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COLUNISTAS

O ar que mora na arte

Ou o mundo é lindo, ou sou doida mesmo. A beleza anda explodindo na minha cara de uma forma tão intensa que ontem cheguei a pensar na sanidade e nas suas verdades ocultas. Comecei a perceber quando setembro partiu, levando consigo alguns números meus. Três amigos sumiram dessa vida para a saudade que será continuada e para sempre. Foram quatro viagens para os rituais dessas despedidas. Horas de presença numa única pergunta sobre o para quê seguir. A resposta, deslizando no minuto de silêncio da simplicidade: Aceitar a ideia de ficar aqui, seguir nessa festa por mais tempo. Então, já que é assim que a banda toca, que seja nobre. Que seja forte.

Outubro encerra meu ciclo de cinquenta anos vividos, aumentando o passado e anunciando um futuro que começa dia trinta agora. Desse intervalo de dias, decidi soltar as rédeas e só seguir. Sabe o que aconteceu? Tudo. Vou te dar alguns exemplos. Caminhando no shopping, espalhados pelos corredores, eu vi mais de dez anjos. Talvez jovens participando de um concurso de fantasias, não importa. Fato é que estavam lá, desfilando para mim. Outra tarde, éramos quatro num barzinho qualquer, quando um senhor chegou trazendo uma cesta de flores vermelhas, deu para cada uma de nós, pediu que fizéssemos uma fotografia, recolheu as flores e partiu, sumindo das nossas vistas.  Ontem mesmo, um beija flor insistia em dançar. Quando olhei, voou. Senti que era mim. Mais tarde, já na hora de sair de casa, derrubei todas as torradas no chão, perto da pia, toda atrapalhada. Sentia uma pressa que não entendia muito bem.  Era um desejo louco de correr para a luz dourada que invadia o apartamento adentro, convidando para o sol mais lindo e gigante que meus olhos já viram, entre os carros, ali, no meio daquela avenida. 

Em menos de vinte e quatro horas, a vida arte parecia ser um museu aberto, ora de Bosch, ora de Van Gogh, ora de Botero. Tim Burton ou Mad Max, tanto faz. Tudo ali, na minha frente.

Decerto que magia venha do verbo imaginar. Dessas coisas das origens das palavras sei muito pouco. Só sei saber que perder me fez ganhar e não estou nenhum pouco disposta a meter o dedo na vida porque é assim que vou seguir, acolhendo e colecionando belezuras. Deixar os olhos livres para ver e a pele lisa para arrepiar. Talvez nem buscar esses caminhos para não atrapalhar. Simplesmente ouvir uma música, fazer um café e deixar. Respirar e ir além. E quando aqui a festa ficar chata, vou saber a hora de renovar o meu batom. 

Wojciech Siudmak é considerado o principal representante do realismo de fantasia, casando com uma visão super-realista e arte naturalista. Ele está enraizado no surrealismo representado por S. Dali e R. Magritte.

1 Comentário

1 Comentário

  1. Janete

    25 — 10 em 2.54

    Uma reflexão linda e leve.
    Como sempre!
    “Simplesmente ouvir uma música, fazer um café e deixar”.
    Com a maturidade, apenas as coisas simples da vida, valem a pena.

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