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Quebra de confiança

Ninguém comentava nada no colégio. Poucas pessoas sabiam que o mestre andava assustando alunas na minha classe. Três amigas me contaram, mas pediram segredo. Não queriam que a coisa se espalhasse e chegasse aos ouvidos dos pais. Eram meninas de famílias tradicionais da cidade, e o medo do escândalo – e da vergonha – era maior que o pavor de frequentar as aulas. Aos 12 anos de idade, por alguma razão, a gente acredita que a culpa é sempre nossa. O jeito era manter tudo debaixo do tapete. Mesmo pressentindo que aquilo iria continuar. Na sala de aula, a cabeça girava em perguntas: quem será a próxima? Quem senta na frente, ou quem fica na última fila? Seria a menina do canto, sempre quieta, ou aquela que conversa a aula inteira? Eu sabia que minha hora chegaria.

O receio era proporcional ao desapontamento. A desilusão, igual ao pavor de ser a próxima vítima. Difícil aceitar que o professor, nosso Sidney Potier do filme “Ao Mestre, com Carinho”, sucesso na época, era o mesmo homem que agora nos deixava em pânico. Aonde foi parar o homem que ensinava a História do Brasil de um jeito tão encantador que nos fazia adorar a matéria? Patrício não era um ator de Hollywood, mas ganhou uma legião de fãs. Sua mulher, professora de Moral e Cívica, uma loura de dentes grandes e ligeiramente tortos, era doce e meiga. Como não tinham filhos, dedicavam o tempo aos alunos e ao colégio.

Mas em pouco tempo nosso amigo tornou-se inimigo. Passou de mestre para algoz. Durante o recreio, a gente se reunia num canto do pátio, para conversar sobre o assunto. Cada dia era um novo detalhe, uma descoberta. Foi assim que descobrimos o método: toda sexta-feira, quando sua aula encerrava o dia e o colégio ficava vazio, ele vinha com a mesma história. Assim que os alunos começavam a sair, ele mandava alguém ficar na sala. Sempre com a desculpa do dever de casa mal feito. Depois trancava a porta e virava o monstro. Ele não falava nada. Elas choravam baixinho, enquanto suas saias eram amarfanhadas e as camisas do uniforme desabotoadas.

Eu tremia só em pensar que minha vez chegaria. Seguindo o padrão, ele dispensou a turma e pediu que eu ficasse. Argumentei alguma coisa, mas ele foi ríspido e curto. Fica. Meu coração disparou, minha boca ficou seca e eu senti um pavor tão grande que, sem pensar, gritei por socorro. E ainda consegui pegar a chave em cima da mesa, abrir a porta e sair correndo. No corredor, ele gritava: se não voltar agora, vou lhe dar zero. Mas eu não me importei. E continuei correndo pelo prédio vazio até chegar ao portão.

Minhas amigas estavam lá à minha espera. Ao saber o que eu tinha feito, entraram em pânico. E agora? A minha coragem havia comprometido o segredo. A mãe, desquitada e corajosa, apoiou minha decisão. No dia seguinte, enfrentei o mal-estar na sala do diretor do colégio e, mais tarde, o olhar surpreso e desconsolado da esposa. Não me lembro da conversa. Só dos gestos cuidadosos da minha mãe, da conversa emocionada e de uma frase: “Eu não sabia”. Depois veio a demissão, a mudança da cidade e ninguém mais tocou no assunto. Eles eram meus vizinhos. E aquela casa ficou assombrada por um bom tempo.

Escrito por

Theresa Hilcar é mineira, de Lagoa da Prata e chegou em Campo Grande no início dos anos 1980. Pouco depois iniciou sua carreira jornalista atuando como apresentadora de TV e participou de diversos programas nacionais como convidada. No jornalismo impresso passou pelo Jornal da Cidade, Revista Executivo Plus até chegar ao jornal Correio do Estado (sua melhor escola, como costuma dizer), onde atuava, principalmente. como repórter de cultura. Foi no jornal que se descobriu cronista e passou a publicas suas crônicas todas às terças-feiras, por quase 30 anos. Cursou Letras e Comunicação Social. Tem sete livros publicados e algumas antologias. Aos 61 anos, a jornalista e escritora diz que a coluna da Blink é quase um reinventar-se. Afinal, escrever para um púbico mais jovem será um desafio, confessa. No entanto, espera que seus textos possam conversar com leitores de todas as idades. É cinéfila de carteirinha, apaixonada por literatura se nunca se cansa de viajar. Por países e textos.

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