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Quanto vale cinco estrelas

Já estava no portão quando você chegou para me buscar. Nem precisei esperar um minuto, já vi pelo mapa que estava ali. Adoro quando me chama pelo nome, mesmo sabendo que nunca te conheci nessa vida.

Entrei no carro e no meu lugar, “sentado”, tinha um violão. Você nem tinha se dado conta que ele estava ali e num impulso envergonhado de ter que me dizer o porquê, começou a se revelar.  “Sou músico da noite, como se o dia não nos trouxesse canções”. Respondi? Deixa ele aqui comigo, imagina levar para o porta-malas. Posso ver? Ele respondeu: Claro, esse é meu xodó.

Abri a capa preta, sofrida e desbotada, que não protegia era nada. Você dirigia e no banco de trás, eu e seu violão xodó. Olhei para ele, madeira clara, cordas de aço surradas, que deveriam machucar seus dedos, nas muitas canções comuns que saíam pelos bares, se bem que você disse que não queria mais tocar assim porque os bêbados tornavam sua noite triste e que agora só nas residenciais musicais que te queriam ouvir.

Seu carro me levava para casa, andava devagar na avenida, numa linda tarde de outono, onde tudo reluz e parece que vira ouro.  Comecei a dedilhar um Tim Maia, com toque de bossa nova e baixinho, cantei “Não sei porque você se foi, tantas saudades eu senti e de tristeza vou viver…” Você entrou na música, cantando com sua voz suave e me fez tocar mais firme, cantar mais alto.

Ali, nós dois, eu tocando para você e você cantando para mim, no nosso teatro do teu carro mil, uma cantoria para uma plateia de árvores que passavam, o céu azul que assistia e a doce dança das nuvens brancas a nos dizer que bom mesmo é viver, estar aqui e se entregar. Então será assim e que assim seja.

Você foi o melhor Uber que já peguei. Vou te dar cinco estrelas.

Escrito por

Linda Raquel Benitez é uma brasileira campo-grandense. Empresária, e estudante de filosofia, é produtora cultural e design de eventos, há 20 e poucos anos na estrada. Formada em buscar um jeito mais leve de ver a vida, sua especialização é falar sem parar. Desde o ano passado, decidiu escrever e assumir suas crônicas para o mundo.

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