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O pequeno grande irmão

Eu tentei. Juro que tentei ficar indiferente à verborragia insana do homem que dirige nosso País. Parei de assistir telejornais, não abro mensagens de vídeo no whatsapp, sai do Facebook e, confesso, bloqueei um monte de pessoas. Não, eu não estou alheia ao que acontece à minha volta. Minha fonte de notícias são sites jornalísticos e um clipping diário com – bons – artigos dos grandes jornais nacionais.

Mas é claro, não dá para evitar uma ou outra conversa, comentários, críticas na maioria das vezes sobre os desatinos de quem deveria ser um exemplo para os brasileiros. Não é de hoje que acompanho análises de jornalistas e escritores, sobre a crise do dia. Mas evito escrever sobre o assunto. Até por medo de represálias.  Volta e meia tenho a sensação que o “Grande Irmão” está pairando sobre nossas cabeças. Não, não tem nada a ver com aquele programa alienante da TV aberta chamado Big Brother. Falo aqui da emblemática história escrita por George Orwell – ‘1984’. 

Para quem não conhece o livro, trata-se de um mundo pós-revolucionário, ficcionista, onde tudo o que aconteceu antes da Revolução fundadora de 1984 (valores humanísticos, formas de relacionamento, debate público, liberdade de expressão, cultura…) foi abolido e esquecido. O aparato de repressão, onipotente e implacável, vigia cada movimento dos súditos por meio de um sistema de telas instaladas no espaço público e no doméstico. Não existe privacidade. O poder é encarnado em um tirano inacessível cuja imagem é exibida em todos os lugares com o slogan “O Grande Irmão está te vigiando”.

No cenário de 1984, existe os chamados “dois minutos de ódio”, onde as massas se reúnem diante de uma grande tela para vaiar e execrar o inimigo em um paroxismo demente. Ao lê-lo, é inevitável se lembrar das redes sociais, onde qualquer um que coloque o focinho fora do bando se expõe a ser linchado virtualmente. Como se vê, a semelhança entre a ficção e a realidade não é mera coincidência.

Por isto, e depois de ler o artigo desta semana, escrito pela minha querida e sensata Marina Colasanti, resolvi deixar de lado a covardia – e o medo – para expressar meu profundo repúdio por todas as frases despejadas em cima dos milhões de brasileiros, inclusive daqueles, que, insensata ou desavisadamente, escolheram-no como chefe supremo. A eles, minhas condolências. Mas aqui e agora minha indignação não é política. É profissional e, claro, cidadã. Semana passada, por exemplo, questionado por repórter sobre crescimento e preservação, do meio ambiente ele recomendou ao jornalista que “comesse menos”. E foi além, sugeriu singelamente que para melhorar a situação a saída é “fazer cocô dia sim, dia não”.  Nem nos piores pesadelos daria para imaginar um presidente da república distribuindo pitadas escatológicas. Às vezes todos os dias.

A bem da verdade, meu maior temor é que esta retórica belicosa do presidente coloque em risco a nossa frágil democracia. Não são poucos os exemplos de declarações agressivas do ocupante do Alvorada. Desde o início de seu governo, a lista parece não ter fim. Dentre os variados alvos há opositores, ambientalistas, cientistas, jornalistas, órgãos de imprensa, índios e filho de desaparecido político. Isto sem falar de homossexuais e mulheres. Pode-se dizer que as partes baixas são o tema favorito do rei.

Franklin Delano Roosevelt, único homem a ser eleito para quatro mandatos consecutivos como presidente dos Estados Unidos, país que nosso eleito tanto idolatra, costumava dizer que se espera que o comandante em chefe aproveite o palanque privilegiado (não confundir com palanque de campanha) para irradiar confiança e bons exemplos. Para nós que vivemos na linha abaixo do Equador, já estaria de bom tamanho se tivéssemos alguém com mínimo de sensatez, uma dose de recato. E, sobretudo, algum respeito.

A postura destemperada, para dizer o mínimo, emite sinais de um baixo apreço do chefe do Executivo aos direitos individuais, gerando insegurança para a sociedade civil. E, além disto, de ser uma cortina de fumaça para voos mais ousados, digamos assim, dá péssimo exemplo para as nossas crianças e adolescentes. O próximo passo pode ser abolir os livros de história, para que não haja registros desta época em que a educação e o decoro ficaram em algum lugar do passado. É triste, mas é fato.

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Escrito por

Theresa Hilcar é mineira, de Lagoa da Prata e chegou em Campo Grande no início dos anos 1980. Pouco depois iniciou sua carreira jornalista atuando como apresentadora de TV e participou de diversos programas nacionais como convidada. No jornalismo impresso passou pelo Jornal da Cidade, Revista Executivo Plus até chegar ao jornal Correio do Estado (sua melhor escola, como costuma dizer), onde atuava, principalmente. como repórter de cultura. Foi no jornal que se descobriu cronista e passou a publicas suas crônicas todas às terças-feiras, por quase 30 anos. Cursou Letras e Comunicação Social. Tem sete livros publicados e algumas antologias. Aos 61 anos, a jornalista e escritora diz que a coluna da Blink é quase um reinventar-se. Afinal, escrever para um púbico mais jovem será um desafio, confessa. No entanto, espera que seus textos possam conversar com leitores de todas as idades. É cinéfila de carteirinha, apaixonada por literatura se nunca se cansa de viajar. Por países e textos.

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