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Por trás das grades

A conversa fluía normalmente. Eu fazia as perguntas, ele respondia de forma clara e, aparentemente, sincera. A bem da verdade, eu ainda estava em transe depois de ter passado por corredores com centenas de homens em imensas alas gradeadas que, soube mais tarde, eram específicas para o crime cometido. Sim, eu estava numa Penitenciária masculina de média periculosidade.

Depois de minuciosa revista na entrada, tive que atravessar o largo corredor até o final, para descobrir que pode existir um fio de esperança em meio a culpas, sentenças e crimes hediondos. Estava no local para fazer matéria sobre o tratamento de uma dependência que, na maioria das vezes, é o que os leva até aquele lugar: as drogas. As terríveis, avassaladoras e as mais variadas drogas. E confesso, ver aqueles homens pedindo ajuda, rezando e cantando para um ser superior, se reconhecendo impotentes diante do vício, me comoveu. Não eram muitos. No universo de quase 2 mil detentos, apenas 40 deles estavam naquela sala, dispostos a deixar uma parte possível do passado para trás.

Escolhemos dois deles para dar depoimento sobre o programa, criado pelo governo do Estado. Infelizmente não dava para ouvir todo mundo. Numa pequena sala nos sentamos, eu e o primeiro entrevistado – um de frente para o outro – que me cumprimentou polidamente estendendo a mão. Logo percebi que seu português era bom, articulado. E assim a história foi sendo revelada pouco a pouco. Ele contou que começou a gostar de ler na prisão e citou até alguns autores. Achei bonito quando ele disse que, mesmo preso, estava se sentindo livre graças ao programa. De quanto tempo era sua pena, perguntei. A sentença foi de 19 anos e sete já foram cumpridos, respondeu.

Foi quando resolvi ir além do roteiro e perguntar qual o crime para tamanha pena. Ele olhou meio de lado, com tom de voz de quem responde o número do seu CPF ou da carteira de identidade e disse num fôlego só: roubo e estupro. Algo em mim se revirou. Nunca, que eu saiba, estive tão perto de um estuprador. Nem na infância, quando vez por outra ia até a delegacia de polícia visitar o delegado da cidade, meu avô. Os presos que passavam por lá eram bêbados que faziam arruaça nas ruas, um ou outro ladrão de galinha. Nada de mais.                                              

No presídio, soube que condenados por estupro, geralmente ficam em ala distinta das demais. É que mesmo para os outros criminosos, o estupro é considerado algo inaceitável. Mas diante dele não senti raiva, nem desprezo. Não senti nada. Na minha frente estava apenas um homem que queria ser melhor. Aceitava seu destino, sua sentença e sabia que era justo pagar pelos seus erros. Encerrada a entrevista, ele despediu-se agradecendo e, novamente, estendeu a mão. Nessa hora me lembrei que tenho espécie de TOC, não gosto de apertar mão de desconhecidos. E acabava de apertar a mão de um estuprador.

A segunda entrevista foi no automático. Um traficante de drogas era “leve” demais depois daquela experiência de minutos antes.  A pena também era menor. O detento sabia que teria uma chance de se reintegrar à sociedade quando comprimisse a pena. Mas sabia que para isto acontecer era preciso vencer a compulsão, o vício que facilitou o crime. O programa estava funcionando, pensei. Naquele local não se trata apenas a dependência, mas a alma humana. Ensinam que podem se redescobrir, enfrentar a dor de ser quem são – ou foram. A prisão, sem dúvida, deve ser o pior lugar do mundo. As grades de ferro, as limitações, a obrigação de conviver com todo tipo de gente, a privação de prazeres simples, o cheiro da culpa e do medo que se juntam ao suor e ao mofo das celas. Chego a pensar que é mesmo muito difícil sair daquele mundo melhor do que entrou.

Quando o último portão se fechou atrás de mim, naquele dia frio e escuro, eu respirei fundo e percebi o valor da minha liberdade. Senti o quanto é importante poder ir e vir. Mas o dia todo as palavras do homem não me saiam da cabeça:  estou preso, mas nunca me senti tão livre. Será por isso que sofremos tanto? Porque não temos consciência da nossa liberdade, não conseguimos olhar para dentro e para o outro? Estaremos todos presos dentro de nós mesmos? O impacto durou em mim alguns dias. Escrever a matéria foi um trabalho hercúleo, e não há um só dia em que não pense, naquele detento. A culpa, certamente, não tem grades. E corre-se o risco de ficar preso para sempre.

Escrito por

Theresa Hilcar é mineira, de Lagoa da Prata e chegou em Campo Grande no início dos anos 1980. Pouco depois iniciou sua carreira jornalista atuando como apresentadora de TV e participou de diversos programas nacionais como convidada. No jornalismo impresso passou pelo Jornal da Cidade, Revista Executivo Plus até chegar ao jornal Correio do Estado (sua melhor escola, como costuma dizer), onde atuava, principalmente. como repórter de cultura. Foi no jornal que se descobriu cronista e passou a publicas suas crônicas todas às terças-feiras, por quase 30 anos. Cursou Letras e Comunicação Social. Tem sete livros publicados e algumas antologias. Aos 61 anos, a jornalista e escritora diz que a coluna da Blink é quase um reinventar-se. Afinal, escrever para um púbico mais jovem será um desafio, confessa. No entanto, espera que seus textos possam conversar com leitores de todas as idades. É cinéfila de carteirinha, apaixonada por literatura se nunca se cansa de viajar. Por países e textos.

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