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O tempo que se pega com as mãos

Era uma vez um lugar encantado chamado Bazar Central e que tinha cada história! Só mesmo pedindo ajuda da saudade que bateu para tentar escrever. De 2002 a 2005, foi uma ideia na cabeça e dois galpões na mão. Um lugar para gente, música, livros, discos, banquinhos, castiçais e tudo o mais que fosse belo num lugar só. O que se vendia ou experimentava não dava para pegar com a mão. Era um sopro.

Seu endereço na Rua Euclides da Cunha, tinha a decoração toda feita de presentes: O Cauby deixou uma camisa bordada, o Gilliard, um par de meias. O Jerry Adriani, seu colete. Dos desconhecidos, frascos de perfume, redes de pescador, pisca-pisca de natal, bandeiras de todo lugar. Até vestido de noiva e um mimeógrafo levaram lá para enfeitar. Tudo no teto, pendurados com fio de nylon, numa deliciosa confusão de cor e história.

Para os músicos se rodava o chapéu, numa eterna troca de beleza e poesia. A comida vinha de qualquer pizzaria e a entrada do motoqueiro era como a troca da guarda real – uma cerimônia. Garçom nem tinha, cada um que cuidasse da sua conta. O dinheiro? Servia para lembrar que existia um mundo lá fora e era desse mundo que a arte dali buscava roubar para si cada pessoa que chegava.

Todos os dias, comprar e gelar cerveja, vodcas, livros nas prateleiras arrumadinhos. Além de ter que ser criativo na programação de cada dia. Aniversário da Clarice Lispector, da Elis Regina. Shows espetaculares, desfiles de moda, lançamentos, teatro, palestras. Tudo lindo, até virar obrigação. O sucesso trouxe a preguiça. E no dia que não tinha nada, tinha que inventar. 

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Era uma tarde qualquer de calor. Ouvia uma música gostosa e tomava uma cerveja, passando a vassoura no tempo da lentidão. Chegaram uns cinco espanhóis. – hola, que tal? Lo que tendremos la noche?  A resposta veio rápido – La tradicional Danza de la Hiedra para el solstício de verano!
Não sei de onde saiu isso e muito menos que eu falava espanhol! Pois bem, voltaram. E agora? Nem tinha pensado o que fazer! Respirei, tranquila e entreguei, para cada espanhol, uma pedra. Eram sete. Agora vamos fazer um círculo! E girar tipo dança da fita. Aquilo era uma sem graceira infinita.

Até chegar o Luís, que é coreógrafo e parecia ter sido contratado para o solstício, uma beleza. Nem perguntou e já saiu levando a sério aquilo, organizando o balé para esquerda, para a direita… A cada giro, uma garrafa de vodca e uma noite dessas para guardar na memória. Os espanhóis riam de se segurar um no outro.  As pedras ficaram lá no teto para sempre. 

Tanta história num tempo de tanta arte. Uma bela janela de onde a vida passava rindo de tudo. Olhar para trás, e ver que dá quase para pegar o tempo e suas memórias maravilhosas, nessas noites vivas. 

Acordei agora e espero que tudo isso não tenha sido um sonho. 

Mas acho que foi.

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