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O dia que o dia me viu amanhecer

Tinha alguma coisa fazendo algazarra, sem permissão, no meu centro de controle. Um milhão e meio de pensamentos ao mesmo tempo, o corpo indo para um lado a alma para o outro. Com tudo lascado e uma preguiça universal de tentar imaginar o quê, passei a semana no modo robô. Até hoje de manhã, quando a beleza me roubou e me chamou para ver o dia nascer.

Da madrugada mal dormida, levantei muito cedinho, quando o dia ainda era noite, me entreguei para as luzes que entravam mansas e deslizavam nas escalas de vermelho, roxo, laranja e amarelo do céu de outono. Na grandeza de um silêncio cúmplice, senti até vergonha de estar ali, no estado mais puro da natureza das coisas. Mas não estava por acaso.

Foi um minuto de respirada para perceber a desordem: tinha ideia pequena misturada com ideia grande, restos de raciocínio enrolados num pedacinho de opinião esquecida no tempo, fragmentos de reflexões que passavam lá longe, no mundo das ideias. Foi respirar três vezes e o alinhamento fez ver o caos, totalmente diferente da ordem celestial do dia que chegava.

Como aprendi arrumação no programa de televisão, decidi acabar com a bagunça. Separei e fui dobrando esses pensamentos por cor, tamanho e precisão, sentindo um por um, colocando em bacias: verde para o que é lixo, amarelo para os que ainda tem jeito e azul para os que estão perfeitos harmonizados entre si.

As verdes encheram muito, muito rápido e deixaram muito espaço vazio. As amarelos foram suficientes para sentir que tem muita coisa para lavar e costurar. As azuis, só de serem vistos, acenderam mais azuis, se espalhando por todas as vias, ampliando a sensação maravilhosa que é ter poder de escolher o que é bom e o que é ruim, o que seguir levando e o que fica pelo caminho. Simples como deve ser.

Esse tempo parecia ter durado uma eternidade mas foi um cisco de segundo até o céu virar uma aquarela amarela com o brilho de um sol intenso que trazia para mim o anúncio de um dia novinho para viver aquela sensação da casa com cheirinho de limpeza.

Bem melhor assim.

Escrito por

Linda Raquel Benitez é uma brasileira campo-grandense. Empresária, e estudante de filosofia, é produtora cultural e design de eventos, há 20 e poucos anos na estrada. Formada em buscar um jeito mais leve de ver a vida, sua especialização é falar sem parar. Desde o ano passado, decidiu escrever e assumir suas crônicas para o mundo.

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