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Qual é o seu nome?

Ontem, na fila da farmácia, uma amiga ouviu duas pessoas conversando sobre meus pais. Uma delas dizia que, nos anos 90, eles eram cantores famosos, donos de um restaurante. Essa amiga sabia que falavam de outros Benitez. Aqueles que cantavam nas noites do La Carreta. Enchiam a cidade com a beleza das guarânias e das polcas paraguaias. Na conversa da fila da farmácia estava tudo trocado: nem meus pais cantavam, nem eu era tão Benitez assim.

Vou te contar um segredo. Américo, meu pai, nasceu do namorico da mãe dele, Aleixa, com um Rolim. Casamento mesmo foi com o Ciríaco, que batizou o guri. Benitez é sobrenome emprestado. Assim, minha família nasceu quase como uma obra de arte do cinema mexicano. Confesso que mudaria várias coisas nessa história, menos os nomes. 

Meus pais gostaram de ter filhos. Quanto mais criança, mais superação para os nomes. Imagino que, a cada nascimento, a primeira palavra que surgia, virava uma pessoa. Ou, talvez, se inspiravam em nome de atriz. Se bem que nunca achei nenhuma atriz com nossos nomes.

Quando o moço da saúde ia fazer visita em casa, passava quase a manhã inteira pra escrever um por um. Colocava em ordem de idade. A escadinha, como chamava. Nos quadradinhos da caderneta dele, anotava: Hermenegilda, Adelaide, Maria Shirley, Elson Carlos, Ilson Amélio, Hélio Bernardo, Vera Lúcia, Inês de La Mônica, Silvia Mara, João Alberto e eu, Linda Raquel. 

Queria mesmo era ter chamado Tânia. Porque Linda, teve mais contras do que prós.  Imagina criança, barrigudinha, no pátio do recreio. Imaginou? Agora, imagina adolescente. As visitas quando chegavam em casa, “Linda é a mais bonita da família. De rosto”. Pois é. A diversão só chegou com a idade. Um dia, liguei num lugar e quando perguntei “quem fala”, alguém respondeu “Narciso”. E eu, “Narciso, você se acha bonito mesmo?”. “Sou lindo. E você?” mandou ele. “Linda”, devolvi. Rimos gostoso dos nossos nomes convencidos.  

Outra vez, fui me apresentar a uma mulher. Estendi a mão.  “Prazer, Linda”. Ela, com um sorriso cúmplice, soltou um “Obrigada”. O que se faz numa situação dessa? Isso sem falar na cara das mocinhas que fazem ficha de crediário.  Quando ouvem meu nome, olham de novo para conferir se carrego a beleza que esse nome tem. Hoje, já faço graça: “por que, não parece?”.

Nessa confusão, tenho duas certezas. Poucas vezes me achei bonita por fora e Benitez por dentro. Hoje quero o avesso.   
Encantada, sou Linda Raquel Benitez Rolim.

Escrito por

Linda Raquel Benitez é uma brasileira campo-grandense. Empresária, e estudante de filosofia, é produtora cultural e design de eventos, há 20 e poucos anos na estrada. Formada em buscar um jeito mais leve de ver a vida, sua especialização é falar sem parar. Desde o ano passado, decidiu escrever e assumir suas crônicas para o mundo.

3 Comentários

3 Comments

  1. Eristom Gonçalves

    09/08/2019 em 17:52

    Na minha familia tambem os filhos já nasceram com o dom artistico. Parece que já nascemos prontos para ecarar a vida cada um com seus talentos. Por isso temos que incentivar nossos filhos para a boa cultura.

  2. Cristina Furst

    11/08/2019 em 19:03

    Ótimo!! Arrasou..bem linda!!

  3. ELIANE DE OLIVEIRA

    12/08/2019 em 12:39

    ARRASOU LINDA… SOU SUA FÃ!!!

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