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O Tom que se foi

Como iniciar uma crônica de despedida? De adeus, para ser mais exata? Melhor ainda: de agradecimento pelos 10 anos de companheirismo, amizade, carinho, conforto e, claro, muitas brigas por mau comportamento. Meu e dele. A caixa de areia era um grande problema entre nós. E minha falta de paciência devia entristecê-lo. O que me valeu várias e várias crônicas sobre esta relação de amor com um ser de quatro patas. Pois é, estou sofrendo a perda de um felino, um gato que literalmente me achou na rua e me adotou. Tom Tom, esse era o nome dele (dado por alguém que costumava alimentá-lo), não era um gato de enfeite, nem fazia o tipo “difícil” que fica todo tempo escondido. Ele interagia com todo mundo. Até quem não gosta de gatos (e há quem tenha pavor), não se furtava, embora muitas vezes constrangido, ao carinho que ele fazia nas visitas. Fosse uma passada de rabo na perna ou, em clima propício, se aboletando no colo. Não havia quem não o adorasse.

Por isto, e diante da urgência de entregar a crônica, a primeira coisa que me veio à mente, é o poema de W. H. Auden chamado “Funeral Blues” que traduz com absurda precisão o sentimento diante da perda: “Pare os relógios, cale o telefone; evite o latido do cão com um osso… Que os aviões voem em círculos, gemendo e que escrevam no céu o anúncio: ele morreu. Ponham laços pretos nos pescoços brancos das pombas de rua e que guardas de trânsito usem finas luvas de breu. Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste, meu Oeste. Meus dias úteis, meus finais-de-semana; meu meio dia, meia-noite, minha fala e meu canto… As estrelas não são mais necessárias, apague-as uma por uma. Guarde a lua, desmonte o sol. Despeje o mar e livre-se da floresta. Pois nada mais poderá ser bom como era antes”.

Parece exagero, caro leitor? Pois é, eu também pensava isto. Acreditava que era pura frescura esse negócio de chorar a perda de um bichinho. Afinal, diz o coro dos desavisados, tanta criança passando fome, sem um lar para chamar de seu e a gente gastando tempo, energia e dinheiro com animaizinhos. Não por acaso existem cerca de 10 milhões de gatos abandonados nas ruas das cidades. Quem compara crianças a animais, geralmente não costuma fazer nada nem por um nem por outro. E paramos por aí, por a crônica de hoje é para me despedir de um amigo. De mais um, pois em pouco mais de 2 meses já foram quatro humanos e um felino.

Mas só quem tem um animal de estimação sabe do que estou falando. Principalmente aqueles cujas manias incluem dormir na sua cama, entrar no banheiro junto com você todas as vezes, assistir todos os filmes e programas de TV enroscado nos seus pés, ficar de olho no livro que está na sua mão e manifestar solidariedade com o dono como se fossem humanos. E o que dizer daqueles que esperam você na porta do apartamento todos os dias? Que te acorda com um toque suave no rosto, ou nos pés, e anda atrás de você para lembrar que é preciso trocar a água ou a comida? Um amigo que não lhe julga, que te acolhe em silêncio quando você chora e sabe, sabe mesmo, todas às vezes tudo que você precisa é de alguém aninhado no seu colo. A casa está muito vazia, Tom Tom, e a caixa de areia no mesmo lugar. Tenho a sensação que você ainda não partiu.

Escrito por

Theresa Hilcar é mineira, de Lagoa da Prata e chegou em Campo Grande no início dos anos 1980. Pouco depois iniciou sua carreira jornalista atuando como apresentadora de TV e participou de diversos programas nacionais como convidada. No jornalismo impresso passou pelo Jornal da Cidade, Revista Executivo Plus até chegar ao jornal Correio do Estado (sua melhor escola, como costuma dizer), onde atuava, principalmente. como repórter de cultura. Foi no jornal que se descobriu cronista e passou a publicas suas crônicas todas às terças-feiras, por quase 30 anos. Cursou Letras e Comunicação Social. Tem sete livros publicados e algumas antologias. Aos 61 anos, a jornalista e escritora diz que a coluna da Blink é quase um reinventar-se. Afinal, escrever para um púbico mais jovem será um desafio, confessa. No entanto, espera que seus textos possam conversar com leitores de todas as idades. É cinéfila de carteirinha, apaixonada por literatura se nunca se cansa de viajar. Por países e textos.

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