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Quem ouvir, favor avisar

Vida Fashion Week

Meu querido Juca,
Onde quer que você esteja, que seja luz.  Escrevo porque amanheci pensando naquele dia que te ouvi dizer que quem nasceu águia não pode ser galinha. Naquele tempo em que as manhãs pareciam ter trinta horas, e que alívio mesmo só sentia quando sua voz mansa surgia na madeira velha daquele rádio. Acho que eu tinha mesmo era tédio de menina e o arrastar das coisas em casa só acabava nessa janela de mundo que você me ampliava. E nesse dia que descobri que poderia ter asas, acreditei muito e escrevo para dizer muito obrigada pela utilidade pública de você me tornar uma pessoa mais livre.
Sabe Juca, pensando aqui com meus botões: que belezura de programa de rádio você fez. Imaginar que ligava os pontos de pessoas tão distantes, lendo aqueles bilhetinhos que deixavam lá na loja do fazendeiro e tanto fazia ser de morte, de amor, de dor. Avisar que a chave está no sítio do vizinho ou que a dona Gertrudes vai descer no ponto do Portilho. Avisar que a criança vai nascer. Que a saudade bateu. Que o Tonico vem na terça. Aqui nos meus botões agora, a certeza de que você lia mesmo era a poesia de viver.
Desde que você partiu, em dois mil e treze, muita coisa aconteceu. Os bilhetinhos agora não estão mais lá na loja e não tem mais outro Juca para ler. Agora a própria pessoa lê no celular, se bem que não sei se a Dona Gertrudes aprendeu a ler. O que quero que saiba é que agora todo mundo sabe tudo o tempo todo e mais rápido que uma flecha. Que o que você lia devagar, dava para entender bem e hoje parece uma montanha de letras numa avalanche sem fim, que se não prestar bem atenção, quase nada se aproveita. Às vezes isso é bom, mas nem sempre.
Esse mundo hoje não está muito preparado para as águias. Veja bem, meu celular tem prefixo do Rio de Janeiro, sim, andei voando por lá e hoje estou procurando pouso em Santa Catarina. Ontem mesmo precisei falar com um amigo em Mato Grosso do Sul. Liguei de um número fixo para o número dele, que sabia decor, coisa que não fazia há uns cinco anos. Ele não atendia, não atendia. Pois você acredita que tive que ligar para outra amiga de lá também e pedir que o avisasse para que ele me atendesse? Sabe o que ela me explicou? Que quase ninguém atende número de fora porque acham que é cobrança. Os prefixos de fora, cobranças ou presídios, dá para imaginar isso, Juca? Para que telefone se não vão mais telefonar ou atender números de fora? E o que são os números de dentro ou números de fora? Realmente ligam o tempo todo de números zero oito cinco, zero vinte um, mas e se for eu ligando? Como fazer?
Os tempos ficaram instantâneos e os encontros já não são mais nos entroncamentos. Isso faz minhas manhãs durarem mais de sessenta horas e hoje, ou eu continuo naquele tédio de menina ou simplesmente amanheci com muita saudade do Sérgio, Juca. “Quem ouvir, favor avisar”.

Radialista Sérgio Juca

1 Comentário

1 Comentário

  1. Eristom Da Costa Goncalves

    31 — 12 às 3.10

    Essa do Juca, me lembrou de um chará com esse nome. Um cara muito especial que não está mais aqui na terra.
    Um simples homem que vivia em Iconha na terra da Lucinda.
    Depois conto o resto.
    Adorei e estou sentindo falta de voce e das suas crônicas semanais.

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