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Polêmica em novela: preconceito ou “se é ficção, pode”?

Se você anda encantado com as belezas naturais da Bahia e com a trama que parece ter agradado a grande parte das pessoas na nova novela da Globo, ‘Segundo Sol’, saiba que uma grande polêmica, de cara, já impacta o mais novo folhetim do horário das nove: o de uma Bahia branca ou, praticamente sem negros.

Enquanto fora da ficção 76,3% da sua população baiana se declara preta ou parda, na obra “Segundo Sol”, que estreou na segunda-feira (14), dos 26 atores e atrizes do elenco, apenas três são negros.

Além dos protagonistas brancos Emilio Dantas (que interpreta um cantor de axé) e Giovanna Antonelli (catadora de mariscos que se torna DJ), a produção conta com nomes de atores e atrizes brancos já conhecidos, como Adriana Esteves, Vladimir Brichta, Deborah Secco e Chay Suede.

A atriz negra Roberta Rodrigues (que ganhou o papel anteriormente ocupado pela atriz branca Carol Castro) e o ator negro e baiano Fabrício Boliveira acabam sendo exceções. Na novela, Boliveira interpreta um motorista filho de empregada doméstica que descobre que seu pai é o patrão – um milionário branco interpretado por Odilon Wagner.

O ator já se mostrou a favor do debate sobre representação – problema que não se resume às telenovelas. “Acho importante ter diálogos inteligentes, que o público proponha de forma inteligente, e essa discussão é mais importante que discutir quem matou quem na novela”, disse ao jornal Correio, da Bahia.

Já a atriz Giovanna Antonelli lamentou as críticas. “Acho que a graça da profissão é a gente fazer o que a gente não é. Hoje, ali, vivendo na Bahia, fazendo um personagem baiano, todos os que estão participando se sentiram tão baianos quanto um baiano e os admirando profundamente.”

Críticas dentro e fora

A distância com a realidade étnico-racial baiana, ou mesmo a brasileira, gerou polêmica que repercutiu fora, nas redes sociais, e dentro da TV Globo.

Parte do elenco questionou a emissora que, em resposta, no início de maio, disse que, na época da escalação do elenco, atrizes negras como Taís Araújo e Camila Pitanga até foram procuradas, mas não estavam disponíveis para atuar na novela.

Ministério Público entra na história

As polêmicas em relação à nova novela da Globo ganharam corpo com a entrada do Ministério Público do Trabalho na história. Por meio de uma “notificação recomendatória”, a procuradora Valdirene Silva de Assis, da Coordenadoria Nacional de Promoção à Igualdade e Combate à Discriminação no Trabalho, listou 14 condutas a serem adotadas pela emissora contra práticas excludentes e discriminatórias.

A notificação do MPT (Ministério Público do Trabalho) é resultado de uma denúncia que apontava que a novela “não estaria observando o respeito à representatividade negra, violando inclusive normas de promoção da igualdade do estado do Rio de Janeiro e da Bahia”.

A procuradora cobra que a emissora assegure “a participação de atores e atrizes negros e negras em novelas e programas, dentre outros produtos, a fim de propiciar a representação da diversidade étnico-racial da sociedade brasileira, especialmente em cenários de população predominantemente negra”. E cita o caso da novela “Segundo Sol”, na qual a emissora “deverá fazer adequações necessárias no roteiro/produção, para observância dos princípios orientadores do Estado Democrático de Direito, entre estes a proibição de discriminação”.

A Globo deve ainda produzir um “censo dos trabalhadores que prestam serviços à empresa, empregados ou não, com recorte de raça/cor e gênero” e um “levantamento sobre a representação das pessoas negras e o número de artistas negros e negras que aparecem em telenovelas, séries, propagandas, programas de entretenimento, entre outros produtos, produzidos pela empresa, bem como o de jornalistas e comentaristas”.

Lado da emissora

A Globo deve comprovar em até 10 dias ter atendido às recomendações do órgão. Caso contrário, o Ministério Público poderá “convocar a empresa recalcitrante [que resistiu à ordem] para prestar esclarecimentos em audiência e, eventualmente, firmar termo de compromisso de ajustamento de conduta”, ou ainda “propor ação judicial cabível, visando à defesa da ordem jurídica e de interesses sociais e individuais indisponíveis”.

Em resposta ao site Jota, a Globo disse que recebeu a nota do MPT e que “respeita a diversidade e repudia qualquer tipo de preconceito e discriminação, inclusive o racial”.

Representatividade

O problema não se resume apenas à novela “Segundo Sol”, mas trata-se de uma prática sistemática na emissora. É o que em parte constatou um estudo de 2015 que analisou 162 telenovelas “globais”, transmitidas entre 1984 e 2014.

Dos atores e atrizes escolhidos para personagens centrais nas diferentes produções, apenas 8,7%, na média, eram pretos ou pardos. Para o sociólogo Luiz Augusto de Campos, professor na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e pesquisador do Gemaa (Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa), responsável pelo estudo, o dado evidencia um problema que precisa ser equacionado pela emissora.

“Ainda que ninguém precise necessariamente dizer que esse problema reflita uma discriminação intencional, consciente ou maléfica por parte da emissora, ela tem de estar mais sensível e reconhecer a existência desse problema”.

Para Campos, a sub-representação em novelas tem uma óbvia relação com a ausência de negros ocupando espaços em postos de decisão em empresas como a Globo. “Estamos falando de uma cadeia de produção cultural gigantesca. Me surpreende que essa questão não tenha aparecido em nenhum momento antes”, diz. “Ou isso mostra o tanto que a exclusão de uma perspectiva negra lá dentro é de fato importante, ou isso indica que a emissora não tem preocupação com esse elemento.

” Entre outras questões, como a formação de uma “elite cultural” diversa, o sociólogo chama atenção para o papel da emissora na construção de narrativas que vão formar, em alguma medida, as visões da população brasileira sobre o próprio país.

E aí, o que você pensa sobre o assunto?

fonte: nexojornal.com.br

Escrito por

Buscando a felicidade sempre. Apaixonado pela comunicação e pela música. Sonhar, acreditar e jamais desistir, tudo isso sem perder a fé. Locutor, cantor e acadêmico de jornalismo. Apresentador do Viva-Voz. Me siga no insta: @padubotelho.

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