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Somos todos sabiás do campo

A primeira experiência foi na porta de uma livraria. Fui pega totalmente desprevenida quando o passarinho – uma sabiá do campo, segundo me disseram – fez um voo rasante em minha direção e bicou a minha cabeça. Fiquei então sabendo que um casal de passarinhos fez um ninho na árvore próxima à entrada, e desde então vem atacando as pessoas que entram no local. Tudo pelos filhotes, confortavelmente instalados e, claro, protegidos pelos pais zelosos. Mesmo entendendo o gesto, medrosa que sou, preferi sair pela porta lateral, temendo novo ataque. Duas semanas depois, na calçada da Rua Cândido Mariano, bem na esquina da Padre João Crippa, eis que novamente me aparece outro passarinho que, tão bravo pela intromissão no seu espaço, bica várias vezes minha cabeça. Em vão tento espantar o pássaro que voa e volta em seguida, fazendo a mesma coisa.

O ninho desta vez era no poste de eletricidade. Local sem o menor atrativo, bem diferente da árvore em frente à livraria. Duas mulheres que trabalham ali perto presenciaram a cena e me disseram que isso ocorre frequentemente. Não sei se escolhem a vítima ao acaso, ou se percebem o medroso de plantão ou uma possível ameaça. Por mais bonitinhos que sejam, fico tensa ao me imaginar numa cena do filme de Alfred Hitchcock, “Os Pássaros”, sucesso dos anos 1960.

Só para relembrar o plot de “Os Pássaros”: Melanie (Tippi Hedren), uma socialite de São Francisco, vai até uma pequena cidade litorânea, Bodega Bay, para entregar um presente (uma gaiola com um casal de lovebirds) para Mitch (Rod Taylor), por quem está interessada. Deposita o presente secretamente na casa da mãe de Mitch, Lydia (Jessica Tandy). Melanie cria um triângulo tenso de relações entre ela, Mitch e Lydia, momento em que inexplicavelmente todas as espécies de pássaros começam a atacar a população com uma violência crescente.

Embora o diretor tenha negado qualquer intenção ou aspecto psicológico no filme, não faltaram interpretações de toda a espécie. Hitchcock negou tudo com veemência. Era apenas mais um filme. De suspense, claro!

Diferente do filme, a explicação para o comportamento dos sabiás em Campo Grande, conforme li na imprensa, é o desmatamento que vem provocando a migração das espécies para a cidade. E esta é justamente a época da reprodução. Para eles, somos os intrusos, a ameaça ao lar recém-construído, à segurança dos filhos.

Não obstante o susto e o desconforto das bicadas na cabeça, confesso que entendo perfeitamente o comportamento dessas aves. Elas estão num lugar estranho, totalmente diferente do seu habitat e tentam proteger suas crias de qualquer ameaça. Que mãe ou pai não faria isso? Todos nós, em maior ou menor medida, somos um pouco passarinhos em algumas ocasiões. Principalmente quando vivemos em tempos tão estranhos, em que os valores mudam todos os dias e a ilusão de autossuficiência é supervalorizada. Tempos em que os olhares não vão além do próprio umbigo e, na falta de palavra melhor, a crença é: preciso ser bem-sucedido, não importa o preço a pagar. Tempos ameaçadores, inseguros, com certeza. Os pássaros, criaturas inocentes e irracionais, se viram como podem para não deixar seus filhotes à deriva, à mercê de um possível predador. Mas o ser humano ainda vai levar muitas bicadas para aprender a arte do amor e da generosidade. Tomara que não precise de uma revoada à moda Hitchcock.

Escrito por

Theresa Hilcar é mineira, de Lagoa da Prata e chegou em Campo Grande no início dos anos 1980. Pouco depois iniciou sua carreira jornalista atuando como apresentadora de TV e participou de diversos programas nacionais como convidada. No jornalismo impresso passou pelo Jornal da Cidade, Revista Executivo Plus até chegar ao jornal Correio do Estado (sua melhor escola, como costuma dizer), onde atuava, principalmente. como repórter de cultura. Foi no jornal que se descobriu cronista e passou a publicas suas crônicas todas às terças-feiras, por quase 30 anos. Cursou Letras e Comunicação Social. Tem sete livros publicados e algumas antologias. Aos 61 anos, a jornalista e escritora diz que a coluna da Blink é quase um reinventar-se. Afinal, escrever para um púbico mais jovem será um desafio, confessa. No entanto, espera que seus textos possam conversar com leitores de todas as idades. É cinéfila de carteirinha, apaixonada por literatura se nunca se cansa de viajar. Por países e textos.

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