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O bom também pode ser ruim

Quantas senhas – de números e letras – alguém é capaz de guardar na memória? Bom, deixe-me refazer a pergunta: quantas senhas uma pessoa normal, em pleno domínio de suas faculdades mentais (talvez nem tanto, rs), atuante, mas que por uma dessas falsetas do destino, não tem mais a mesma idade que o meu leitor, por exemplo. E, por favor, não faça cara de tédio porque, com sorte, você também chega lá! 

A pergunta pode parecer simples, mas ninguém conseguiu me responder ainda. Alguns desconversam. Outro tem truques que não vou revelar, por questão de segurança. Vejam só a quantidade de senhas que preciso saber de cor e salteado: do portão eletrônico do prédio, do celular, do banco, do cartão de crédito, computador, internet, Netflix, Google, e-mail, do wi-fi de casa, do site de notícias, e devo ter mais duas ou três que agora não me lembro. Algumas têm quatro números, outras seis e ainda existem aquelas que são compostas por números e letras. E tem a que começa com letra maiúscula. Haja ginkgo biloba!

Outro dia um jovem colega se dispôs, gentilmente, a me ensinar uma forma nova de enviar fotos pelo aplicativo do whatsup. Eu agradeci muito, mas meu HD está lotado, disse a ele. Porque convenhamos, é muita coisa para quem, como eu, nasceu no tempo do telefone de teclado e da chamada interurbana (pra quem não sabe o que é isto, um dia eu explico). Agora mesmo estou com sério problema: mandei meu computador para dar uma repaginada e agora que ele voltou, não consigo fazê-lo funcionar. São tantos fios que tenho receio de me enrolar em todos eles.

Às vezes sou forçada a concordar com meu conterrâneo, mineirinho de Lagoa da Prata, que sempre diz: esse negócio de tecnologia é bom mas é ruim, né? Dia desses aceitei carona da colega que me deixou no meio do caminho, entre o trabalho e minha casa. Num supermercado, para ser mais precisa. Quando coloquei a mão na bolsa para chamar o aplicativo, cadê o celular? Ficou no trabalho. E agora? Procura um táxi e não acho. Penso em ligar para alguém, mas não sei mais o número do telefone (antes eu sabia todos de cor), porque a agenda fica no celular. Por alguns minutos andei atônita pelo estacionamento pensando numa solução. Resolvi abordar um sujeito, com cara simpática, e pedi para que ele fizesse a gentileza de chamar o aplicativo, porque eu tinha deixado o telefone no trabalho, etc. e tal. A resposta? Não.

Como não? A minha mulher outro dia fez isto e a pessoa não pagou a corrida. Sabe como é, tá cheio de gente mau caráter e bandido por aí. Bom, além de recusar o pedido ele ainda insinuou que eu poderia ser uma coisa assim. Nessa hora senti saudade dos orelhões. E da agenda de papel. Ah! Procurei sim por um orelhão, mas não encontrei. Sei lá, imaginei pedir auxílio à lista. Será que existe isto ainda? Diante de tamanho infortúnio resolvi que iria caminhando até em casa. Era uma noite fresca e estou acostumada a andar a pé. Antes de bater em retirada, resolvi abordar outra alma que parecia esperar um táxi. Contei minha história. E Deus estava lá. Ele não apenas chamou o aplicativo, como ficou acompanhando a chegada pelo celular.

O certo é que viramos reféns da tecnologia. Sem ela estamos à deriva, literalmente a pé. Não entramos em casa, não acessamos internet, Netflix e toda aquela lista de coisas que eu já disse. Sou obrigada, portanto, a concordar com meu conterrâneo: a tecnologia é boa, mas é ruim. Experimente sair (sem carro, claro!) e esquecer o celular. Ops, jovem não esquece celular nem anda a pé. Foi mal aí, heim?

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Escrito por

Theresa Hilcar é mineira, de Lagoa da Prata e chegou em Campo Grande no início dos anos 1980. Pouco depois iniciou sua carreira jornalista atuando como apresentadora de TV e participou de diversos programas nacionais como convidada. No jornalismo impresso passou pelo Jornal da Cidade, Revista Executivo Plus até chegar ao jornal Correio do Estado (sua melhor escola, como costuma dizer), onde atuava, principalmente. como repórter de cultura. Foi no jornal que se descobriu cronista e passou a publicas suas crônicas todas às terças-feiras, por quase 30 anos. Cursou Letras e Comunicação Social. Tem sete livros publicados e algumas antologias. Aos 61 anos, a jornalista e escritora diz que a coluna da Blink é quase um reinventar-se. Afinal, escrever para um púbico mais jovem será um desafio, confessa. No entanto, espera que seus textos possam conversar com leitores de todas as idades. É cinéfila de carteirinha, apaixonada por literatura se nunca se cansa de viajar. Por países e textos.

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