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Para não esquecer

Volta e meia esqueço coisas. Ou perco. Nem sei a diferença desses verbos quando o resultado são horas de atraso, procurando uma chave, por exemplo. Poderia ser o cartão do banco, a receita do médico ou um batom. Poderia ser uma senha ou um segredo. Não importa. Se material ou não, essas palavrinhas já causaram comigo.

Quando era mais nova, achava até bonitinho, um charme. Mas com o tempo, vendo a vida de cima, senti foi compaixão misturada com um certo não é possível que não perceba a falta de charme que tem refazer o mesmo caminho duas ou três vezes, procurando um chaveiro, numa manhã de verão, no balneário das férias. O insano pensamento “vou achar” ou “vou lembrar” rodopiando diante de olhos meio piedosos-meio raivosos dos que compartilham esses minutos angustiados, não chega a ser uma experiência agradável. Esses verbos despertam várias sensações em outras palavras como a vergonha, a raiva ou o alvoroço. E isso, para o esquecedor competente, já nem bate mais com tanta força. No lugar da vergonha, aceitação. No da raiva, respiro. No alvoroço, procuro.

Numa dessas meu amigo me deu uma bolsa de presente, dessas tipo mochila. Explicou que ali seria o lugar de esquecimento das coisas miúdas durante a viagem que faríamos para o Chile. Sonho dos dois, partimos. Eu, ele, a mochila e meu Samsung novo, duas câmeras, um espetáculo. As mais de mil fotos que fiz pareciam habitar o lugar. O azul intenso e os tons recortantes daquela paisagem de deserto, foram deslizadas e revistas muitas vezes na poltrona 34 do ônibus que nos levaria a Calama, dali para Santiago, no caminho de volta para o Brasil. Na descida do aeroporto, no tradicional check de abandono, olhar para o banco traseiro do taxi anunciaria o caos. O celular ficou na poltrona do ônibus. 

Ele, em silêncio, foi para o embarque. Eu, na bagunça dessa descoberta, continuei no táxi. No mais nervoso espanhol pedi que acelerasse para a garagem da empresa, que falaria com o rapaz do guichê. Quando cheguei, no mínimo fôlego, expliquei. A vagarosa resposta veio num “impossível achar. Esse ônibus ainda vai para Antofagasta”, falava e mostrava a cidade no mapa. Na capital, só amanhã. Foi difícil a negociação interna para aceitar a volta para o aeroporto. No silêncio do amigo, a vergonha. 

Claro que essa história teve final feliz, sempre têm. Duas idas à garagem, ainda de madrugada, na correria de pegar metrô, já na terceira tentativa, lá estava ele. Dentro dO envelope amarelo. Pensei mas sete pessoas honestas que sentaram naquela poltrona 34 e, de mão em mão, ali estávamos: o celular e eu. O rapaz ainda disse que isso era coisa rara, que eu deveria ser uma pessoa especial. Acho mesmo que ele tentava me convencer que aquilo não tinha sido tão grave assim.

Já no hotel, um sorriso. Sabe aquele, de libertação? Até saímos para um passeio de recompensa por Santiago. No almoço, revendo as imagens desse passeio, vi que tinha uma que eu estava com mochila e na outra, não. Ah, isso só poderia ser pegadinha, não é possível.  Infelizmente, era fato. A sorte foi que antes daquele já conhecido alvoroço e longe dos olhos do meu amigo, chegou o garçom e a pergunta perfeita: Essa bolsa é sua?
Sem mais, escrever é o melhor lugar para guardar coisas miúdas.

Escrito por

Linda Raquel Benitez é uma brasileira campo-grandense. Empresária, e estudante de filosofia, é produtora cultural e design de eventos, há 20 e poucos anos na estrada. Formada em buscar um jeito mais leve de ver a vida, sua especialização é falar sem parar. Desde o ano passado, decidiu escrever e assumir suas crônicas para o mundo.

1 Comentário

1 Comentário

  1. Eristom Gonçalves

    14/09/2019 em 09:55

    Eu como ja esqueci varias coisas, pra mim ísso é normal.
    Uma vez foi ilusitado o que aconteceu: Esqueci meu telefone dentro do carro no banco carona numa rua bem deserta no RJ e não dei falta ate porque na época não existia planos com promoções como hoje que pode ligar para qualquer operadora, ai eu andava com no mínimo 2 aparelhos com “18 chips” rssss
    Quando voltei, cadê o celular? Meuvidro estava quebrado e um ladrão levou.
    Nossa!
    Aí lembrei dos vários chips num só aparelho e fui entender porque ninguém me ligava durante um bom tempo.
    Dois dias depois recebi uma ligação de um pastor de uma igreja numa comunidade, me avisando que o ladrão foi lá, se arrependendo do roubo, pediu perdão e insistiu para o pastor tentar devolver ao dono.
    Coisas que só acontece comigo.

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