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Para encontrar o azul

A história é que eu precisava comprar um carro, estava com pouco dinheiro e ele me ajudou.  Inventou um jeito, um negócio qualquer. Deve ter entendido a necessidade no meu jeito de olhar, talvez.  Na tardinha do dia seguinte já estava na sua porta exibindo meu vermelhinho usado, novinho em folha. Entrada mais quarenta e oito. Sorrimos nós. E eu agora você pode pedir o que quiser que vou buscar e ele ah então quero acarajé. Sorrimos mais. Fui. 

A verdade é que nunca sei o que fazer quando me sinto cuidada. Um sussurro soprava essa conclusão no meu ouvido, no silêncio barulhento e solitário daquele trânsito caótico, a caminho da feira central.  Hoje, qualquer coisa, por ele. Até comprar acarajé na muvuca que é para chegar lá. Isso sim é uma boa causa.

Três horas depois, 02 acarajés apimentados na frente de um baiano tem a beleza de uma ária. Ele comeu que se acabou, coisa linda de ver. Ainda disse que era a pimenta mais forte de todas, da boa. Deu para ver nessa cena que esse negócio de cultura e pertencimento é forte mesmo. 

Nossa festinha foi interrompida com a fala dela, brava que só, mandando a gente subir porque queria ver novela. Sorrimos de novo. Subimos. No quarto, a mesa de cabeceira maior que o padrão, revelava os remédios do tratamento que durava mais de dois anos. Ele ainda disse que eram muitos comprimidos por dia e que ali ficava mais fácil. Falou também que encontrou no atelier o aparelho de dvd e que isso era fantástico. E que tal a gente assistir Music for Montserrat? E aqui, foi outro espetáculo. Como podia saber tantas coisas desse show que tem mais de vinte anos? Sabia todos os nomes, na guitarra Eric Clapton, vocal do Paul McCartney, guitarra base do Mark Knopfler, na bateria Phil Collins e por aí foi. Se duvidar, sabia até o nome do contra regra. Depois do show, prolongando aquele instante, colocou num canal que ensina a fazer coisas esplêndidas e, depois de aprendermos a construir aviões, nos despedimos.

Ainda bem que eu subi com ele, que sorri, que aprendi. Aprendi que pimenta forte é para baiano bom, que momentos são eternos num piscar de olhos e que a beleza me visitou ali, de pernas cruzadas num tempo sem tempo. Ainda nos falamos por telefone na semana seguinte, tentando marcar outros sorrisos. Não deu mais. 

Para encontrar o azul, como diria o poeta, usar seus pássaros, suas flores e seus ipês. Que bom que aprendi a fazer aviões porque hoje me sinto com as asas quebradas.


Escrito por

Linda Raquel Benitez é uma brasileira campo-grandense. Empresária, e estudante de filosofia, é produtora cultural e design de eventos, há 20 e poucos anos na estrada. Formada em buscar um jeito mais leve de ver a vida, sua especialização é falar sem parar. Desde o ano passado, decidiu escrever e assumir suas crônicas para o mundo.

3 Comentários

3 Comments

  1. Janete

    27/09/2019 em 10:35

    Um dos mais difíceis, tenho certeza disso! Mas como é belo, doce, profundo e agradecido. Sempre muito difícil dizer adeus!

  2. Dedê Cesco

    27/09/2019 em 10:47

    Difícil, tenho certeza, mas de uma amorosidade em cada vírgula. E por ele, todos só emanam sentimentos benfazejos! Lindo o teu adeus!

  3. Giselle Santos Andrade (Gi Rivers)

    27/09/2019 em 11:18

    Que lindo e triste! Nos faz refletir detalhes que muitas vezes não nos atentamos… Hoje mesmo quero aprender como se constrói aviões. Cada vez mais lindo Linda. Beijos e forte abraços.

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