Conecte com a gente

BLINK NEWS

Quando mulheres reproduzem discursos machistas

"O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos." Simone de Beauvoir Na última semana, o programa Eita Pêga fez praticamente sete dias de programação voltada à problemática do machismo. Mesmo assim, aparentemente essa cultura está longe de ser desconstruída na sociedade brasileira. Exemplo disso foi o comentário deixado em um [...]

“O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos.”

Simone de Beauvoir

Na última semana, o programa Eita Pêga fez praticamente sete dias de programação voltada à problemática do machismo. Mesmo assim, aparentemente essa cultura está longe de ser desconstruída na sociedade brasileira.

Exemplo disso foi o comentário deixado em um post do Facebook na última terça-feira (11), que falava que Mato Grosso do Sul é líder no combate à violência contra a mulher.

print-facebook

Comentários como este mostram como os brasileiros – e, infelizmente, as brasileiras – encaram a triste realidade em relação à violência contra a mulher: culpando a vítima.

Muitas mulheres ainda podem não ter percebido, mas ao escrever que os homens “deixam as mulheres saírem igual p****”, é o mesmo que dizer que a roupa da mulher justifica o possível abuso sofrido por ela. Por que as mulheres fazem esse tipo de comentário contra si próprias?

Uma pesquisa realizada pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em 2014 mostra que a maioria dos brasileiros acredita que o estupro é culpa da mulher, uma vez que ela mostra o corpo e não se comporta “como deveria”. Para esta maioria, a mulher deveria “dar-se ao respeito”, além de dever obediência ao marido e devoção total à família. Sem contar que também acreditam que a mulher só se sente realizada ao ter filhos. Seguindo este pensamento patriarcal e arcaico, os brasileiros ainda acreditam, em sua maioria, que as mulheres que usam roupa curta merecem ser estupradas.

estupro-crimeEsta pesquisa foi realizada em 212 cidades do país, e consultou 3.809 domicílios. Tanto homens quanto mulheres foram entrevistados, sendo que elas representavam 66%  do grupo.

Ainda segundo o estudo, 26% dos brasileiros concordam com a ideia de que mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas.

As perguntas que ficam são: a mulher pediu por aquilo? Não temos o direito de usar as roupas e acessórios que nos deixam confortáveis? E se o quadro na sociedade fosse ao contrário… homens não teriam o direito de andar sem camisa quando fizesse muito calor?

De acordo com o Mapa da Violência 2015: Homicídio de Mulheres, 4.762 mulheres foram assassinadas apenas em 2013. Ainda de acordo com o estudo, o número de homicídios de mulheres brancas caiu 9,8% entre 2003 e 2013, enquanto o de mulheres negras cresceu 54,2%. É uma diferença enorme, e as diferenças sociais e o racismo são dois dos maiores fatores que influenciam esses números.

grafico-homicio-de-mulheresSe todos esses dados ainda não alertarem nossos fãs sobre a sociedade machista, patriarcal e extremamente violenta em que vivemos, existe ainda uma lista, feita pela revista Super Interessante, sobre “seis dados sobre a gravidade da violência contra a mulher no Brasil”, que pode ser facilmente acessado aqui. Estes dados são assustadores, e muitas mulheres podem se identificar com eles.

Aliás, engana-se quem pensa que o abuso sexual e a violência contra a mulher começam na fase adulta. Milhares de crianças sofrem, todos os dias, dentro de suas próprias casas, entre familiares e amigos. Foi pensando nisso que um coletivo feminista chamado Think Olga criou a hashtag #PrimeiroAssedio no Twitter.

O estopim para o movimento foi o caso da menina Valentina, participante do programa Masterchef Júnior, que recebeu mensagens de pedófilos em sua conta do Twitter e causou revolta em milhares de brasileiros.

valentina-master-chef

Velentina no Masterchef Jr.

Depois do episódio, o Think Olga subiu a hashtag no Twitter, e várias usuárias do microblog compartilharam suas histórias. Eram meninas de 5, 7, 10 anos quando foram abusadas por padrastos, avós, vizinhos… algo inacreditável. Muitas mulheres corajosas compartilharam suas histórias.

