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O fruto não cai longe do pé

Já escutei algumas vezes que, nas histórias que conto, não dá para confiar. Dizem que troco nomes, mudo datas e invento coisas.  Ouvi isso de várias maneiras, seja na amizade ou levando bronca mesmo, sem cerimônias.  Passei a prestar atenção no porquê disso e sabe o que descobri? Que isso não importa. Olhar uma cena de dentro pode ser diferente do olhar de fora. Então, contarei essa história pelo lado de dentro.

Domingo passado recebi um casal de amigos e passamos a tarde conversando. Nem sei porque cargas d’água comecei a contar algumas lembranças de infância, das profissões do meu pai e das coisas que aprendi com isso.

Ele foi recruta da segunda guerra mundial, congelou naquela neve, viu matar e morrer e voltou herói. O dinheiro que recebia nem de perto supria as necessidades da casa, já que éramos onze filhos, tinha que se virar.  

Lição 1: É preciso ter coragem para guerra ou para inventar coisas.

Enfiou na cabeça que encontraria ouro enterrado perto de Guia Lopes ou Nioaque e comprou um detector de metais, que parecia um pêndulo. O que me impressionava é que se arrumava todo para ir trabalhar e procurar coisas pelo chão com isso, mesmo sem nunca ter achado nada.

Lição 2: elegância e fé juntas são uma potência.

Depois disso, decidiu fazer tijolos. Surgiu com uma forma de ferro azul que se preenchia com barro e água. Colocava as crianças em fila para ajudar na produção. Aquilo era divertido, mas a forma fazia um tijolo de cada vez.  Cada criança fazia o seu e voltava para o final da fila. Ou seja, a produção era de onze tijolos por mais de hora. Claro que não ia dar certo. 

Lição 3: Simplicidade – uma obra começa com um tijolo e pode levar uma vida inteira.

Numa madrugada, acordei para beber água e dei de cara com uma montanha de Sapato Vulcabrás na sala. Ele tinha feito negócio da china num leilão. Dia após dia, saía para vender, de porta em porta. E lógico, os filhos dele usariam esses sapatos para sempre. E assim foi, acho que até uns dezesseis anos, andava com isso nos pés.  Consegue imaginar, o mesmo sapato no Natal, na Páscoa, no aniversário? Nem lembro mais o que virou daquela quantidade de pares, sei que até hoje não sei comprar sapatos.

Lição 4:  Existem coisas que, mesmo novas, parecem velhas,

Ainda tentou a carreira de fotografia com o estúdio em casa e com todas as crianças de assistente. As mães levavam seus filhos arrumadinhos, mandava segurar na flor e click, batia a foto.

Lição 5: a fotografia precisa da poesia.

Meu pai soube se divertir nessa vida. Se ganhava dinheiro ou não, é outra conversa. O que importa é que escrevendo sobre ele, acabei descobrindo que não sei nada de inventar coisas.

Ele sabia.

Preciso encontrar uma profissão, vou escrever.

Escrito por

Linda Raquel Benitez escreve a coluna Vida Linda para o Blink News. Ela conta o que aprende com tudo o que vê e vive; relata impressões e ideias da vida e do dia a dia. Empresária, produtora cultural e design de eventos, Linda é campo-grandense e vive, atualmente, em Búzios (RJ). É casada, tem dois vira-latas e estuda filosofia. Foto: Milena Rodrigues

4 Comentários

4 Comments

  1. Selma

    08/03/2019 em 15:21

    Como sempre é uma delícia ouvir suas histórias. E eu e Ana não damos bronca não. É que vc as vezes inventa umas coisas mesmo. Kkkkk

    • Pammela

      09/03/2019 em 08:07

      Que história! Me emocionei acredita?❤️ O tigafa pela experiência! 🙏🏻

  2. Mônica Ferreira

    09/03/2019 em 16:15

    Muito bom!

  3. zaina. morais

    10/03/2019 em 07:02

    Nossos pais eram bem parecidos não sei se era loucura ou criatividade, mais que herdamos uma parte boa deles isso com certeza, amo ler o q escreve, viajo com seus textos.

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