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Desapegos e afins

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Para que esse desejo de juntar coisas do mundo que não fui eu que espalhei? Para quê? 

Hoje, só desejo carregar aquilo que possa levar em caso de guerra, e que assim seja.

E elas não param de chegar, as coisas. Vem de presentes e de passados. Ocupam gavetas, armários, malas antigas. Enchem os álbuns, os potes, as bolsas pequenas, as grandes. Os saquinhos de tecido da compra de um sapato abrigam clipes, cartões de visitas, linhas, agulhas. Tem as bonecas, as muitas bonecas. De tecido, de madeira, com ímã, sem ímã. Tem até uma da Isabelita dos Patins, descorada pelo tempo. Tem uma barbie, que já foi rosa. Hoje aquela cor deve ser salmão ou alguma outra bem pastel, sabe? Presente do passado, essas coisas.

O pior é que o dia-dia engoliu esse meu notar. Fui guardando, desamarrando, misturando tudo. Uma desorganização cadenciada que espera o réveillon para se reinventar. Isso fora as mil peças que sobrevivem a essas datas especiais. Uma pelúcia de coelho, o Papai Noel sem pilha, uma sanfona que não toca. O bilhete do namorado dos anos 80, pode até garantir uma certa nostalgia, mas é o campeão disparado das traças do guarda-roupa. E por aí vai. Enchendo, enchendo. Até o dia que cansa e vem o desejo incontrolável de um feriado inteiro, só para abrir, fechar, rasgar, reler e arear. Abrir para o novo. A Revolta das Coisas no Dia Internacional do Basta.

No último aniversário mesmo, passei a véspera vendo os presentes dos anos anteriores. Contei uns quarenta e três porta-retratos, uns oito candelabros lindos em caixinhas perfumadas, umas bijuterias em bolsinhas de tule que, nunca usadas, nem sabiam o porquê de estar nesse mundo, para ser nada. Coisinhas inúteis.

Que tudo chegou a mim com muito amor, isso é fato. A questão é que peças especiais assim, ocupam mais espaço e tem mania de seguir vivendo a vida comigo. E com amor as coisas pesam. Imagina o amigo que coleciona pedaços de lugar, carrega pedras nas viagens que faz e o pior, não faz nada com elas. Nenhum castelo, nada. Uma hora isso deve doer.

E ainda tem os restos de móveis dos casamentos desfeitos, um sofá de cada jeito, sabe? Aquela sobra da decoração da festa junina que, quem sabe um dia, você nunca mais vai nem saber onde guardou. Dessas frases que querem dizer – “vou guardar, vai quê”. E é nesse “vai quê” que mora meu problema e que não quero mais. Quero me entregar ao meu pequeno, ao quase nada, à casa vazia do meu avesso. Ao simples da pedra quente, que protege a saída de uma água gelada, na passagem do vento, numa tarde de primavera.

Talvez um tubinho preto básico, um óculos de grau e uma caneca do Matisse. Quem sabe um quarto-sala sem gavetas, e a liberdade de sair só para ver o mundo, o vasto mundo. De preferência, sem guerra nenhuma. Que assim seja.

Boneca Isabelita dos Patins
Foto: Acervo Linda Benitez

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