Recentemente, uma adolescente de 17 anos, Catharina Dória, criou um aplicativo que permite mapear os assédios que as mulheres sofrem nas ruas. Com o programa, é possível registrar o tipo de assédio, o local e o período em que ele ocorreu, e a identificação da vítima não é necessária.

Como a ideia surgiu? A estudante foi assediada na rua e pensou em quantas mulheres passam por isso todos os dias e ainda não têm voz para denunciar quem pratica esse tipo de violência. A ideia é coletar os dados colocados no aplicativo e apresentá-los para autoridades, além de colar cartazes nas áreas de maior risco para alertar as vítimas, e promover palestras sobre o assunto.

Quando uma jovem de 17 anos pensa em fazer um aplicativo para alertar outras mulheres sobre o risco de assédio no Brasil inteiro, é porque há algo de muito errado na sociedade.

Na nossa realidade atual, é aceitável que um homem passe uma cantada em uma garota menor de idade na rua porque “ela estava com uma saia muito curta”, mandar mensagens para uma criança no Twitter dizendo que “ela é linda demais, queria ela pra mim” ou até uma adolescente criar um aplicativo para rastrear assédios que já aconteceram.

Todas as situações citadas são aparentemente mais aceitáveis que educar a sociedade para que saibamos que o corpo de uma mulher é dela e ela pode e deve fazer o que quiser com ele. Mulheres não deveriam sair na rua com medo de que um homem apareça e tire todos os direitos dela com uma agressão, seja ela verbal ou física.

Retomando o pensamento de Simone de Beauvoir do início do texto e a frase postada nos comentários do nosso Facebook, é preciso que a própria mulher aprenda a não ser um opressor dela mesma. As mulheres devem se empoderar, mostrar que são seres humanos e que têm os mesmos direitos e deveres que um homem. Elas podem estudar, trabalhar e viver como quiserem. Usar a roupa que querem, os acessórios que querem. Afinal, o que é uma “roupa de p***”? Ou uma roupa curta, vulgar? Isso depende dos olhos de quem vê ou usa, não é porque uma pessoa entende desse jeito que isso se torna uma verdade absoluta.

O Brasil é o 5º país mais violento do mundo. Este e outros dados aqui citados apenas demonstram que é necessário desconstruir os padrões em que vivemos hoje em dia.

Acima de tudo, a sociedade precisa entender de uma vez por todas a frase mais importante que permeia este assunto: a culpa NUNCA é da vítima!


Artigo escrito por Larissa Pestana

Referências:

#PrimeiroAssédio

https://catracalivre.com.br/geral/cidadania/indicacao/mulheres-compartilham-no-twitter-relatos-da-primeira-vez-que-sofreram-assedio-sexual/

Pesquisa: Inep

http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2014/03/b-culpa-e-delasb-e-o-que-pensam-os-brasileiros-sobre-violencia-contra-mulher.html

Mapa da Violência

http://g1.globo.com/se/sergipe/noticia/2015/11/mapa-da-violencia-revela-dados-de-homicidio-de-mulheres-em-sergipe.html

http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2015/MapaViolencia_2015_mulheres.pdf

6 dados sobre a violência contra a mulher

http://super.abril.com.br/comportamento/dados-violencia-contra-a-mulher-brasil

Escrito por

Jornalista Brasileira. Produtora de conteúdo. pura canceriana. descobrindo maneiras de agradecer, sempre. respirando fundo, de vez em quando. a louca da poesia, dos contos e das letras de músicas. Journalist brazilian w/ italian citizenship - cargocollective.com/giuliasimcsik

Clique para comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

RECOMENDADOS PARA VOCÊ:

Se liga. Ela é superior, sim!

VIVA+

Pagar a conta é machismo ou cavalheirismo?

VIVA+

#MulheresIncríveis superação e lindas histórias no #CafécomBlink

CAFÉ COM BLINK

Mulheres incríveis, mulheres invencíveis

VIVA+

Blink102 Blink102 Blink102 Blink102 Blink102

Comentários

“TagSômetro”

Posts recentes

Publicidade Blink102 Blink102 Blink102 Blink102 Blink102 300x250
Blink102 300x250
WhatsApp chat