Para a poesia as pessoas podem ser como águas. Algumas são cachoeiras, que ganham beleza na queda, outras podem ser rio de água turva, que não se desapegam de nada e arrastam tudo pelo caminho. Riachinhos, nascentes, garoinhas, diz que tem para todos num sem fim de muitas formas. 

Sinto que a vida me quis água de degelo, que mansinho vem lá do alto, até virar uma lagoa azul no meio do deserto, só que desastrada que sou, não prestei atenção nisso e acabei virando outro tipo de água , dessas que vão indo, abrindo caminho à força. E vou te dizer que a culpa é do Gilsinho.

Você acredita que uma vez, numa festa da primavera da escola, de tanto medo de que ele não viesse me tirar para dançar, num impulso, fui lá eu mesma e o tirei? E sabia que ele não aceitou? Nem lembro se desmaiei. Sei que foi o dia que perdi minha calmaria e desaprendi a arte de esperar.

Sem curso desenhado, em movimentos descompassados de pressa, virei uma correnteza ladeira abaixo. O medo de ficar me fez correr e atropelar, muitas vezes meus próprios sentimentos. E se eu tivesse esperado? Será que ele viria? Será que eu saberia dançar? Onde será que ele anda?

Olha, uma coisa é certa: não acreditei na fluidez das coisas e isso me fez cansar muito. Ainda bem que descobri isso antes de encontrar meu oceano de verdades miúdas.

Agora quero mais é boiar, serenar e ver onde isso tudo vai dar. Vou diminuir o tamanho da importância desse Gilsinho. 

Anos depois, já sou água sem pressa.

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