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Quando uma livraria fecha

Quando uma livraria da cidade fecha, deveria ser decretado luto municipal. Senão estadual. Quer saber? Acho que todo o País deveria ficar enlutado. É menos um local de cultura e conhecimento. Um lugar a menos para, nós, escritores, divulgarmos nossa literatura, já que nossas letras, com exceção de Manoel de Barros, mal conseguem atravessar as fronteiras do Centro Oeste. Isto sem falar no eixo Rio/São Paulo, onde tudo acontece.

Mas esta crônica não é para chorar o leite derramado. É apenas um lamento de quem sempre foi apaixonada pelas coisas e costuras dos livros. Pelo ser e o saber literário. Quem ama cheiro do papel no exemplar que acabou de ser lançado, de sempre perguntar: Já chegou o novo livro do Ian Mcwan? E aquele do Amóz Oz, dá pra encomendar? Preciso urgente ler “O Irmão Alemão”, do Chico Buarque. Um cafezinho no espaço de várias salas e muito verde rendia longos papos. No princípio havia apenas uma máquina logo na entrada. Depois a livraria ganhou um Café de verdade. Era lá que tanta gente marcava reuniões de trabalho, ou de amigos, ou de ambos.

É por isto que não hesito em dizer: quando uma livraria fecha suas portas, porque o negócio se tornou inviável economicamente, a gente chora duas vezes. A segunda pela falta de leitores, pelo desinteresse da sociedade por este universo tão vasto e tão rico que são os livros. E nesta última semana de funcionamento da Leparole, estou tentando reunir forças e coragem para me despedir. E buscar uma meia dúzia de livros de minha autoria que estavam nas prateleiras, junto com Abílio de Barros, Raquel Naveira, Lucilene Machado, Henrique Medeiros, Glorinha Sá Rosa e tantos outros escritores do Estado. A Leparole foi um guarda-chuvas importante para os autores regionais.

E quantas crianças passaram por lá para ouvir a Contação de histórias dos sábados? Centenas delas, com certeza, vão se lembrar destes momentos de pura magia. A Leparole nunca foi apenas um local para compra de livros. Era o espaço do cinema, das discussões filosóficas, literárias, dos projetos – muitas vezes grandiosos – que fazíamos entre xícaras de café e pães de queijo. Foi o templo onde nos era oferecida uma cadeira e mesa especiais para receber os amigos e leitores em noite de autógrafos. Nessas ocasiões revíamos amigos e algumas vezes até choramos de emoção.

Por tudo isto, junto minhas mãos para agradecer, embora o coração partido, à Renata e, mais recentemente, a Luciana, por criar e manter o espaço em meio aos inúmeros desafios. A cada funcionário que trabalhava com paixão e tratava nossos livros com carinho. E que Campo Grande possa sentir na pele o quanto fará falta um lugar feito de livros e pessoas. Um lugar que não era em Notting Hill do cinema, mas localizado em meio ao verde do Jardim dos Estados e onde todos eram estrelas. Todos.

Escrito por

Theresa Hilcar é mineira, de Lagoa da Prata e chegou em Campo Grande no início dos anos 1980. Pouco depois iniciou sua carreira jornalista atuando como apresentadora de TV e participou de diversos programas nacionais como convidada. No jornalismo impresso passou pelo Jornal da Cidade, Revista Executivo Plus até chegar ao jornal Correio do Estado (sua melhor escola, como costuma dizer), onde atuava, principalmente. como repórter de cultura. Foi no jornal que se descobriu cronista e passou a publicas suas crônicas todas às terças-feiras, por quase 30 anos. Cursou Letras e Comunicação Social. Tem sete livros publicados e algumas antologias. Aos 61 anos, a jornalista e escritora diz que a coluna da Blink é quase um reinventar-se. Afinal, escrever para um púbico mais jovem será um desafio, confessa. No entanto, espera que seus textos possam conversar com leitores de todas as idades. É cinéfila de carteirinha, apaixonada por literatura se nunca se cansa de viajar. Por países e textos.

1 Comentário

1 Comentário

  1. Lucilene

    26/09/2019 em 20:02

    Que tristeza….. com isso cresce a ignorância que é mãe de todas as exclusões. Obrigada por colocar o tema em discussão.

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