Conecte com a gente

COLUNISTAS

Uma carta de papel

Tenho a minha frente três folhas de papel ofício escrita à mão. É uma carta, caros leitores. Veio num envelope pardo, com registro e selo dos Correios. É quase uma volta ao tempo. Que aliás, sem saudosismo, era bom demais. Esperar e receber uma carta, trazia uma emoção e um prazer indescritíveis. Me lembro de uma vez que, para aumentar ainda mais minha ansiedade, o namorado enviou um envelope todo grampeado. Tive que tirar um por um os inúmeros grampos, e com o maior cuidado para não estragar o conteúdo. Que vinha escrito em folhas delicadas em papel seda.

Vai tão longe este tempo que mal acreditei quando o amigo, do qual não tinha notícias há tempos, usou a tecnologia para perguntar meu endereço. O digital, né? – perguntei. Não, ele disse enfaticamente. Quero o endereço real com CEP e tudo, respondeu. Meio desconfiada, como toda boa mineira, ainda pensei tratar-se de alguma brincadeira. Só acreditei mesmo quando peguei nas mãos o envelope, que além do endereço continha a inscrição – Terra de Santa Cruz, tal como Pero Vaz de Caminha denominou o Brasil em carta enviada à Portugal.

Ufa! Leitores do século 21 terão que consultar o Google para confirmar as informações. Crônica é pura cultura, meus caros. Aliás, meu amigo escriba, além de culto é um especialista em reinventar-se. Jornalista de mão cheia, escrita afiada e ouvidos mais ainda, diz que hoje escreve apenas por prazer em um ou outro veículo. “Ninguém mais lê nada, no geral”, escreveu.

Segundo ele a profissão de jornalista desceu o ralo. Graças à novas tecnologias, toda e qualquer pessoa que tenha um celular na mão detêm informação. E vai mais fundo dizendo que as pessoas, atualmente, não se interessam mais por conteúdos, pois lhes bastam o superficial, o sucinto, o líquido, como no conceito do escritor Zygmunt Bauman das “modernidades líquidas”. Meu amigo, que tem uma biblioteca com oito mil livros diz que a leitura é o maior ato de doação do ser humano. Por isto prefere ler a escrever.

E continua por aí, descrevendo seu dia a dia com olhos no futuro próximo, a temporada de sol que pretende fazer em Trancoso, depois Gotemburgo (Suécia) e de volta a Minas, numa fazenda no interior onde, imagino, vai curtir seu merecido descanso. Enquanto isto não acontece ele continua jornalistando e aprendendo novos ofícios com aulas de desenho em crayon. E ainda me manda de presente uma xilogravura que vou mandar colocar na moldura assim que tiver um tempinho.

Porque, ao contrário do eficiente e multifacetado amigo, não consigo usar o tempo para fazer várias coisas. E morro de preguiça de ir aos Correios por conta das filas imensas para pagar contas – e ninguém para enviar cartas. Por isto achei melhor dedicar-lhe estas linhas e, a bem da verdade, por ter perdido completamente o jeito para escrever cartas. Mais fácil uma matéria ou uma crônica. Até porque, e com o perdão da metáfora, a carta iria chegar amarfanhada das águas que, com certeza, iriam cair no papel –  mesmo não sendo de seda.

Eu também choro, meu querido. E como você, choro por qualquer manifestação externa principalmente de carinho. Sua carta, aliás, foi muito mais que uma volta ao tempo. É a certeza de que ainda existe vida inteligente e amigos que cultivam o valioso sentimento da gratidão porque sem ela não há qualquer sentido na vida. Por isto vou segurar as águas e dizer apenas: obrigada Marcinho.

A seguir:

Calada

Não perca:

Certifico e dou fé

Escrito por

Theresa Hilcar é mineira, de Lagoa da Prata e chegou em Campo Grande no início dos anos 1980. Pouco depois iniciou sua carreira jornalista atuando como apresentadora de TV e participou de diversos programas nacionais como convidada. No jornalismo impresso passou pelo Jornal da Cidade, Revista Executivo Plus até chegar ao jornal Correio do Estado (sua melhor escola, como costuma dizer), onde atuava, principalmente. como repórter de cultura. Foi no jornal que se descobriu cronista e passou a publicas suas crônicas todas às terças-feiras, por quase 30 anos. Cursou Letras e Comunicação Social. Tem sete livros publicados e algumas antologias. Aos 61 anos, a jornalista e escritora diz que a coluna da Blink é quase um reinventar-se. Afinal, escrever para um púbico mais jovem será um desafio, confessa. No entanto, espera que seus textos possam conversar com leitores de todas as idades. É cinéfila de carteirinha, apaixonada por literatura se nunca se cansa de viajar. Por países e textos.

1 Comentário

1 Comentário

  1. Adriana Farnesi

    03/12/2019 em 14:21

    Acredito que há um grave erro aí. Por certo, essa bela crônica não foi escrita “Por Thayssa Maluff”, mas sim por Theresa Hilcar. Sou leitora assídua dela e conheço bem o seu estilo literário.
    É necessário que se faça a devida retificação. Aguardo esclarecimentos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

RECOMENDADOS PARA VOCÊ:

Calada

COLUNISTAS

Uva passa na ceia de natal !

AO VIVAÇO

PODCAST: Cuidado com a automedicação!

CAFÉ COM BLINK

Os países mais gentis do mundo

BOAS NOTÍCIAS