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Velhinhos e invisíveis

Um dia ele me disse, assim como quem não quer nada, que o motivo de ser deixado de lado é o fato de não falar inglês.  Achei graça na observação, mas penso que este não é o caso. Às vezes se conversa sim, na língua inglesa. Mas é pano de fundo apenas. Com exceção de uma ou duas pessoas, todos que estão na sala são monoglotas. Sabem uma expressão ou outra, meia dúzia de palavras quando muito.

 Mas já que estávamos no terreno das conjecturas, resolvi contribuir. O motivo são os sessenta, disparei. Meu amigo me olhou longamente, tentou aprumar o corpo e depois de alguns segundos concordou: é, pode ser isto mesmo. A sala na qual passamos boa parte do nosso dia é repleta de gente jovem. Nós dois, eu e meu amigo, somos do século passado. Os únicos que passaram a faixa que nos denomina de terceira idade. Somo velhos, melhor dizendo.

Num espaço 60 metros quadrados e muitas janelas, as conversas são sempre direcionadas a temas frugais, digamos assim. O que não gira em torno do trabalho vai para o balaio das inutilidades. Ou melhor, para um universo paralelo, é o capítulo da novela, a frase de uma celebridade, o lanche do dia e, claro, as gossips, para não dizer que eu não sei falar uma ou outra frase descolada.

Por isto, na maioria das vezes, nós os velhinhos, ficamos de boca fechada. Não por falta de assunto – pois histórias temos de sobra -, mas por absoluta falta de interesse dos outros. A bem da verdade, devo dizer que eles não nos escutam. E nem se esforçam para. Quando se faz estritamente necessário ser ouvida, tenho que me levantar da cadeira e ir ao encontro do meu interlocutor. Só assim. Às vezes, mas não raro, sou interrompida no meio da frase. É como se batesse um cansaço na pessoa que ouve. E isto, não obstante meus esforços, digamos assim, para falar coisas inteligentes ou agradáveis.

Sim, é preciso muito esforço. Porque, ao que tudo indica, os interesses, as opiniões, minha e do meu amigo, não interessam absolutamente a ninguém num raio de cinco ou seis metros. Vá lá, nem no corredor. Somos aqueles animais pré-históricos. Como é que se chama mesmo? Pois é, a memória também é um fator delicado e preponderante. Ninguém aqui tem paciência de esperar que nosso tico e teco façam seu trabalho.

Lembrei. Somos dinossauros, inclusive em nosso ofício. Embora, cá para nós, acho que a experiência neste ramo faz toda diferença. Assim como ler vários livros, gostar de museus, distinguir uma obra de arte, ou um bom filme; ou ainda ter um paladar, digamos, mais refinado até na hora do snack – olha eu de novo no inglês. É como me disse certa vez a sábia jornalista, Monica Waldvoguel: “A gente não pode deixar barato nossos anos de estrada, né? ”.

Só que isto não funciona por aqui. A juventude com todo seu frescor e impunidade (sim, eles podem fazer tudo), é quem comanda as hostes (sic!), quem recebe atenção e méritos, quem se sobressai. Portanto, não é o inglês que faz nossa segregação social. É o som da nossa voz, nosso corpo flácido, nossas diferenças de temperatura e de humor, nosso silêncio, nossas vicissitudes, nossa relação intrínseca com a história. Essas coisas poucas.

Talvez o que nos separa mesmo seja o fato de intuírem que, com alguma dose de sorte, serão eles a ocupar nossos lugares daqui a algum tempo. Afinal, todo Narciso acha feio o que não é espelho. Quem disse isto foi um “velhinho” muito talentoso chamado Caetano Veloso.

Escrito por

Theresa Hilcar é mineira, de Lagoa da Prata e chegou em Campo Grande no início dos anos 1980. Pouco depois iniciou sua carreira jornalista atuando como apresentadora de TV e participou de diversos programas nacionais como convidada. No jornalismo impresso passou pelo Jornal da Cidade, Revista Executivo Plus até chegar ao jornal Correio do Estado (sua melhor escola, como costuma dizer), onde atuava, principalmente. como repórter de cultura. Foi no jornal que se descobriu cronista e passou a publicas suas crônicas todas às terças-feiras, por quase 30 anos. Cursou Letras e Comunicação Social. Tem sete livros publicados e algumas antologias. Aos 61 anos, a jornalista e escritora diz que a coluna da Blink é quase um reinventar-se. Afinal, escrever para um púbico mais jovem será um desafio, confessa. No entanto, espera que seus textos possam conversar com leitores de todas as idades. É cinéfila de carteirinha, apaixonada por literatura se nunca se cansa de viajar. Por países e textos.

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