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Quem manda em mim

Ele me faz de gato e sapato, como na música da Rita Lee. Puxa meu cabelo, enfia o dedo no meu nariz, na minha orelha; arranca meus brincos, puxa meu colar e morde meu queixo. Com 75 centímetros de altura e 9,5k de peso, ele tem força suficiente para me nocautear, levar à lona, me deixar no chão – às vezes de quatro. Mais um pequeno – grande milagre do universo para provar que nada acaba em nós. Que tudo recomeça indefinidamente, várias e várias vezes.

Esta força da natureza se chama Luca. E como todos já devem ter adivinhado, é meu neto. Meu primeiro neto. E antes de continuar o assunto, devo esclarecer que jamais desejei ser avó. Diferente de boa parte das minhas amigas, nunca fiquei “pedindo” a continuidade dos meus genes. Nunca me vi num lugar onde alguém estaria me chamando de algo para o qual não me sentia pronta. E, que, obviamente, significaria que envelheci.

Eu, heim? Achava graça quando via uma delas dizer que não poderia sair porque tinha que cuidar do filho(a) da filha(o). Que chatice, pensava.
Mas a existência tem dessas coisas meio mágicas. E quando a gente menos espera está lá, na sala de espera, ensandecida pelo neto que vai nascer. No segundo dia já morre de saudades. E quando, lá na frente, ele lhe dá o primeiro sorriso, nada mais no mundo terá tanta importância quanto este momento. Que só compete quando ele, sorrindo, lhe oferece os braços para que você o pegue no colo. Santo Deus!

Alguém me disse, certa vez, que neto é a única pessoa que lhe ama incondicionalmente. Bonita a definição, mas tem lá suas controvérsias. No século passado as avós eram mitificadas e nem sempre tão benevolentes. Da minha parte, nunca tive este amor incondicional pelas minhas avós. A paterna tinha ares soturnos e nunca fazia carinho. A materna me tratava na ponta do laço, à ferro e fogo. Raramente me dava folga. Mas admito que isto criou em mim uma personalidade mais resiliente. O que não aconteceria sem sua intervenção, já que filhos únicos tendem a ser complacentes consigo mesmo e tirano com os outros.

Depois de tantos anos me pergunto: mudaram as avós, os pais, ou mudou o mundo? Com o advento dos 50 sendo os novos 40, a atual safra de avós é cada vez mais nova. Nada daquela figura de cabelos brancos e cadeira de balanço. A maioria prima pela boa aparência, tem uma carreira profissional, é atuante, antenada e não têm pudores em demonstrar afeto.

Também não esperem bolinhos de chuva ou mingau de aveia das suas vovozinhas. Elas vão levar os netos para a Disney, à praia, algumas levarão até para a Europa. Muitas até falam com eles usando o vídeo do smartphone. E ai de quem se interpor nesta relação de amor explícito. Ou como disse uma frase dessas perdidas na internet: “Você não manda em mim. Você não é meu neto”. Sacou?

Escrito por

Theresa Hilcar é mineira, de Lagoa da Prata e chegou em Campo Grande no início dos anos 1980. Pouco depois iniciou sua carreira jornalista atuando como apresentadora de TV e participou de diversos programas nacionais como convidada. No jornalismo impresso passou pelo Jornal da Cidade, Revista Executivo Plus até chegar ao jornal Correio do Estado (sua melhor escola, como costuma dizer), onde atuava, principalmente. como repórter de cultura. Foi no jornal que se descobriu cronista e passou a publicas suas crônicas todas às terças-feiras, por quase 30 anos. Cursou Letras e Comunicação Social. Tem sete livros publicados e algumas antologias. Aos 61 anos, a jornalista e escritora diz que a coluna da Blink é quase um reinventar-se. Afinal, escrever para um púbico mais jovem será um desafio, confessa. No entanto, espera que seus textos possam conversar com leitores de todas as idades. É cinéfila de carteirinha, apaixonada por literatura se nunca se cansa de viajar. Por países e textos.

5 Comentários

5 Comments

  1. Juliana

    12/06/2019 em 10:11

    Simplesmente linda a crônica! Amei, me emocionei.. 😊❤️

  2. Maria Adélia

    12/06/2019 em 11:25

    Adorei! Theresa continua Theresa! Parabéns ao Luca por mudar o ponto de vista da avó. Parabéns à Blink, pela cronista!

    • Theresa

      12/06/2019 em 14:58

      Grata, Adélia, pelas generosas palavras.👍💋

  3. Norma Freitas

    12/06/2019 em 13:31

    Delicioso texto. Linda vovó que se rende ao neto.

  4. André Alvez

    16/06/2019 em 11:43

    Ah, Theresa, o seu texto me fez voar em pensamentos, deu asas à imaginação, e de repente, estou aqui afagando o rosto do meu neto (que também manda em mim) imaginando você com o Luca, beijos, abraços e carinho esparramados a cada palmo do seu lar. Lindo texto, parabéns.

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