Sul dizem” lhegué em mi tierra”. Senhoras e Senhores, benvindos a Mato Grosso do Sul. Pouso autorizado.  Quase explodi de orgulho de chegar.

O idioma do coração é muito fácil de aprender. E é assim que desejo seguir vivendo até a próxima parada. 

Linda Raquel Benitez é uma brasileira campo-grandense. Empresária, e estudante de filosofia, é produtora cultural e design de eventos, há 20 e poucos anos na estrada. Formada em buscar um jeito mais leve de ver a vida, sua especialização é falar sem parar. Desde o ano passado, decidiu escrever e assumir suas crônicas para o mundo.

3 Comentários

3 Comments

  1. Douglas Liokalos

    04/10/2019 em 13:55

    Bien Venidos a mi tierra querida!

  2. teamo

    04/10/2019 em 19:41

    teamo

  3. Guilheme

    05/10/2019 em 07:47

    Capivarinha assumida😀

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