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PRIMEIRO LEIA, DEPOIS OUÇA…

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PRIMEIRO OUÇA, DEPOIS LEIA

Leia, depois ouça…
Do-Ré-Mi-Fa-Fa-Fa

Declarei minha independência ou morte por volta dos dezessete anos. Na força dessa idade, fui morar no fundo do terreno da casa dos meus pais, atrás da mangueira e do pé de coco, um lugar que fazia sombra até de noite. Era a simplicidade de uma cama ao lado de uma parede úmida, um caixote para as velas e a janela. Era esse o mundo, o vasto mundo, que puxava nas horas o dia, entre os livros e o violão.

Voltava para casa tarde, depois da aula, mais de onze da noite. Tinha um silêncio para atravessar aquele quintal que dava para ouvir com os olhos, numa paradeira que parecia brincar de estátua com as folhas e o vento. Foi entre o bater do portão velho lá da frente e a virada da chave na porta daquele quarto que conheci o medo.

Todos os dias, para vencer e da mesma forma, respirava fundo e seguia até chegar porque prender o ar me salvaria para sempre. Um tempo depois dei de assoviar, tipo coruja na noite. Acreditava mesmo que algo me protegia, fosse o ar ou o assovio. Quando abria aquela porta, sentia o silêncio mudar de lugar e assim, quietinha, adormecia.

Até o medo mudar de lugar junto e entrar comigo para dentro do quarto. Danou-se. Não dormia mais e voltar para a casa da frente seria derrota suprema. Quando se declara liberdade assim é necessário ser responsável por ela. Éramos eu, a liberdade, o silêncio e a partir daí, o medo.

Numa dessas noites era ele a presença de honra que fazia arrepiar a nuca, doer a barriga e segurar as horas e, já sem ter muito o que fazer, comecei a ler uma revistinha, dessas de cifras musicais para iniciantes. Dei de cantar, e abrir a garganta na madrugada escura. Guilherme Lamounier, Moraes Moreira, Na Rua, Na Chuva Na Fazenda e tudo o mais que viria em dois acordes eu cantava e, cantando me encantava e adormecia.

Assim foi por anos. Eu, a liberdade, o silêncio, o medo e a música.

Contei essa história porque ontem, senti aquele medo de novo. Deve ser a pandemia, o isolamento, esse silêncio que dá para pegar o ar com as mãos. Única certeza é que era o mesmo medo. Então, no começo do arrepio, lembrei de cantar e gravei para você.

Já vou avisando que cantar com medo empurra para frente e me faz desafinar. Foi sempre assim.

E aí? O que acha do assunto? Comente!

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